Por que votarei nulo para o GDF no 2º turno

Rollemberg Pitiman

Pitiman, candidato do PSDB ao governo, agora está com Rollemberg. As credenciais do novo aliado: foi Presidente da Novacap no governo Arruda e Secretário de Obras do governo Agnelo, sempre por indicação de Filippelli (PMDB).

Mesmo com suas alianças clientelistas, inclusive com partidos e figurões egressos do rorizismo e arrudismo; mesmo com o PSB tendo participado das gestões Arruda e Agnelo; mesmo com o comprometimento do partido e de seu candidato com os interesses da “alta burguesia da cidade”, que não nos permite ter ilusão de que seu governo será instrumento para implementar outra lógica urbana e de serviços públicos; mesmo com o seu apoio à candidatura presidencial de Aécio Neves; mesmo com o não compromisso com as lutas em defesa dos direitos humanos, do combate às opressões, e a reprodução das velhas alianças com os setores conservadores nestes temas… Mesmo com todas essas características da candidatura Rollemberg, muita gente ainda está em dúvida sobre anular o voto ou votar nele, para evitar o “mal maior” que seria Frejat.

Eu não sou contra, em abstrato, voto útil, voto crítico, voto para evitar retrocessos, para escolher o adversário menos ruim contra quem lutaremos, etc. Porém, chega um ponto em que as duas alternativas são tão ruins, tão profundamente comprometidas com os adversários do nosso projeto de cidade e de sociedade – em defesa da igualdade social, da liberdade política e da diversidade humana e biológica -, que perde o sentido ficar escolhendo uma entre as duas, por mais que uma delas eventualmente consiga mesmo ser pior ainda que a outra. É o caso do RJ, na disputa entre Pezão, o vice sucessor de Cabral, e o Bispo Crivella, da Igreja Universal. Não vejo sentido escolher uma entre as duas candidaturas, ambas conservadoras no essencial.E é o caso aqui no DF também. Ao ver o comecinho do programa eleitoral de Rollemberg na TV, hoje, convenci-me de vez do voto nulo.

A propaganda do candidato do PSB começou com uma pessoa “explicando” que não há recursos para custear a redução da tarifa para R$ 1,00 (uma “promessa” recém lançada por Frejat, o candidato de Arruda). Porque mesmo se usada toda a verba do IPVA, ainda faltariam R$ 88 milhões; porque seria necessário retirar recursos da saúde, educação, etc; porque, enfim, o governo terminaria aumentando impostos como IPTU e outros, o que seria um horror…

Há quatro grandes problemas aí. O primeiro é que apresenta uma visão tecnocrática engessada de orçamento. Junho mostrou que é possível encontrar dinheiro para reduzir tarifa quando se dá prioridade política a isso. A questão contábil de discutir se a arrecadação do IPVA é ou não suficiente para isso não é o ponto aqui, porque a crítica da propaganda não se concentrou nisso (poderia ter feito, para defender que o recurso poderia e deveria sair de outro lugar, por exemplo), mas simplesmente apresentou como “impossível” a redução proposta pelo outro candidato para o ano que vem. Mistificação tecnocrática. Discurso parecido com a resposta inicial dos governantes em junho. Até que o “impossível” tenha se tornado necessário, pois o poder instituído não pôde resistir à pressão das ruas.

O segundo problema é que a propaganda passou a ideia mentirosa – também transmitida por gente como Alckmin após a redução das tarifas no ano passado – de que, caso se pretenda reduzir a tarifa do transporte público, seria necessário tirar dinheiro da saúde, educação, etc. É uma mentira que esconde inúmeros gastos contemplados nos orçamentos públicos. Quanto o GDF gasta com publicidade? (Levantei isso em 2010 e era assustador, aposto que ainda é e continuará sendo no próximo governo, seja de quem for). Quanto gasta com as diversas formas de favorecimento aos lucros dos grandes empresários? E mais: quanto gasta com o próprio subsídio aos lucros dos empresários dos transportes? É possível reduzir a tarifa pressionando as empresas a reduzirem seus lucros, e não simplesmente pelo aumento do gasto público. Aliás, é possível e necessário pôr fim à exploração de serviços públicos visando ao lucro. Todo o investimento da população (via impostos ou pagando a passagem) deve ser revertido em melhoria dos serviços de transporte, e não para enriquecer meia dúzia de empresários do setor.

O terceiro e gravíssimo problema é a propaganda de que todo aumento de impostos, inclusive para financiar serviços públicos de qualidade e universais seria ruim. Não! Depende: sobre quem recairão esses impostos e para onde irá a verba? Se for para aumentar impostos sobre o “1%” mais rico para financiar direitos sociais (como mobilidade, saúde e outros) e uma cidade melhor para todos/as, então seja bem-vindo o aumento dos impostos sobre o capital e as grandes fortunas!

O quarto problema: ao invés de denunciar os vínculos de Frejat com os “donos da cidade”, e tudo que isso implica, a campanha do PSB opta por se colocar contra uma das únicas propostas do adversário cuja execução implicaria melhora real na vida do povo, e que é uma resposta – mesmo que incoerente e oportunista – às demandas de Junho e das lutas dos últimos anos pelo direito à cidade. Quer desconstruir o discurso de Frejat? Que tal desconstruir o seu discurso violento sobre segurança pública? Bom, não dá pra esperar isso de alguém que apoia Aécio e tem Reguffe (um defensor da redução da maioridade penal) como um de seus principais aliados…  Ideologia do punitivismo penal, a gente vê por aqui também…

No segundo turno, para o GDF, votarei nulo, com toda convicção.

 

Leia também, aqui no blog: Cristovam Buarque, o novo tucano.

3 respostas em “Por que votarei nulo para o GDF no 2º turno

  1. Me decepcionei com a argumentação no geral deste blog, que apesar da minha postura ideológica de direita e liberal, me deparei com um incrível artigo (https://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2012/01/08/direita-volver-a-caduquice-do-franciscanismo-de-esquerda/) neste site que desarticula os conceitos ideológicos e estereótipos do debate entre esquerda e direita. Esta postura é totalmente válida e a esquerda e a direita devem se reinventar para que a política se reinvente também.
    Porém, como defesa do voto nulo apresentar os mesmos argumentos do clássico manual de esquerda, de favorecimento das empresas, do não combate à opressão, todo o estereótipo desconstruído pelo fabuloso artigo “Franciscanismo de esquerda” (apesar de algumas divergências com relação ao que penso) foi refeito neste artigo e em outros que li por aqui. Fiquei triste com a argumentação rasa e reproduzida aos montes pela chamada mídia independente, formada principalmente por Pragmatismo Político e Diário do Centro do Mundo e que está sendo reproduzida em vários artigos.

    Para complementar, não sei em qual mundo você vive, e não importa o meu e o seu voto para governador, mas o parágrafo sobre a visão tecnocrática foi no mínimo desqualificada.
    Primeiramente, a tecnocracia é necessária, afinal com ideologia e visões vagas sobre um tema não se constrói uma gestão necessária. Espero que você tenha visto o rombo nas contas públicas (http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/ao-apagar-das-luzes-3582) e todo o impacto com que o Distrito Federal sofrerá nestes anos. E ao apelar para o discurso mais posicionado à esquerda atualmente de incluir minorias e lutar por elas, que até certo ponto é uma bela iniciativa de todos vocês da esquerda, mas com essas burrices de um governo que não confiou muito na tecnocracia, na ciência para gerir o que é público, mais uma vez, os mais carentes sofrerão estes problemas.

    É impossível defender uma tarifa de 1 real e apresentar argumentos de que não seriam tirados dinheiro das áreas da saúde, educação, segurança, já que com o subsídio estatal e a nada confiável turma gestora que estava com Frejat, quem mais se beneficiaria da redução das tarifas seriam as próprias empresas de ônibus, que exploram seus trabalhadores e não promovem dignas condições para se trabalhar. Quanto a Junho, sob pressão os governos conseguiram segurar os preços com um duro e simples golpe, a dívida. Nos próximos anos ocorrerão cortes no orçamento, seja do DF, seja de São Paulo pois a economia brasileira não vai bem, e após a represália de preços, os que mais serão atingidos serão populações de baixa renda, que dependem de uma parte do orçamento governamental para ter uma vida digna.
    Você e qualquer um tem todo o direito de ter votado nulo, no Pitiman, no Toninho, no Rollemberg, no Frejat, na Perci ou de votar nulo, mas repense sobre o que falou e apresente argumentos melhores do que os que estão na cartilha da esquerda clássica que seu grande colega Edemilson Paraná também se mostrou contra.

    • Victor, é claro que a ciência e a técnica são muito importantes para a sociedade e para a gestão pública. Não afirmei o contrário, e concordo que é fundamental o aprimoramento técnico e racionalização da máquina pública. Minha crítica é à tecnocracia, porque a “cracia” (ou seja, o governo) que defendo é outro: a democracia. Tecnocracia significa esvaziar a política em nome da técnica, como se esta fosse politicamente neutra… Costuma ser uma forma de impor determinada visão política utilizando, para isso, um discurso que tenta aparentar ser neutro, somente técnico e não político. Ao esconder a política que subjaz à técnica, tira da cidadania o poder de interferir na gestão pública e, assim, se autogovernar, democraticamente. Há muitos livros que destrincham esse tipo de argumento. Não só na literatura de vertente Marxiana, mas também, por exemplo, em Max Weber. Sugiro-lhe um outro escrito brilhante do Paraná, que toca no assunto: http://www.academia.edu/9079559/Economia_e_racionalidade_a_questa_o_da_te_cnica_em_Karl_Marx_e_Max_Weber

      Com relação à redução da tarifa. Em primeiro lugar, você simplesmente ignorou parte do meu argumento, que expus no texto. Há no mínimo mais uma forma de reduzir tarifa, além de aumentar o repasse de verba pública aos empresários do setor. Que forma é essa? Reduzir os lucros ENORMES desses empresários! Por que os empresários do setor têm de lucrar tanto? Quem determina o quanto lucram? Quem o determina não é a “técnica” isolada de interesses, é a disputa entre interesses dos empresários e a do conjunto da população, ambos usando seus meios para pressionar o governo – a boa e velha luta de classes, que é um fato incontrastável da realidade.

      Em segundo lugar, você ignorou o que eu falei sobre verbas de publicidade, por exemplo. As quantias gastas com isso são monstruosas, na maior parte das vezes utilizadas pelo governo de plantão para fazer propaganda política de si e para comprar apoio ou complacência de órgãos da mídia (que lucram com as inserções propagandísticas do governo), e não para prestar um serviço de interesse público… Enfim, há diversas outras fontes de onde tirar além de publicidade. Como eu disse no post, a questão é de prioridade política, e não de impossibilidade técnica.

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