“Sionismo cristão” X Cristianismo pacifista

israel copacabana

O Sol saiu no Rio hoje, após dias nublados. Em Copacabana, porém, o tempo fechou: dei de cara com uma sombria marcha sionista, em “apoio a Israel”. Empunhar a insígnia da Estrela de Davi em meio a mensagens macabras de “paz a Israel” (e nada em solidariedade à Palestina), no contexto atual, não está distante de exibir suásticas em passeata…

Chocado, parei um grupo de uns quatro jovens, de no máximo uns vinte anos de idade, para conhecer suas motivações para prestar apoio à matança que o Estado de Israel vem promovendo. Me explicaram que a manifestação era organizada por um pastor da Assembleia de Deus, para apoiar a terra sagrada de Israel e seu “direito de defesa” contra os terroristas do Hamas.

Nem entrei no mérito de que Israel não está se defendendo, mas atacando o povo palestino, segundo uma agressiva política de expansão colonial. Perguntei, somente, se concordavam com o bombardeio de escolas e hospitais palestinos… A resposta veio sob a forma de repugnante redundância da premissa falaciosa: “Israel tem o direito de se defender”. Acrescentando mais uma falácia: “a culpa é do Hamas, que usa o povo palestino como escudo humano”.

O chocante, para mim, não foi o tanto de desinformação… Infelizmente, há muitos segmentos sociais poderosos empenhados em produzi-la. Fiquei chocado, no entanto, em ver jovens cristãos defendendo que a arma adequada para lidar com o terror (mesmo se nisso consistisse toda a resistência palestina, o que não é o caso) é… mais terror ainda.

Não sou religioso, mas fui formado no cristianismo, e lembro de mensagens como “oferecer a outra face”. Não consigo ver Cristo senão como um pacifista radical. Como foi dar nisso aí? Nesse “cristianismo sionista”, muito forte nos EUA e que começa a crescer no Brasil, fazendo propaganda de um Estado cada vez mais afundado no fascismo?

Não podemos, porém, julgar o conjunto de pessoas da Assembleia de Deus, e muito menos das Igrejas Evangélicas em geral (ou de alguma vertente delas), com base em suas cúpulas, direções ou mesmo maiorias. Ora, se até na Igreja Católica, de estrutura dirigente muito mais cristalizada e com histórico tenebroso, aprendemos a enxergar o múltiplo, a dissociar segmentos da igreja em movimento da igreja instituição burocrática… Com o movimento protestante, que é em si abertura, multiplicidade e ruptura com autoridade dogmática, temos, mais ainda, de evitar o discurso da redução dessa força múltipla a certas identidades conservadoras. Fazer isso seria jogar o jogo das cúpulas das Igrejas, e perder a disputa sem nem entrar nela. Seria deixar de construir pontes com os setores das diversas igrejas evangélicas (inclusive das neopentecostais) que desenvolvem práticas espirituais, culturais, sociais e políticas surpreendentes, criativas e rebeldes em solidariedade e amor em ação.

A pior rendição, porque implica perda e achatamento do horizonte, é enxergar o mundo com os olhos do adversário. Sim, as cúpulas das Igrejas cristãs em geral são nossas adversárias (a começar da católica, e talvez principalmente ela), como aliás foram de Jesus. Mas não podemos aceitar as falsas linhas identitárias que contrapõem esquerda e evangélicos, ou defesa da libertação humana e evangélicos.

Não abdicar da justa raiva e indignação, mas tampouco da imaginação: as flores que nascem do asfalto ainda vão fazer a Primavera.

PS: texto do domingo, 17 de agosto, publicado originalmente no Facebook. Produzido sob a influência de diálogos com Bruno Cava.

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