Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é mestre e doutor em Sociologia pela UnB, com período sanduíche na SOAS – University of London. Atua como pesquisador pós-doutorando nos Programas de Pós-graduação em Economia e em Estudos Comparados sobre as Américas da UnB. Atuou como pesquisador-bolsista no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional (2015-16). Além de trabalhos acadêmicos publicados nas áreas de Sociologia Econômica, Economia Política e Teoria Social, é autor do livro A finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional (Insular, 2016). Também publica intervenções sobre economia e política em sítios como Blog da Boitempo, Carta Capital, Congresso em Foco, Outras Palavras e Brasil em 5.

Vai ter copa. Só não para você

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Por Edemilson Paraná*

Ingressos caros, gasto público com lucro privado, violações aos direitos humanos e ataques à democracia. Esse é o grande legado da realização da Copa do Mundo no Brasil. Revertê-lo em ganhos de mobilização política e transformação social é possível. 

Evento privado, gasto público, lucro privado

A “copa das copas” vai acontecer, já aconteceu, já está acontecendo. Pelo menos para a Fifa. Uma projeção feita pela BDO (empresa de auditoria e consultoria especializada em análises econômicas, financeiras e mercadológicas), aponta que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil vai render para a entidade, que supostamente não tem fins lucrativos, a maior arrecadação de sua história: nada menos do que US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões). O valor é 36% superior em comparação ao montante obtido com o Mundial da África do Sul (US$ 3.655 bilhões), em 2010, e 110% maior do que o arrecadado na Copa de 2006, na Alemanha, que rendeu US$ 2.345 bilhões. Os números foram confirmados pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, em entrevista coletiva realizada em junho de 2013.

Os governos tem feito sua parte para ajudar…os cartolas. Com isenção de cerca R$ 1 bilhão em impostos, o Mundial no Brasil já um ótimo negócio para a entidade. Ao todo, cerca de R$ 28 bilhões de reais serão gastos em obras de infraestrutura e construção e reforma de estádios para receber o torneio. Desse montante, quase R$ 8 bilhões estão sendo gastos em estádios, valor cuja metade é financiada por bancos federais. Apenas R$ 820 milhões gastos nos estádios foram financiados com recursos privados (segundo valores da CGU). O restante dos recursos foi aportado por governos locais, como é o caso de Brasília, onde o valor do Mané Garrincha passou de R$ 1,2 bilhão.

Cerca de um terço do valor total das obras (R$ 8,7 bilhões) está sendo financiado por bancos federais – Caixa Econômica Federal, BNDES e bancos estaduais. Boa parte desses empréstimos é tomada pelos próprios governos estaduais, sozinhos ou em parcerias com o setor privado, embora alguns empréstimos também sejam contraídos por entes privados (como os mais de R$ 400 liberados pelo BNDES para o Corinthians construir o Itaquerão). E antes que surja o papo de que o dinheiro desses bancos é privado, lembremos que o BNDES, por exemplo, é uma empresa pública. Recebe dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador para emprestar em condições privilegiadas a empresários. O fundo é formado por parte da receita de um tributo, a contribuição ao PIS/Pasep, cujo custo é incorporado pelas empresas aos preços dos bens pagos pelos consumidores.

As obras consumirão R$ 6,5 bilhões do orçamento federal e R$ 7,3 bilhões de governos locais (estaduais e municipais). Dos R$ 28,1 bilhões totais, apenas R$ 5,6 bilhões serão recursos privados (que se concentram principalmente nos aeroportos). Balela dizer que não há dinheiro público na jogada. O preço dos ingressos todos já conhecemos, as obras de infraestrutura urbana, propagandeados como o grande legado do evento, poucos viram até agora.

Em resumo, a lógica é bastante simples. A Fifa faz uma festa privada e se você quiser sediá-la precisa aceitar as condições da entidade. A verdade é que não há nenhum comprometimento com o desenvolvimento econômico, esportivo ou humano dos países que sediam grandes eventos esportivos.

Não por acaso, a Suécia – que notoriamente tem problemas sociais menos agudos do que os brasileiros – acaba de negar a oportunidade de uma candidatura para sediar as Olimpíadas de 2022. A justificativa é assustadoramente simples: o país tem outras prioridades como  habitação, desenvolvimento e providência social.

Gastos incalculáveis: o retrocesso nos direitos humanos

Não bastasse a matemática contábil básica ignorada pelos defensores dos grandes eventos, um conjunto de abusos e violações aos direitos humanos completa o pacote de “gastos” sociais incalculáveis.

Um mapeamento divulgado na Suíça pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) em parceria com a ONG Conectas, no final de maio passado, calcula que mais de 200 mil pessoas estão sendo despejadas arbitrariamente de suas casas por causa de obras para os preparativos da Copa em todo o Brasil. Durante os preparativos de mega-eventos esportivos estima-se que 15% dos moradores de Seul foram expulsos de suas casas e, na África do Sul, 20 mil pessoas foram despejadas.

Além das milhares de famílias desalojadas, algumas outras pagaram com a vida o preço de obras superfaturadas, feitas às pressas, com baixa remuneração, cargas de trabalho extenuantes e pouca fiscalização. De junho de 2012 a dezembro de 2013, o Brasil registrou sete mortes relacionadas à preparação do país para a Copa do Mundo. Número mais de três vezes maior do que o registrado na África do Sul.

Contra a revolta social produzida por tais abusos, muita repressão. Além de outros milhões de reais gastos com aparato de repressão adicional (bombas de gás, spray de pimenta, armas e balas de borracha, equipamentos de dispersão, entre outros), uma tropa de choque especial com 10 mil homens, especialmente recrutados para isso, será responsável por agir em caso de manifestações nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014.  Além das tropas, robôs irão monitorar por imagens a movimentação de pessoas nos entornos dos estádios, e a vigilância a aplicativos de celulares e mídias sociais já está em andamento. O Exército está a postos e também se prepara para a necessidade de ser convocado a conter as manifestações. O (não) preparo dessas “tropas” para lidar com seus próprios cidadãos exercendo seu livre direito de manifestação, como se fossem inimigos da pátria, já é amplamente conhecido.

No apagar das luzes de 2013, o Ministério da Defesa baixou uma portaria normativa que “Dispõe sobre a Garantia da Lei e da Ordem” pelas Forças Armadas. Entre outras coisas o documento aponta a necessidade de conter “sabotagem nos locais de grandes eventos” e aponta como “força oponente” os “movimentos ou organizações” que causem dificuldades no objetivo de “manter ou restabelecer a ordem pública”. No Congresso, tramitam mais de 13 propostas que “normatizam” manifestações. As propostas, muitas flagrantemente inconstitucionais, tratam de criminalização, aumento de penas, tipificação de terrorismo, entre outros ataques ao direito de organização social. Além da Lei Geral da Copa, um abuso em si, que já revoga vários direitos democráticos, tramita um Projeto de Lei no Senado, que, entre outras coisas, proíbe greves durante o período dos jogos e inclui o “terrorismo” no rol de crimes com punições duras e penas altas para quem “provocar terror ou pânico generalizado”.

Ganhos inesperados: articulação e mobilização social

Ingressos caros e avanço do processo de elitização do futebol no Brasil, gasto público com lucro privado, violações aos direitos humanos e ataques à democracia. Como pano de fundo desse cenário, um país desigual, com saúde e educação precarizadas e péssimos serviços de mobilidade urbana. O resultado não poderia ser outro que não revolta social.

O combate dos governos e seus aliados às manifestações é de ruborizar pela falta de consistência política. O argumento de que “os protestos causarão prejuízos ao Brasil” até faria algum sentido se os vultosos lucros com a realização do evento não fossem parar no bolso de meia dúzia de gestores, empresários e cartolas em detrimento dos altos preços cobrados de torcedores e contribuintes.

A ideia de que o “movimento é partidário e, portanto, orquestrado para prejudicar a reeleição da presidenta Dilma” desmonta diante de uma primeira visita a qualquer um dos protestos: há tudo e todos, diferentes movimentos e colorações ideológicas, trata-se de um espaço amplo, aberto, caótico e fragmentado. Estrutura-se, pois, em anseios legítimos da população brasileira, que se expressam da maneira possível diante do atual quadro de esvaziamento representativo. Se prejudicam a imagem de governos, o problema está, obviamente, nas medidas que estes resolveram adotar à revelia do que precisa e pede o país neste momento, à revelia de nossas reais prioridades.

Chega a ser irônico ver um governo dirigido por um partido que até ontem se apresentava como de esquerda e nacionalista se mobilizar de modo tão uníssono – e porque não dizer, desesperado – em defesa da submissão do Estado e da sociedade na garantia dos lucros de uma instituição privada internacional que concorre na Suíça ao prêmio Public Eye Awards como a pior companhia do mundo, honraria já concedida à “benévolas” Vale do Rio Doce, Shell e o Banco Goldman Sachs, um dos responsáveis pela estouro da crise financeira mundial em 2008.

Por fim, o argumento de que os protestos são “autoritários” é risível diante do fato de que em nenhuma etapa do processo – a eleição do Brasil como sede, a aprovação da abusiva Lei Geral da Copa ou a remoção de centenas de milhares de famílias – a população foi consultada. Tudo foi decidido, para variar, entre as cúpulas do poder dominante.

As preocupações dos governos e seus partidos dirigentes, no entanto, tem razão de ser. A revolta crescente aos poucos se organiza politicamente e procura, sim, os responsáveis pelos abusos. Já em 2013 a Ancop – Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa – cumpriu um papel importante nas manifestações de junho lançando o importante questionamento “Copa para quem?”. A articulação, um dos catalizadores das manifestações à época com atos em todo o Brasil, reúne comitês nas 12 cidades-sede da Copa, que por sua vez agregam movimentos sociais, universidades e entidades de sociedade civil que lutam contra as violação de direitos humanos. Poucos ganhos podem ser maiores para uma sociedade do que os de conscientização e organização política em defesa de seus direitos. Esse pode ser o nosso maior legado.

Desde o ano passado, essa articulação vem se ampliando. O debate a respeito dos abusos da realização da Copa do Mundo no Brasil, aos poucos, se desloca ao centro da agenda política. No bradar de vozes opositoras, que já se autonomizaram em relação à ação inicial dos comitês, uma consigna se destaca mais do que outras, para o pânico do andar de cima: “Não vai ter copa”.

Não vai ter copa?

Tudo somado, os gastos envolvidos, os interesses em jogo e o aparato de repressão mobilizado, é difícil que não haja. Trata-se de ano eleitoral, de uma das Copas mais lucrativas da história e da subjetividade de um país que passou – também graças a insistente propaganda oficial ao longo de anos – a enxergar-se como o país do futebol. Vai, sim, ter copa. Só não para você.

Para quem ela será já sabemos. Sabemos também que o preço será alto para todos os lados: governos, empresários, torcedores e manifestantes. Como o cenário não é favorável para nenhuma mudança de rumos na organização do evento, engana-se quem acha que a tensão social diminuirá até lá. Mas será que a palavra de ordem “Não vai ter copa” é a melhor nesse momento?

Particularmente, creio que não. A consigna “copa para quem?” denuncia de modo mais claro os problemas que apontamos, articulando-o a outras dimensões de nossas desigualdades estruturais, o que abre cenário para a politização sistêmica desse processo, mesmo após a finalização do evento.

“Não vai ter copa”, em contrapartida, anima as manifestações para um objetivo que não parece muito crível no momento, encaminhando as reivindicações para uma derrota. Derrotas, sabemos, tem um impacto consideravelmente negativo em um processo de lutas sociais, já que é de vitórias e conquistas, ainda que pontuais, que se alimenta um ascenso político dessa natureza. Denunciar de modo firme e claro os desmandos da realização do evento, desgastando e constrangendo os responsáveis e privilegiados por tais abusos, já aponta uma importante vitória parcial, que pode ser ampliada posteriormente em articulação com outras denúncias, reconfigurando com isso a conjuntura da política brasileira. Peçamos hospitais e escolas padrão Fifa, moradias para os Sem Teto, transparência nos investimentos para a Copa, denunciemos a corrupção, a suspensão da liberdade de manifestação durante a Copa. Dessa forma, temos mais possibilidades de obter algumas vitórias; a maior delas, sem dúvida, será o fortalecimento de um amplo e enraizado movimento de contestação social.

A maioria do povo brasileiro não é contrária à realização da Copa do Mundo no país. É contrária, sim, aos atropelos e usurpações que cercam a organização do evento. Não fosse isso, tal maioria gostaria de uma Copa no “país do futebol”. De alguma forma, então, a palavra de ordem “Não vai ter Copa” pode confundir as coisas e fazer com que uma parcela da opinião pública que poderia apoiar o movimento acabe se opondo a ele, ampliando, inclusive, a violência da repressão. Quem surfa nessa ambiguidade? O governismo mal intencionado e os defensores da realização dos grandes eventos tal qual estão sendo organizados.

De qualquer forma, com a palavra de ordem que for, nosso lado é claro – e não é o lado dos governos e da Fifa. Se a palavra de ordem “Não vai ter copa” é a quem vem das ruas, não devemos cerrar fileiras com o oportunismo político governista a combatê-la. Podemos e devemos contribuir com a discussão de táticas alternativas, mas o nosso dever é, antes de tudo, a unidade; é estar ao lado daqueles que lutam contra o superfaturamento das obras, a corrupção aberta e o uso de dinheiro público sem um mínimo de respeito às reais prioridades do país, a submissão do governo federal a exigências absurdas da Fifa, as restrições à liberdade de manifestação, às remoções, entre outros inaceitáveis ataques em nome da alegria do futebol. Provemos ao mundo que somos sim, apaixonados por futebol, mas negamos ser humilhados e oprimidos por essa paixão.

*Edemilson Paraná é jornalista, militante ELA, vice-presidente do PSOL-DF e mestrando em Sociologia na UnB.

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Rolezinhos. Limpando o campo para pensar o papel de esquerda organizada

Reação. Capa do jornal Folha de São Paulo aponta preocupação de Governo e empresários.

Reação. Capa do jornal Folha de São Paulo aponta preocupação de Governo e empresários.

Por Edemilson Paraná

Diagnóstico

Não, não são “protestos” por justiça-social (por mais que gostaríamos que fossem). São flashmobs, encontros de jovens onde a vida no Brasil, por várias razões, passou a dizer que jovens devem se encontrar: nos shoppings. É sobre curtir, azarar, cantar, viver (porque no capitalismo viver é, antes de tudo, consumir). O Funk Ostentação, trilha sonora dos eventos, não tem no seu conteúdo (ainda que ironicamente o tenha na sua forma, sobretudo por conta do “choque estético” que produz em certos setores) nada de flagrantemente contra-hegemônico do ponto de vista político – assim como hip-hop bling-bling nunca teve.

Apesar de não ser deliberadamente contestador em seu aspecto político, guarda uma contradição gritante: desejando acesso à sociedade do consumo, sem querer, esses jovens a denunciam de forma didática, abrindo um debate importante. A pane na fronteira entre querer/poder consumir em uma sociedade de consumo que os vê como subclasse de consumidores é em parte responsável pelo curto-circuito nas elites ao lidar com o fenômeno. Racismo e classismo se encontram na contraditória negação da “igualdade pelo consumo”, a utopia capitalista fundamental. Quer dizer, “pode consumir, mas só da forma que eu permitir, e onde eu permitir”.

Não é por acaso que os shoppings são espaço de encontro dos rolezinhos. A centralidade do consumo na nossa sociedade repercute nas nossas cidades com a desvalorização dos espaços públicos como locais de encontro e criação. A cada ano mais shoppings são levantados em áreas urbanas. Símbolo máximo (junto aos condomínios) da cidade segregada, formam ilhas de segurança em relação ao seu exterior. Além disso, como urbanistas já alertaram, são responsáveis por aumento no tráfego de veículos e pela falência dos pequenos comerciantes ao seu redor. A falta de direito à cultura, acesso à espaços públicos e equipamentos de lazer para vivências coletivas joga, portanto, um papel importante, mas sozinho não é capaz de explicar o fenômeno. Padecendo da mesma falta, as “tribos” da classe-média (emos, góticos, etc) já ocupam shoppings e suas entradas há um bom tempo. Parece bastante óbvio que, nessa sociedade, jovens prefiram se encontrar onde há lojas, lan-houses, cinemas e praça de alimentação.

As forças da ordem têm instrumentos de sobra para tentar enquadrar e domesticar, ao menos temporariamente, esse fenômeno. Se a burguesia e as elites empresariais e governamentais pensarem racionalmente (e não por meio de seus violentos atavismos coloniais e racistas mais primários) perceberão o quanto a tarefa é simples: antevejo propagandas, quadros do Fantástico e programas como os de Regina Casé, na Globo, louvando a “espontaneidade” e as “excentricidades” do fenômeno. Antevejo shoppings fazendo “promoções do rolezim”, promovendo grandes eventos, e até desfile de moda no São Paulo Fashion Week com as tendências do Funk Ostentação. Foi o que tentaram em Junho, e voltar a aplicar agora a mesma fórmula não seria muito difícil. Isso pode, em certa medida, ajudar a pacificar momentaneamente as coisas (já que há indícios de que há algo de mais tectônico acontecendo e que, portanto, pode voltar a se expressar de outras formas em breve).

Tudo somado, é parte de um interessante fenômeno do “Brasil de Lula”. Uma demonstração cabal de que o consumo, de certa forma (muitas vezes sustentado por trabalho precarizado e extenuante), chegou, mas a cidadania de direitos ainda está à léguas. Esse consumo que promete a todos igualar, sustentáculo da “esfera-pública neoliberal”, ironicamente vê cor, raça e local de origem ao barrar a entrada nos shoppings de jovens que não fazem nada além de ocupar um espaço simbólico que a todo momento essa sociedade os vende, encanta e apresenta como índice de “cidadania” e reconhecimento social. Dificilmente esses jovens aceitarão um não como resposta a seus anseios – ainda que tais anseios sejam passear no shopping e comprar um tênis de marca (e não há que se moralizar isso com a pecha simplista de “consumismo”). A negação, em especial a violenta, produzirá mais frustração, o que amplia a instabilidade do cenário.

O papel da esquerda organizada: pontes e diálogos

Campo limpo, é hora de pensar os desdobramentos políticos dessa história e o nosso papel (movimentos sociais e esquerda organizada) no processo. De antemão, para além de fatores de ordem moral e humanística, a denúncia cabal de que essa “esfera pública” da cidadania do consumo não é, nem jamais será, para todos, já presta um importante serviço à disputa política em que nos empreendemos.

Mais uma vez, a juventude se apresenta como força capaz de expressar os tensionamentos sociais latentes e há alguns sinais de que isso deve se ampliar no próximo período. Diferentemente da aposta tradicional, não se trata da esquerda universitária de classe-média e seus aparelhos estudantis, de certa forma distanciados do contexto dessas juventudes, mas de “redes” de jovens das periferias, mobilizados a partir de suas vivências e trocas culturais. A popularização do acesso à internet e às mídias sociais jogam, mais uma vez, papel organizativo importante. As características verificadas nos movimentos de junho (ausência de “líderes” e hierarquias, espontaneidade, performatismo, etc.) estão também presentes. Trata-se de um cenário, como sabemos, relativamente novo e desafiador para a esquerda organizada (seja na classe-média, seja nos movimentos populares), que ainda luta para se recuperar dos últimos anos de cooptação, capitulação, burocratização e fragmentação de sua capacidade de intervenção.

A preocupação assustada da polícia, da imprensa, do sistema de Justiça e dos governos é mais um índice de que algo de subterrâneo está acontecendo neste país, e os rolezinhos, ao seu modo, são apenas mais uma parte da confusão nestes “tempos estranhos”. Onde isso irá desembocar? Difícil saber. Mas nosso apoio (político e logístico) pode cumprir um papel relevante como catalisador de mais politização (e a esse respeito, a organização de “Rolezões” pelo MTST em São Paulo é uma ótima notícia). É nosso dever abrir e ampliar, da maneira mais parcimoniosa possível, diálogo com esses eventos, seus participantes e organizadores, construindo pontes onde for possível. Os resultados dessa articulação também estão em aberto e devem ser disputados por nós como parte do esforço para ampliar seu conteúdo de contestação. Investir em agitação humorística e cultural, nas redes e nas ruas, pode ser uma boa opção.

Para isso, não nos cabe – como não cabia em junho – retirar desses jovens o protagonismo de sua auto-organização e auto-expressão, tomar frente ou nos reivindicar lideranças deste processo. Ele é, com antes, complexo demais para ser enquadrado em esquemas teórico-organizacionais de uma ortodoxia vanguardista, e poucas ações seriam mais elitistas e equivocadas como esta. O momento pede compressão e diálogo para uma ação mais unificada e eficaz possível. Tal diálogo é e será bom para ambas as partes, sobretudo para uma esquerda organizada disposta a se renovar e oxigenar seu conteúdo, prática e estética de denúncia política e mobilização social.

PSOL: perdemos uma batalha, mas estamos vencendo a guerra

Congresso do PSOL
Por Edemilson Paraná
publicado originalmente em 1/12/2013 no Facebook 

Chego há pouco do 4º Congresso Nacional do PSOL. Foram dois dias de intensos debates, discussões e disputas programáticas em torno do que queremos para o nosso partido e do que queremos para o Brasil.O resultado das deliberações demonstra o nível de acirramento entre dois modelos de partido e formas de entender o que pede nossa conjuntura. De um lado o Bloco de Esquerda – do qual minha organização faz parte; de outro a Unidade Socialista (US), representada pela candidatura de Randolfe Rodrigues, que apesar de não ser a nossa opção, passa longe do que Dilma, Campos ou Aécio representam para o Brasil.Na executiva do partido? 10 a 9. No diretório nacional? 32 a 29. Na escolha do candidato a presidente? Uma maioria de apenas 51,5% sagrou a US e Randolfe vencedores. No DF? Os ventos de junho nos ajudaram a retirar a direção das mãos deste grupo e nos estabelecemos como uma alternativa jovem e de fôlego para o próximo período. Estou honrado de, como vice-presidente recém-eleito, ombrear a direção do partido em Brasília com as jovens guerreiras Juliana Selbach e Talita Victor.

Junto de Marcelo Freixo, Chico Alencar, Luciana Genro, Renato Roseno, Renato Cinco e tantos outros combatentes, lutamos até o fim pelas prévias, pela democracia, pelo debate qualificado nas bases; perdemos para uma visão centralista, burocratizante e hegemonista, que não soube exercer a responsabilidade e a maturidade que se pede de uma maioria (sobretudo uma frágil como essa), e que não demonstra, portanto, estar habilitada para os desafios que a conjuntura aponta.

Perdemos a batalha, é verdade. Mas estamos vencendo essa guerra. Somos uma partido dividido exatamente ao meio. Isso é um problema? Não, uma virtude. Diferentemente de outros partidos e instituições, não aceitamos o monismo da ordem, o estancamento das direções inquestionadas e o dirigismo de uma cúpula degenerada que submete eternamente sua base. Fazemos o bom combate, temos espaço para ele e saímos vitoriosos em muitos lugares e espaços. A correlação de forças estabelecida nesse congresso, as vitórias regionais como a nossa no DF, o crescimento do partido e seu enraizamento nas lutas, a decantação de uma linha política cada vez mais clara, à esquerda, provam que nosso potencial como instrumento de mobilização, luta e referência de massas apenas começou a se realizar, o que naturalmente não pode ser dito de outras siglas, que capitularam de vez e irreversivelmente à ordem.

Temos problemas? Limites? Muitos, mas junho mostrou que a conjuntura está a nosso favor. Seguiremos crescendo. E seguiremos porque o tempo é de insatisfação, insurgência e indignação, um tempo que pede novas formas de pensar e fazer a política, um tempo que pede um partido como o nosso: jovem, lutador, indisciplinado, respeitador da autonomia das lutas e dos movimentos sociais e, sobretudo, socialista. Dirigiremos esse instrumento, tão importante no tempo presente, nas ruas e a partir das ruas. A força de um partido se mede não por sua burocracia, mas por sua vida militante. E isso nós temos de sobra.

Não se faz política sem contradições. A arte da boa política, que sabe lidar e dialogar com o mundo real, é a arte de escolher as contradições corretas. Estou feliz de estar na pouco confortável posição de ter que escolher as contradições que escolhemos hoje: estar em um partido em que não somos maioria e aceitar a derrota de uma escolha equivocada de um candidato que não julgamos o melhor; mas estou feliz, sobretudo, por seguir em um partido que tem os melhores parlamentares do país, um dos únicos partidos políticos brasileiros que estatutariamente garante a representação de 50% de mulheres na sua direção, que é linha de frente em todas as lutas combativas desse país, que não teme em denunciar esse governo e a crueldade de nossa realidade social, e que segue em disputa, que segue em aberto, que segue dividido e instável como deve ser a verdadeira democracia transformadora: clara em relação à suas divergências, unida em relação às suas convergências.

Pelo socialismo, pela liberdade, a luta apenas começou.

John Lennon – socialista, feminista, internacionalista

John Lennon revolucionário

Yoko e John em passeata com o jornal trotskista Red Mole. Na capa: “Pelo IRA contra o imperialismo inglês”.

Por Edemilson Paraná

Desde muito cedo gosto dos Beatles e especialmente de John Lennon. Foi literalmente minha primeira experiência musical “libertadora”, quando, aos 12 anos de idade, de livre e espontânea vontade, sem a recomendação de ninguém (meu contexto familiar passa muito longe do Rock), uma dessa epifanias inexplicáveis me fez brotar numa loja de discos na minha pequena cidade no interior do Paraná: “quero ouvir qualquer coisa dos Beatles”. Me lembro da cara estranha da atendente que, num misto de espanto e ternura, me apontou um CD: “só temos essa coletânea aqui”. Era a Beatles 1, recém-lançada. Desde então nunca mais parei.

Pouco tempo depois, conhecendo a história de cada um dos integrantes da banda, me deparei com a música Imagine, que se tornaria um tema de vida para mim. Na mesma época começava a tocar violão. Essa combinação simples de Dó com Fá e poucas variações em Lá Menor e Sol virou uma obsessão. Tocava em casa, na escola, em apresentações, entre os amigos. Os mais próximos chegaram a enjoar. Apressado em traduzi-la, me deliciei com o exercício imaginativo de pensar um mundo sem propriedade, sem países, sem religião, sem guerras. Como seria aquela maluquice? Longe de ser um socialista, de ter alguma consciência política progressista (na verdade era até um tanto conservador), sentia que aquilo me dizia muito a respeito.

A descoberta autônoma da música (não a que te dão, mas aquela que você busca e encontra), carregada de novidades estéticas e simbólicas, teve um papel importantíssimo na minha formação, na minha sensibilidade, na forma de como viria a sentir o mundo a minha volta. E aqui vale lembrar a importância transformadora da arte, da estética, da cultura pela sensibilização e movimentação intersubjetiva por um novo senso comum.

Cresci, andei por diferentes universos musicais, me fiz universitário longe de casa, cidadão consciente do meu papel político e socialista por convicção. Toda essa mudança, essa revolução interna pela qual gradativamente passei, no entanto, fez com que eu começasse a ver os Beatles de forma ambígua: próximos emocionalmente – por conta de toda essa carga subjetiva, mas um pouco distantes racional e politicamente em relação ao modo idealizado de como aquele garoto umuaramense os via desde o fatídico encontro na loja de CDs.

Para mim, do ponto de vista político, umas das categorias fundamentais pela qual passaria a experienciar e organizar o mundo a minha volta, John e os Beatles se tornaram mais um brilhante produto da indústria cultural, que domesticou o ímpeto subversivo e marginal do Rock em seus primórdios – e a canção Revolution, que expressa em versos o que seria essa decepcionante revolução cultural, comportada e adequada ao sistema, proposta por eles era a prova cabal disso. Junto dela, as fugas espirituais, sensoriais e alucinógenas do movimento Hippie, que individualizava e marginalizava a possibilidade de qualquer transformação sistêmica; um símbolo, enfim, da destruição criadora do capitalismo cultural que transforma toda forma de contestação em adequação mercantilizada.

John Lennon, o meu preferido, seria, deles, talvez o mais progressista; um pacifista, anti-guerra, um “aliado tático”, mas, ainda assim, parte desse processo todo de derrota política da contra-cultura. Com essa conclusão em mente, sem extremismos, segui ouvindo, tocando e me divertindo com a banda e suas músicas, mas certamente desencantado. Na minha cabeça, John, os Beatles e transformação radical não eram mais uma coisa só, como o fora para aquele menino que começava a descobrir o mundo.

De certo modo, isso não mudou. Mas hoje, ao descobrir por acaso uma entrevista de John Lennon concedida a Robin Blackburn e Tariq Ali, ligados à IV Internacional, para o jornal Trotskista Red Mole, me reconcilio, de alguma forma, com aquele garoto que um dia fui. Me dou conta de algo que para alguns talvez não seja novidade: John era – ainda que de modo ambíguo – um socialista convicto, e Imagine era expressão dessa convicção, “virtualmente o Manifesto Comunista”, segundo o próprio.

Na entrevista (aqui), que ficaria conhecida mais tarde como a “entrevista perdida”, John fala sobre sua origem de classe trabalhadora, as desilusões da fama, a necessidade de destruir o capitalismo, a emancipação das mulheres, o fim das guerras, entre outros assuntos pouco convencionais para um beatle bem comportado. Conforme conta Rômulo Mattos, em brilhante artigo no Blog Convergência (parte de uma série em duas partes aqui e aqui):

“no dia seguinte à entrevista concedida ao jornal Red Mole, um animado Lennon telefonou para Tariq Ali: “Olhe, fiquei tão entusiasmado com o que conversamos que fiz uma música para o movimento, para vocês cantarem nas passeatas”. “Power to the people” mostra uma mudança significativa em relação a “Revolution”. Nessa canção, o artista avisa aos revolucionários para não contarem com ele. Inversamente, em 1971, Lennon canta: “Diga que queremos uma revolução/ É melhor começar logo/ Se prepare/ E vá para as ruas” (“Say we want a revolution/ we better get on right away/ Well, you get on your feet/ And on the street”). A sua adesão aos movimentos revolucionários é ratificada em um verso como: “Nós temos de derrubar vocês/ Quando chegarmos à cidade” (“We got to put you down/ When we come into down”). As suas declarações no período vão no sentido de que o chamado Flower Power fracassara; por essa razão, era necessário começar novamente. Lennon dizia claramente: “Somos o começo da revolução […] Da América ela se espalhará pelo resto do mundo. Viva a revolução” (cf. LEAF, SCHEINFELD, 2006). O arranjo da música merece um rápido comentário. No início da gravação, lançada como single, a frase “Power to the people” é cantada em coro, sendo acompanhada por um provável som de palmas, simulando um protesto de rua”.

Apesar de saber a respeito da espionagem que o FBI teria feito com o cantor na época do movimentos anti-guerra e do boicote à sua permanência nos EUA pelo governo estadunidense que se recusou a renovar seu visto, não conhecia essa face, digamos, “revolucionária” de John Lennon. Havia tomado esse vigilantismo ianque contra John como parte da velha e  injustificada paronóia de controle dos norte-americanos. Pelo visto havia outros temores em Washington. Grata surpresa. Se há um John hippie e domesticado, há também um John em chamas – socialista, feminista, internacionalista. De volta a meus 12, fico com esse, fico com o John de Imagine.

John e Yoko com edição do jornal Red Mole com sua entrevista concedida à Tariq Ali.

John e Yoko com edição do jornal Red Mole que trazia sua entrevista concedida à Tariq Ali.

Abaixo, trechos da entrevista de John Lennon a Robin Blackburn e Tariq Ali (Red Mole).

Imagine como Manifesto
“A canção Imagine, que diz, ‘Imagine que não há mais religião, não mais países, não mais política…’ é virtualmente o Manifesto Comunista… Hoje Imagine é um grande sucesso em quase todo lugar – uma canção anti-religiosa, anti-convencional, anti-capitalista, mas porque ela é suave é aceita.”


Luta das Mulheres

“E as mulheres também são muito importantes, não podemos ter uma revolução que não envolva e emancipe as mulheres. É sutil como se fala da superioridade masculina. Levou algum tempo para que eu compreendesse que o meu machismo estava cerceando certas áreas para Yoko. Ela é uma socialista radicalmente libertária (‘red hot liberationist’) e logo me fez notar como eu estava errado, mesmo quando parecia para mim agir naturalmente. Estou sempre interessado em saber como pessoas que se dizem radicais tratam as mulheres”.


Poder para o povo
“Eles me criticaram por cantar ‘Poder para o Povo’, dizendo que nenhuma facção pode deter o poder. Bobagem. O povo não é uma facção. Povo significa todas as pessoas. Penso que cada um deveria possuir tudo de forma igualitária e que o povo deveria ser também proprietário das fábricas e ter participação na escolha de quem as dirige e o que deve ser produzido. Estudantes deveriam ter o direito de escolher seus professores.”


Revolução

“(Para destruir o capitalismo na Inglaterra), penso que o único caminho é tornar os operários conscientes da sua sofrida posição a que estão submetidos, dos sonhos que os cercam. Pensam que estão em um maravilhoso país da liberdade expressão. Compram carros e televisões e acham que não há nada mais na vida. Estão condicionados a deixarem os patrões mandarem, a verem seus filhos massacrados nas escolas. Estão sonhando o sonho de outros, não é um sonho autêntico deles. Devem compreender que os irlandeses e os negros estão sendo reprimidos e que eles serão os próximos. Tão logo eles tomem consciência de tudo isso, podemos começar a fazer algo. Os trabalhadores têm de começar a assumir. Como Marx disse: ‘Para cada um segundo sua necessidade’. Penso que isto seria muito adequado aqui”.