Para fortalecer o debate sobre a legalização do aborto no Brasil

Por Mayra Cotta

Nesta semana, o debate sobre o aborto se intensificou. Em São Paulo, religiosos se uniram para chamar de assassinas as mulheres favoráveis ao aborto. No Congresso, feministas que protestavam contra a MP 557 foram agredidas pelos seguranças da Casa. E continuamos sem progredir no tema. Dificilmente, a legalização do aborto virá de nossos parlamentares, mas ainda há chances de avanço no STF.

Evidentemente, há interesses em conflito no debate acerca do aborto – de um lado, a proteção do direito à vida do feto; de outro, a tutela da saúde e da maternidade voluntária. De fato, a nossa ordem constitucional consagra a proteção de direitos fundamentais da mulher relativos à sua saúde e autonomia reprodutiva. Por outro lado, protege a vida do nascituro – embora não com a mesma intensidade com que garante a vida das pessoas já nascidas.

Sobre isto, cumpre destacar o entendimento que vem sendo adotado nas decisões dos Tribunais Constitucionais de diversos países, segundo o qual a vida do nascituro é protegida pela Constituição, embora não com a mesma intensidade com que se tutela o direito à vida das pessoas humanas já nascidas. Dessa forma, conforme avança a gestação e o feto ganha independência em relação ao corpo da mãe, o grau de proteção conferido à vida intra-uterina vai sendo intensificado. É justamente esta ligação entre o feto e o corpo da mulher que pode fazer surgir colisões de interesses que precisarão ser resolvidas por meio de ponderação.

Diferentemente das regras, os princípios, na elaboração teórica clássica de Alexy, não são aplicados pela lógica do “tudo ou nada”. Ao contrário, deve ser buscada uma ponderação de valores constitucionais, de modo que o sacrifício de um dos bens jurídicos em conflito seja o menor possível. Se dois princípios colidem, portanto, um deles terá de ceder, sem que isso implique em sua eliminação, apenas indicando, no caso, a prevalência de um sobre o outro. Sabe-se que princípios jurídicos não comportam conceitos prontos e acabados, mas antes possuem densidade, sendo possível apenas estabelecer o seu conteúdo mínimo. São, por isso, “mandamentos de otimização”, ou seja, normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível, dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes, podendo ser satisfeitos em graus variados.

Dessa forma, a aplicação de princípios requer sempre interpretação, sendo necessário recorrer à técnica da ponderação ou sopesamento entre eles quando mais de um estiver em conflito. Partindo desta idéia, é possível concluir que, não obstante deva ser protegido o embrião, os interesses deste são passíveis de ponderação frente a outros valores jurídicos. Não se questiona que a união do óvulo e do espermatozóide faz surgir uma forma de vida que já carrega em si todas as disposições para tornar-se pessoa, sendo possível afirmar que o embrião deve ser abrangido, até determinada medida, pela proteção e dignidade do homem já nascido. Por outro lado, também não se questiona que o embrião seja, como diz Roxin, apenas uma “forma prévia, ainda muito pouco desenvolvida, do homem, que não pode gozar da mesma proteção que o homem nascido.”

Enquanto o feto não for capaz de desenvolver-se fora do útero materno, a vida da mãe é prioritária, e como ‘vida’ incluem as condições psíquicas e físicas para assumir a gravidez. Afinal, não pode o direito exigir o heroísmo, devendo se contentar com o “mínimo ético” ao compreender que a maternidade indesejada pode acarretar intenso sofrimento à mulher. A legislação brasileira deve achar o ponto de equilíbrio entre os direitos humanos da gestante, a proteção à vida do embrião ou feto, reconhecendo que a proteção conferida à vida do nascituro não é uniforme durante toda a gestação, uma vez que a tutela da vida vai aumentando progressivamente na medida em que o embrião se desenvolve, tornando-se feto, até ser viável de forma independente da mãe.

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Da indignação à mudança

Já foi mencionada aqui no blogue a mobilização dos jovens na Espanha e em que contexto se dá na sua relação com a política. Os jovens lutam contra mais uma crise que ameaça seus direitos sociais, mas também contra um sistema político que não os representa. Como bem traduz no vídeo abaixo Eduardo Galeano em Barcelona.

No entanto, esse movimento recebeu críticas, principalmente da esquerda, por ser um movimento desorganizado e sem propostas concretas para resolver os problemas que os deixa indignados, como eles próprios se autodenominam. Uma carta elaborada coletivamente em uma das assembléias da praça Puerta Del Sol em Madrid  contraria essa análise. Vejamos o documento:

Estas son algunas de las medidas que, en cuanto ciudadanos, consideramos esenciales para la regeneración de nuestro sistema político y económico. ¡Opina sobre las mismas y propón las tuyas en el foro!

    1. ELIMINACIÓN DE LOS PRIVILEGIOS DE LA CLASE POLÍTICA:

o   Control estricto del absentismo de los cargos electos en sus respectivos puestos. Sanciones específicas por dejación de funciones.

o   Supresión de los privilegios en el pago de impuestos, los años de cotización y el monto de las pensiones. Equiparación del salario de los representantes electos al salario medio español más las dietas necesarias indispensables para el ejercicio de sus funciones.

o   Eliminación de la inmunidad asociada al cargo. Imprescriptibilidad de los delitos de corrupción.

o   Publicación obligatoria del patrimonio de todos los cargos públicos.

o   Reducción de los cargos de libre designación.
2. CONTRA EL DESEMPLEO:

o   Reparto del trabajo fomentando las reducciones de jornada y la conciliación laboral hasta acabar con el desempleo estructural (es decir, hasta que el desempleo descienda por debajo del 5%).

o   Jubilación a los 65 y ningún aumento de la edad de jubilación hasta acabar con el desempleo juvenil.

o   Bonificaciones para aquellas empresas con menos de un 10% de contratación temporal.

o   Seguridad en el empleo: imposibilidad de despidos colectivos o por causas objetivas en las grandes empresas mientras haya beneficios, fiscalización a las grandes empresas para asegurar que no cubren con trabajadores temporales empleos que podrían ser fijos.

o   Restablecimiento del subsidio de 426€ para todos los parados de larga duración.

 

    3. DERECHO A LA VIVIENDA:

o   Expropiación por el Estado de las viviendas construidas en stock que no se han vendido para colocarlas en el mercado en régimen de alquiler protegido.

o   Ayudas al alquiler para jóvenes y todas aquellas personas de bajos recursos.

o   Que se permita la dación en pago de las viviendas para cancelar las hipotecas.
    4. SERVICIOS PÚBLICOS DE CALIDAD:

o   Supresión de gastos inútiles en las Administraciones Públicas y establecimiento de un control independiente de presupuestos y gastos.

o   Contratación de personal sanitario hasta acabar con las listas de espera.

o   Contratación de profesorado para garantizar la ratio de alumnos por aula, los grupos de desdoble y los grupos de apoyo.

o   Reducción del coste de matrícula en toda la educación universitaria, equiparando el precio de los posgrados al de los grados.

o   Financiación pública de la investigación para garantizar su independencia.

o   Transporte público barato, de calidad y ecológicamente sostenible: restablecimiento de los trenes que se están sustituyendo por el AVE con los precios originarios, abaratamiento de los abonos de transporte, restricción del tráfico rodado privado en el centro de las ciudades, construcción de carriles bici.

o   Recursos sociales locales: aplicación efectiva de la Ley de Dependencia, redes de cuidadores locales municipales, servicios locales de mediación y tutelaje.
    5. CONTROL DE LAS ENTIDADES BANCARIAS:

o   Prohibición de cualquier tipo de rescate o inyección de capital a entidades bancarias: aquellas entidades en dificultades deben quebrar o ser nacionalizadas para constituir una banca pública bajo control social.

o   Elevación de los impuestos a la banca de manera directamente proporcional al gasto social ocasionado por la crisis generada por su mala gestión.

o   Devolución a las arcas públicas por parte de los bancos de todo capital público aportado.

o   Prohibición de inversión de bancos españoles en paraísos fiscales.

o   Regulación de sanciones a los movimientos especulativos y a la mala praxis bancaria.

    6. FISCALIDAD:

o   Aumento del tipo impositivo a las grandes fortunas y entidades bancarias.

o   Eliminación de las SICAV.

o   Recuperación del Impuesto sobre el Patrimonio.

o   Control real y efectivo del fraude fiscal y de la fuga de capitales a paraísos fiscales.

o   Promoción a nivel internacional de la adopción de una tasa a las transacciones internacionales (tasa Tobin).


7. LIBERTADES CIUDADANAS Y DEMOCRACIA PARTICIPATIVA:

o   No al control de Internet. Abolición de la Ley Sinde.

o   Protección de la libertad de información y del periodismo de investigación.

o   Referéndums obligatorios y vinculantes para las cuestiones de gran calado que modifican las condiciones de vida de los ciudadanos.

o   Referéndums obligatorios para toda introducción de medidas dictadas desde la Unión Europea.

o   Modificación de la Ley Electoral para garantizar un sistema auténticamente representativo y proporcional que no discrimine a ninguna fuerza política ni voluntad social, donde el voto en blanco y el voto nulo también tengan su representación en el legislativo.

o   Independencia del Poder Judicial: reforma de la figura del Ministerio Fiscal para garantizar su independencia, no al nombramiento de miembros del Tribunal Constitucional y del Consejo General del Poder Judicial por parte del Poder Ejecutivo.

o   Establecimiento de mecanismos efectivos que garanticen la democracia interna en los partidos políticos.


8. REDUCCIÓN DEL GASTO MILITAR

    9. ELIMINAR EL SENADO.

Noruega, Suecia, Dinamarca, no tienen Senado, Alemania solo 100 Senadores y EE.UU, un senador por cada Estado.

Los grandes teóricos del Derecho Internacional y Constitucional opinan que es una cámara imnecesaria, prescindible y que está en extiención, ¿entonces porqué tenemos que mantener a 260 senadores?

De esta forma ahorraremos 3.500 millones de euros cada año.

Eliminar la pensión vitalicia de todos los diputados, senadores y demás. “Padres de la Patria”.

ELIMINAR A TODOS los diplomáticos excepto un embajador y un cónsul en cada país. No es posible que gastemos en esto más que Alemania y el Reino Unido).

Con eso, y con rebajar un 30% las partidas 4, 6 y 7 de los PRESUPUESTOS GENERALES DEL  ESTADO (transferencias a sindicatos, partidos políticos, fundaciones opacas y varios), se ahorrarían más de 45.000 millones de Euros y no haría falta tocar las pensiones ni los sueldos de los funcionarios, como tampoco haría falta recortar 6.000 millones de Euros en inversión pública.

CON LA MITAD DEL DINERO QUE EL ESTADO SE AHORRARÍA CON ESTAS MEDIDAS,  SE ACABARÍA LA CRISIS EN ESPAÑA

Por el cambio de la ley electoral, y por una democracia participativa de verdad, donde nuestra opinión, la de los ciudadanos,  sea lo que gobierne, no una papeleta cada cuatro años y que hagan con ella lo que quieran sin dar cuentas ni explicaciones.

Por el cambio de la ley electoral, y por una democracia participativa de verdad ¡Espabilemos de una vez! ¡No sigamos dormidos y aletargados!

SI ESTÁS DE ACUERDO, DIFÚNDELO.

No consiste en hacer lo que nos guste, sino en que nos guste lo que hacemos.

No es más feliz el que hace lo que quiere, que el que quiere lo que hace.

 

Lendo o texto percebemos que muito além de jovens indignados com a situação que lhes foi imposta, borbulham idéias nesse movimento.  Muitas dessas idéias já são conhecidas, porém, tidas como meras ilusões pela pressuposta falta de viabilidade prática, acabam sendo esquecidas. São lembradas em momentos de crise como este que vive a Espanha, quando o que é prático mostra que acaba não funcionando.

Entre as propostas da praça Del sol podemos falar da já conhecida proposta de redução das horas de trabalho como instrumento para redução de desemprego e fortalecimento de mercado interno, da imposição de uma taxa sobre as transações financeiras internacionais,  da proteção da liberdade na internet. Mas também podemos falar da proposta de reforma urbana, com expropriação das residências vazias utilizadas para especulação imobiliária, ou da possibilidade de que os votos nulos e brancos sejam representados. Como vamos fazer isso? É algo que precisa ser pensado. O que importa é que essa idéia de multidão preocupada em construir o novo existe, e talvez seja essa própria aparente desorganização a responsável por criar o novo. Como observou Renato Janine Ribeiro no Valor, para quem se interessa por um sistema governável, com maiorias estáveis,(a representação de votos brancos e nulos) trata-se de um absurdo. Mas muitas vezes chamamos de absurdo ou impossível o que é, simplesmente, (ainda) impensável. E depois, alguns desses absurdos se realizam, como a abolição da escravatura ou a igualdade dos sexos, a ponto de se inverter o que era e o que é insensato.” E continua: “Absurdo não é o que pedem: é o que existe. Faz sentido haver muitas casas vazias e muitos sem-casa, problemas fiscais e creditícios enquanto bancos espanhóis investem em paraísos fiscais, etc?”

Cada vez mais acredito que no Brasil, por termos um Governo que boa parte da esquerda acredita ser de fato um Governo de esquerda, estamos muito limitados ao que é institucionalmente possível, real, pragmático e nos contentamos com os pequenos avanços que conquistamos. Sendo que, justamente por termos um Governo que é mais próximo dos movimentos sociais, acredito que deveríamos apostar mais no impossível, no absurdo e querer mais, porque é daí que vêm as novas idéias, base para a tão esperada mudança.

Reforma Política: A proposta de Ronaldo Caiado

Por Gabriel Santos Elias

O Professor David Fleischer está ministrando neste semestre uma disciplina no Instituto de Ciência Política da UnB que já virou clássica: Reforma Política. Professor experiente e bem relacionado apresenta a história desse tema tão complexo e traz para a sala de aula personalidades do debate. Entre essas personalidades já participaram o Deputado Ronaldo Caiado e o Professor Antônio Octávio Cintra, um dos maiores pesquisadores da reforma política no Brasil.

Ronaldo Caiado, membro da frente parlamentar ruralista e do partido mais conservador do país, tem uma proposta surpreendentemente interessante e um poder de convencimento sobre as mudanças necessárias na nossa política realmente forte. De fato, sua proposta foi inclusive uma das referências utilizadas no documento da Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular já postado aqui no blog. A proposta de Caiado também conta com o mérito de Antônio Octávio Cintra, que há bastante tempo vem conversando com parlamentares e esclarecendo os pontos complexos das discussões, como a lista fechada, financiamento público, entre outros.

A proposta está aí:

Proposta para debate na Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular

Na legislatura passada, a Frente Parlamentar pela Reforma Política com Participação Popular apresentou uma proposta que servirá para iniciar os debates da nova Frente. A próxima reunião será na quinta-feira, dia 18 e participarão os partidos e organizações da sociedade civil representados na Frente. Certamente tocaremos em muitos dos temas apresentados nessa proposta na reunião do B&D sábado, inclusive para nos prepararmos para a reunião da Frente, da qual também participaremos. Portanto, para quem quiser conhecer, a  íntegra da proposta está aqui e abaixo vai uma apresentação mais simples.