Apenas um beijo gay no horário nobre?

por Fábio Felix*

O assunto mais comentado das redes sociais, seu impacto e reflexos geram curiosidade e fomentam o debate em toda as esferas. Apenas um beijo gay no horário nobre? Talvez não! É preciso nos debruçarmos sobre seu impacto e reais desdobramentos. O beijo entre dois homens ocorrido na última sexta-feira (31) na novela global em pleno horário nobre é uma novidade que pode cumprir um papel simbólico importante. O significado da naturalização, mesmo que parcial, de uma demonstração afetiva de uma orientação sexual divergente/minoritária refém de violência sistemática no Brasil pode ser um sintoma de avanço e algum nível de superação paradigmática. Não que o beijo em si tenha este significado, mas ele é parte de um processo.

O confronto ideológico em torno da pauta LGBT tem se acirrado no último período, com a organização cada vez mais empoderada dos setores “fundamentalistas” e conservadores, e com a dificuldade do movimento LGBT de dar respostas para além da institucionalidade. Este conflito tem evidenciado cada vez mais violência, crimes homofóbicos, transfóbicos e aumentado a polarização social no que se refere às pautas libertárias, não limitadas ao campo LGBT.

A demonstração de um beijo na noite de sexta-feira parece que teve um significado de libertação, coragem para muitas LGBTs brasileiras. Comentários de “vamos às ruas”, comemorações, sentimento de conquista foram latentes na nossa comunidade que sofre em pleno 2014 uma confrontação social com resquícios inquisitórios. Este sentimento complexo gerado não pode superestimar os efeitos do acontecido, mas, também, não deve ignorar suas possibilidades. Talvez o fato possa significar mais esperança e combustível na luta contra a opressão e pela livre expressão da sexualidade. 

Cristiano Lucas Ferreira, militante da Cia Revolucionária Triângulo Rosa, fez um resumo importante do resultados incertos do ocorrido em seu texto Um beijo

E o que irá mudar se houver o beijo na novela? Bom, pelo que sei, nada! As travas, bichas e sapas continuarão a serem assassinadas com violência, continuaremos sendo piada sem graça do Zorra Total e similares, expulsos/as de casa, das escolas ou dos hospitais, vítimas de todas as formas possíveis de violência além de temas de sermões em púlpitos ou palanques. Mas num país, alfabetizado pela TV, retratar dois homens se beijando não é só um espetáculo, é também, pedagógico.” (Texto publicado na página da Cia Triângulo Rosa no Facebook)

Beijo gay

Beijo de Félix na novela global

A Globo é progressista?
Óbvio que a existência de um beijo gay, demonstração tão trivial de afetividade ou desejo, não deve nos iludir que a Rede Globo tenha se tornado uma aliada nesta pauta ou que ela tenha algum compromisso com lutas que enfrentam o conservadorismo. Pelo contrário: a Rede Globo, uma das maiores emissoras de TV do mundo, continua sendo parte da comitiva de frente das diversas opressões de classe, raça e gênero no Brasil. Novelas, programas e toda uma linha editorial construída para manter o andar de baixo calado e subserviente aos interesses das classes dominantes. Legitimação de uma política econômica devastadora para a população, difusão de toda forma de preconceito racial, um reforço a diversas práticas machistas e também homofóbicas. 

A lógica do mercado rege os interesses desta empresa, então sua sensibilidade para o tema tem relação com números e a abertura de um “diálogo” com um mercado em ascensão no Brasil. A indústria do entretenimento LGBT, as festas que faturam milhões no Brasil, o circuito das Paradas do Orgulho e etc.

Neste sentido, elogiar o beijo ocorrido na programação da Globo deve levar em conta uma análise mais complexa, que trata os fenômenos não como concessão ou possível aliança, mas enxergar a profunda pressão ocorrida nas últimas décadas que foi capaz de criar a correlação de forças para o acontecido. Ou seja, o poder popular é um elemento marcante nestas variações editoriais adotadas. 

Basta nós lembrarmos o que ocorreu nas manifestações de junho, quando, após a ida de milhões às ruas, ouvimos Arnaldo Jabor pedindo desculpas e a TV Globo junto com outras emissoras poderosas protagonizando um giro ideológico de alta rotação. Não devemos nos enganar, a Globo continua sendo um forte instrumento de alienação popular. Há ainda a tentativa desta de retomar o diálogo com “setores descontentes” com a mídia brasileira. Quem não se lembra dos carros de TV apedrejados e queimados em junho de 2013? Tem crescido na população um sentimento cada vez maior de desconfiança com a mídia, e estes momentos podem servir para “quebrar o gelo”. Esta avaliação não esvazia o beijo de seus significados.

O enfrentamento ao fundamentalismo
Desde a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, temos nos preocupado com a organização deste setor político fundamentalista, que reúne, entre outros, o Pastor Silas Malafaia, Marcos Pereira e o Deputado pró-ditadura Jair Bolsonaro. Um possível sinal de avanço não pode nos fazer arrefecer a resistência e organização para enfrentar politicamente os sórdidos argumentos levantados por eles. Felizmente eles não representam a maioria dos evangélicos e católicos brasileiros. Aqueles com maior densidade teológica não se sentem, da mesma forma, representados por estas lideranças. 

Declarações do Pastor Caio Fábio e do Padre Fábio de Melo representaram uma diferença clara de quais são os fundamentalistas e intolerantes e quem são aqueles com que há possibilidade de constituir algum diálogo democrático dentro das contradições e diferenças de concepção. Estes dois citados tratam a questão LGBT com mais respeito aos direitos civis e criticam a postura extremista e oportunista das lideranças de Malafaia e Feliciano.

Portanto, o desafio de construir novas estratégias da luta sexodiversa, ampliar a mobilização pelo casamento igualitário, por programas anti-homofobia e por uma sociedade que respeita a diversidade deve continuar nos movendo. Devemos espalhar esta necessidade e reforçar que as poucas vitórias que tivemos vieram da nossa luta e organização coletiva.

Um beijo para Dilma e Agnelo
A cena da novela e os milhões de beijos trocados todos os dias entre casais do mesmo sexo devem servir para lembrar a Presidenta Dilma de suas opções. Em nome do que se chama de governabilidade a presidenta deixa claro que prefere se aliar com os setores mais atrasados da religião, ao rifar as medidas de garantia de direitos para LGBTs no Brasil, realizar acordos em torno da retirada do PL 122 de pauta no Senado, extinguindo o Programa de educação para a diversidade nas escolas e deixando os programas de combate à homofobia no Brasil em completo abandono. Da mesma forma, o Governador do DF, Agnelo Queiroz, menos de 24h depois de publicar a regulamentação da lei que previa punições administrativas para práticas homofóbicas em estabelecimentos comerciais, revogou a decisão. Voltou atrás por pressão do fundamentalismo e mostrou claramente de que lado está.

Nossa tarefa é politizar o debate do beijo trazendo a reflexão crítica sobre a coalização governante brasileira que privilegia a aliança com o fundamentalismo, apontar os limites de um movimento LGBT que mantenha vínculo orgânico com os governos e não aposta na luta social, construir novos movimentos combativos para a disputa dos rumos da luta LGBT, e aliar as nossas mobilizações ao desafio de enfrentar o capitalismo e as diversas opressões que ele agrava e impõe. A esquerda brasileira precisa ousar subverter a lógica heteronormativa com ações que demonstrem compromisso claro com esta pauta. Para que este beijo signifique muito mais, precisamos agir!

* Fábio Felix é militante ELA, PSOL, Assistente Social e mestrando em Política Social pela UnB

Mãos sujas: homofobia mata!

Por Fábio Felix e Daniel Jacó

Uma morte banal. Um corpo numa rua em São Paulo. Depois por dias sem identificação no IML. Desfigurado. Sem dentes. Com uma barra de ferro atravessada em uma das pernas. Com dedos quebrados. Mais um “indigente.” Só mais um.

Matamos nossos gays por que eles nos assustam. Lembram-nos que a casinha perfeita papai e mamãe não é a única casa. Estão aí pra avisar que sexualidade é espontânea mas não é natural. Pra avisar que possuir um pinto não garante o domínio sobre uma casa, sobre uma mulher, sobre uma cultura. Pra mostrar que estamos todxs travestidxs, brincando papéis de gênero decadentes e os negociando. E isso assusta muito homem. Assusta a ponto de torturarmos. Assusta a ponto de matarmos.

Matarmos. Nós o matamos, sim.

Mais um jovem gay assassinado, em meio a tantas travestis torturadas, lésbicas espancadas, casais do mesmo sexo agredidos verbal e fisicamente. A barbárie que nos amarra na institucionalidade da conveniência e da inoperância. Se não há sangue em nossas mãos, é porque as lavamos.

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Talvez não sejamos culpados, mas somos certamente responsáveis. Mantemos os gays reféns. Todas as políticas voltadas ao combate a homofobia são rifadas – sejam políticas protetivas com dimensão educacional, como o Kit Escola Sem Homofobia, sejam elas punitivas, como o PLC 122 (que criminaliza a homofobia), permanecem paradas, enquanto milhares de homossexuais, travestis, transexuais e trangêneros continuam reféns da violência simbólica, psicológica e física explicita de uma sociedade que tem medo de liberar sua sexualidade, e que mata quem quer ouse liberar sua própria.

Nossos destinos são negociados no submundo do Congresso Nacional e nossas vidas são rifadas por coligações e governabilidade. “Mas eles têm o direito de não concordar com a prática de vocês”. E as mãos são lavadas.

O Governo de Dilma – PT abandonou o movimento LGBT para manter um elo com os setores religiosos mais atrasados. Governabilidade. Em termos leigos, para manter o poder mesmo – em troca de jogar no ralo os direitos de milhões de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais brasileirxs.

Na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República é mantida uma Coordenação LGBT. Mas pra quê? Se não conseguimos nenhum avanço via Executivo? Sua influência nas decisões, nos rumos e nas disputas da política pública brasileira é quase nula. A prioridade foi escolhida: manter as alianças para a governabilidade conservadora e contribuir para os retrocessos.

Ontem, ao ler a matéria e assistir ao vídeo da morte de Kaique, de 16 anos, negro, no início de sua vida, nos indignamos profundamente com o descaso das instituições e com a forma como é tratada a história de vida das pessoas. Cadáver desfigurado. Sem dentes. Com uma barra de ferro atravessada um uma das pernas. Com dedos quebrados. Pra Polícia de São Paulo, um suicida.

Este caso junto como tantos outros, deve nos fazer refletir sobre o apartheid de classe, raça, gênero e orientação sexual existente em nossa sociedade. A necessidade de superação de uma sociedade profundamente desigual e discrimatória que hierarquiza a cada segundo as pessoas por suas condições de existência.

O nosso grande desafio é construir uma nova cultura social de respeito à diversidade e a livre expressão da sexualidade. Não há como conviver com a violência, a apatia patrocinada por nossos governantes e por setores tão conservadores das religiões mais atrasadas. Aqueles que dizem pregar o “amor” lutam cotidianamente contra a criminalização da homofobia, se articulam contra os direitos das relações homoafetivas. O falso discurso do “amor” acaba se transformando em ódio, sangue e morte!

Precisamos limpar nossas lágrimas, e transformar nossa indignação em ação política coletiva e organizada, tanto para denunciar o tamanho da violência que nossas instituições praticam quando se silenciam quanto para nos sentirmos parte do mesmo corpo que sofre todos os dias a ausência de vida em totalidade e de direitos e plenitude.

Superar a homofobia é uma transformação cultural profunda que exige assumir responsabilidade. Exige ver as lutas com clareza. Exige, acima de tudo, que não lavemos nossas mãos.

Daniel Jacó é militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA), LGBT e Advogado

Fábio Felix é militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA), LGBT e Assistente Social

A luta é libertária: a relação entre as opressões e o anticapitalismo

Fábio Felix[1]

Há uma grande responsabilidade para a esquerda brasileira ao se debruçar sobre as discussões relativas à luta de classes e às pautas libertárias. Um dos desafios é teórico: como produzir sínteses que sejam capazes de dialogar com as teorias clássicas, mas conduzir a atualização de conceitos e fugir da estreiteza em que muitos mergulham nas análises das estruturas sociais? Outro desafio de igual grandeza é político, pois não há como construir uma leitura aberta e dialética da interação da luta de classes com as pautas LGBTs, feministas, racial e indígena, entre outras, sem buscar alternativas políticas de organização e perspectivas de ação.

Dessa forma, esta discussão precisa iniciar com a reflexão sobre como deve se dar a compreensão dos conceitos trazidos por Marx. Isto significa afirmar que os instrumentos científicos e políticos que compõem sua obra não podem se tornar dogmas cristalizados e intransponíveis. A partir das necessidades das novas conjunturas e dos rearranjos do modelo societário é preciso ter ousadia para que estes fundamentos possam ampliar nossa leitura e não limitá-la.

Não há como analisar a sociedade na perspectiva da totalidade sem o reconhecimento de sua divisão em campos divergentes inseridos na lógica do Capital que se relacionam com os diversos processos e fenômenos sociais. Neste sentido, apartar por completo as pautas de LGBTs, feministas e racial da agenda da luta de classes pode nos levar a uma leitura imprecisa das opressões. Esta lógica fortalece visões fragmentadas e artificiais da questão, como relaciona Leal (2007) ao tratar de suas inquietações de gênero.

Há o exemplo clássico dos dois gays localizados em classes sociais distintas em certa realidade: um mora em um bairro de elite e tem acesso a serviços e produtos de última geração e o outro em uma periferia e possui longas jornadas de trabalho. O que difere as duas realidades? Ambos sofrem da mesma forma a homofobia? São perguntas que descortinam um pouco esta discussão e os desafios que ela levanta. Sim, ambos sofrem homofobia, são tratados de forma violenta por serem gays, são vítimas de violência simbólica e outras formas de opressão por sua orientação sexual; mas as duas realidades guardam peculiaridades também: o gay da periferia tem sua condição de homossexual submetida a outras possibilidades de violação, a partir de seu local de classe, o que pode implicar em uma ampliação de sua vulnerabilidade e subalternização.

Os instrumentos para gays e lésbicas do andar de baixo responderem à homofobia e à violência são bem diferentes do primeiro. As formas que os dois personagens se relacionam com a complexa dinâmica da vida humana, suas interfaces, instituições e processos são distintas, apesar de guardarem semelhanças.

Este exemplo também é importante, inclusive, para escancarar que o mercado também cumpre a função de mascarar as diferenças de identidades, buscando normatizar e privatizar a cultura e a estética de LGBTs. Não é possível analisar a situação de LGBTs sem discutir o quadro de mercantilização do modo de socialização, o que pode se tornar uma cidadania “sexodiversa” às avessas. Um passo fundamental para o movimento social que lida com esta pauta é enfrentar, sem sectarismos, a estética predatória e uniformizante do capital.

Um ponto fundamental da discussão desta contribuição está na necessidade de fugirmos da hierarquização destas pautas. A sobreposição de uma questão sobre a outra fragiliza a organização dos movimentos sociais, sua interação e afasta a possibilidade de construções políticas na perspectiva da totalidade que respeitem a diversidade. Por tudo isto, as pautas libertárias, tais como a luta LGBT, das feministas, de negras e negros são estruturais.

Nesta perspectiva, concomitante com a afirmação destas questões estruturantes, não há como fugir da pauta anticapitalista e da luta de classes. A diferença, aqui, é como estas se relacionam. Assim, construir estes debates de forma ahistórica, pluriclassista e não à luz das outras inquietações também estruturantes não semeará a possibilidade de construção de um enfrentamento a este modelo social, político e econômico opressor.

Por isso, Mészáros (2002) propõe que estas pautas se relacionam: “centrada na questão da igualdade substantiva, uma grande causa histórica entra em movimento sem encontrar saídas para sua realização dentro dos limites do capital. A causa da emancipação e da igualdade das mulheres envolve os processos e as instituições de toda a ordem sociometabólica”.

Por outro lado, não se pode tratar as pautas libertárias como mera expressão da luta de classes porque isso artificializa a discussão e tenta simplificar temas de alta complexidade. Qualquer consideração de que as opressões de gênero, raça e orientação sexual são resultado automático e natural da contradição capital-trabalho limita a discussão e fecha as portas para a atualidade destes debates. É preciso inauguramos um novo modelo de interação entre estes conceitos, que não implique em contraposição ou sobreposição. Isto significa afirmar que a contradição capital-trabalho tem papel relevante nas formas de opressões identitárias e seus contornos contemporâneos.

A condução do texto até aqui reforça a importância de construção e uma aliança das pautas libertárias com o enfrentamento do capital em uma nova roupagem, mas existem algumas preocupações que precisam ser sanadas. A hiper-particularização das pautas e sujeitos sociais pode diminuir a capacidade de formulação, organização e luta coletiva por ruptura com este modelo de sociedade. A busca por um equilíbrio que não invisibilize a diversidade, mas também não a particularize, descolando-a da totalidade, deve ser perseguida para algum êxito na aliança destas pautas históricas.

Portanto, é preciso aliarmos esta discussão da interação de conceitos com a reflexão sobre a conjuntura política brasileira. Os movimentos sociais libertários, em especial o LGBT, feminista e racial buscaram uma institucionalização por meio das Organizações não governamentais (ONGs) que tem hoje um caráter predatório para o acúmulo político e a autonomia destes movimentos. Esta nova forma de movimentos sociais, na qual o estado prefere estabelecer interlocução por serem mais “técnicos, eficientes e bem-comportados” como afirma documento do Banco Mundial, põe em xeque a luta estratégica das pautas em questão. Há o um desafio de produzirmos novos contornos na organização e mobilização dos temas libertários, com independência, autonomia, desburocratização e pautados no enfrentamento à ordem opressora na perspectiva da totalidade.

O panorama político atual traz vários elementos, entre eles o ciclo PT e seu largo condomínio da governança que preteriu as alianças com as ruas e movimentos sociais e estimulou a acomodação e o apassivamento das forças insurgentes, utilizando a estrutura, a repressão e a cooptação para este fim. Ainda, priorizam a aliança com os setores mais atrasados do coronelismo, da intolerância religiosa e da prática política.

A acomodação da antiga esquerda demonstra o abandono da luta anticapitalista sintomático da deterioração ideológica e o rebaixamento programático, e as pautas libertárias são influenciadas todos os dias por estas tendências. Por isso, a necessidade de darmos novo fôlego para estas discussões fugindo do dogmatismo, mas também do oportunismo particularista que tenta despolitizar e rebaixar as pautas políticas.

O desafio colocado na tensão destes conceitos tem como pano de fundo a reorganização da esquerda democrática e radical brasileira, que precisa assumir como princípio o programa libertário, de luta em defesa de LGBTs, das pautas feministas, das pautas do movimento negro/negra, a mobilização indígena, ambiental e antiproibicionista. É urgente a construção de um novo projeto da esquerda para o Brasil que enfrente todas as formas de opressão e respeite a autonomia dos movimentos sociais. Esta articulação precisa ser capaz de inaugurar um novo ciclo de convencimento social e construção de hegemonia, o que só pode ser feito por meio do comprometimento coletivo insurgente e a interação equilibrada das diversidades políticas libertárias.

Referências:

LEAL, Maria Lúcia. Inquietações de gênero. http://www.violes.unb.br

MÉSZÁROS, István. Educação para além do Capital. São Paulo: Boitempo 2005.

Leitura prévia e sugestões:

Edemilson Paraná, Gustavo Capela, Hugo Fonseca e João Telésforo


[1] Mestrando em Política Social na UnB, militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA) e do PSOL

Para Putin: nossas cores, nossos beijos

por Hugo Fonseca e Fábio Felix

A Russia anda chamando a atenção não apenas pelo caso Snowden, última ação aplaudida deste país que concedeu asilo político temporário ao americano perseguido por denunciar a prática ilegal de invasão de dados praticada pelos Estados Unidos. Dessa vez, outro assunto toma a imprensa de todo o mundo e o país assume local de destaque, agora de forma lamentável. O governo de Vladimir Putin acaba de aprovar uma lei que tem sido entitulada de anti-gay, uma vez que proíbe e pune qualquer referência (propaganda) à homossexualidade por parte de movimentos sociais, telenovelas e publicidades de um modo geral. Fica decretado, com essa lei, o fim das paradas LGBTs e de qualquer iniciativa que tente expor de modo normalizado formas “não tradicionais de comportamentos”.

Essa não é a primeira medida que o governo russo toma contra os direitos da população LGBT. Em 2012, Putin proibiu que casais homossexuais pudessem adotar filhos/as, o que mostra que a onda homofóbica naquele país vem se consolidando cada vez mais. É revoltante que um país que tenha como política pública incentivar a violência institucional, fortalecer a opressão e o preconceito, contribuindo para a construção de uma cultura de intolerância, desrespeito e invisibilidade.

A lei anti-gay trata a homossexualidade como um mal a ser combatido. Isso fica muito claro quando vemos que o discurso para legitimá-la é de proteção às crianças. É importante a clareza de que nenhuma criança vai se tornar gay ou lésbica por assistir um casal homossexual de beijando na telenovela. Essas representações não são o que define nossa sexualidade. Se assim o fosse, o que dizer das pessoas que passaram a vida tendo contato com o beijo da “princesa e o príncipe”, com uma família com “papai e mamãe” e ainda assim são sexodiversas?

Não nos deixemos enganar: essa iniciativa do governo russo quer calar os históricos movimentos que lutam pela diversidade sexual e manter intacta a realidade homofóbica do país. Depois que o caso da lei aprovada veio à tona inúmeras notícias relacionadas ao ódio contra LGBTs na Rússia. Vários deles tratavam de atos de humilhação e violência explícita aos homossexuais russos, obrigadas/os a darem declarações para vídeos. A justificativa para todas essas atrocidades era de “combate à pedofilia”, comportamento que tem sido absurdamente relacionado à identidade LGBT.

Isso demonstra que a Rússia, assim como diversos outros países do mundo, não têm apenas um governo que patrocina a homofobia, mas uma introjeção dessa opressão no cotidiano, no senso comum da sua população. Circula pela internet um vídeo em que um apresentador de Televisão russo diz: “Eu acho que impor multas aos gays por propaganda homossexual para menores não é suficiente. Eles deveriam ser proibidos de doar sangue, esperma. E seus corações, em caso de acidente de automóvel, deveriam ser enterrados no solo ou queimados, como inadequados para a continuação da vida”

Essa situação nos chama a reagir. Precisamos estar organizadas/os nessa luta que não é só na nossa família, na nossa cidade, nem no nosso país. Se querem a nossa morte, devemos responder com a nossa vida, com a livre manifestação da nossa subjetividade, com nosso encanto. É por isso que convidamos a todas as pessoas LGBTs ou não a se manifestarem contra as medidas do governo russo e pela dignidade de milhares de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais do mundo todo. Não podemos achar que as coisas correm bem e estão melhorando “naturalmente”, nossos direitos apenas serão conquistados com nossa atuação coletiva permanente.

No próximo dia 23, sexta-feira, às 11 horas haverá Beijaço com Intervenções Artísticas em frente as representações da Rússia no Brasil (Evento do Facebook). Embaixada e consulados deverão ser tomados da nossa cor e da nossa alegria. Não admitiremos nenhum passo atrás na luta contra as opressões!

putin