Cristovam Buarque, o novo tucano

Cristovam defende Aliança do PDT e PSB com o PSDB no DF

Um veículo de imprensa (ver aqui) informou, na quinta-feira passada, que o Senador Cristovam Buarque deseja que o seu partido, o PDT, coligue-se não só com o PSB, mas também com o PSDB, para disputar as eleições deste ano no DF – a exemplo do que está sendo feito em São Paulo.

Deixando de lado o seu discurso de bom moço e o remoto passado na esquerda, não é difícil entender a declaração de Cristovam. Ela só é surpreendente para quem se prende à superfície de sua imagem e não presta tanta atenção a elementos importantes do programa político que o Senador tem defendido nos últimos anos, comprometido com o neoliberalismo em pontos fundamentais. Vejamos alguns desses pontos aqui.

Cristovam e PSDB: programas políticos parecidos.

Cristovam e o PSDB: programas políticos parecidos.

Política macroeconômica subordinada ao capital financeiro

Não é difícil lembrar que Cristovam, antes de Lula tomar posse como Presidente da República, em 2002, defendia que o Presidente eleito mantivesse o então presidente do Banco Central (Armínio Fraga) por 100 dias à frente da instituição, como garantia de continuidade da política econômica ortodoxa, comprometida com os grandes atores do sistema financeiro. Cristovam era “paloccista” antes de Palocci. Para ele, não haveria que se mudar a política macroeconômica tucana, orientada para o pagamento religioso dos juros exorbitantes da dívida pública, que consomem parte gigantesca do orçamento público, às custas dos investimentos em educação, saúde, transportes… (O Senador deve ter ficado bastante satisfeito, pois, com o fato de que Lula indicou para o Banco Central um tucano, Henrique Meirelles, oriundo de um grande Banco internacional).

Universidade como mercadoria

Cristovam Buarque gosta de se autointitular “o Senador da educação”. Mas, qual educação? Em abstrato, afinal, todo mundo é a favor de “uma educação melhor” ou “mais verbas para a educação”.

Em artigo publicado no Estadão em homenagem aos 80 anos da USP, no início deste ano, Cristovam explicita alguns elementos importantes do modelo de educação superior que propõe para o Brasil. O Senador critica o fato de que “Nossos alunos e professores veem com desconfiança o envolvimento de empresários na universidade“. De onde vem essa desconfiança? Recente declaração do Diretor da grande farmacêutica Bayern – “não criamos medicamentos para os indianos, mas para os que podem pagar” – talvez refresque a memória de Cristovam sobre isso… (V. também, aqui no blog, texto de Hugo Fonseca sobre o assunto).

No mesmo artigo, o Senador defende isenções fiscais para empresas: “há universidades que recusariam apoio de raros empresários que se dispusessem a financiar bibliotecas e laboratórios; e se isso acontecesse, a Receita Federal exigiria ficar com parte do valor“. Por que esse tipo de financiamento é problemático? “Quem paga a banda escolhe a música”, diz um velho refrão. Empresas não financiam a universidade por razões filantrópicas, mas perseguindo lucros. E a pauta de ensino e pesquisa da universidade, então, perde consideravelmente sua liberdade e possível orientação emancipadora, passando a estar subordinada aos interesses lucrativos das empresas – isto é, tendencialmente de poucas grandes empresas, já que a “livre concorrência” é uma fábula e vivemos em um mundo de capital bastante concentrado em poucas famílias.

(Qual é a alternativa a essa política de transformar a universidade em mercadoria? Aumentar a tributação sobre os lucros das grandes empresas e o patrimônio do “1%” mais rico da população, e com esses recursos investir, entre outras áreas, nas universidades. A gestão desses recursos pela universidade não deverá ser definida de modo arbitrário pelo Estado, mas de modo livre, democrático e participativo pela comunidade acadêmica, em diálogo com a sociedade. Desse modo, garante-se que nem empresas privadas nem a burocracia estatal definam a pauta de ensino e pesquisa das universidades, evitando que se tolha sua liberdade e possibilidade de abertura de espaços de empoderamento dos setores sociais historicamente marginalizados. Essa é a bandeira histórica da esquerda e dos setores progressistas. Há muito já não é mais a de Cristovam, que se enrolou às bandeiras do neoliberalismo).

Oposição às lutas dos/as trabalhadores/as

Porém, ainda não chegamos ao fundo do poço. Até aí, alguém poderia supor que o projeto capitalista de universidade e de educação defendido por Cristovam pode ter algum elemento democrático ou progressista. Para nos poupar de quaisquer discussões minimamente aprofundadas a esse respeito, o Senador sentencia, no mesmo artigo, em frase de fazer inveja a uma revista Veja, a um Reinaldo Azevedo: “não há como ser um importante centro universitário se a comunidade paralisa seus trabalhos por greves“. Quando se abraça o capitalismo como Cristovam fez, fica difícil sobrar espaço para defender direitos sociais e democráticos como a auto-organização e a luta dos/as trabalhadores/as

Omissão ante as lutas populares por moradia e contra a especulação imobiliária no DF

No início de 2013, tivemos mais um episódio importante, na política local, em que Cristovam Buarque demonstrou de modo cristalino o lado em que se encontra na luta de classes – esta que hoje em dia ele deve dizer que é algo secundário ou mesmo inexistente (!).

Centenas de famílias pobres da periferia do DF, organizadas com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), ocuparam, ao longo de cerca de dois meses, o esqueleto de um Shopping abandonado há mais de 20 anos em Taguatinga-DF, para reivindicar: (i) o direito à moradia; (ii) o cumprimento da função social daquele imóvel; (iii) de modo super objetivo e imediato, que o GDF cumprisse os acordos mínimos que firmara anteriormente com o movimento e as famílias, e vinha descumprindo sistematicamente.

Toninho, então Presidente do PSOL-DF, foi à ocupação “Novo Pinheirinho” manifestar o apoio do partido. É o mínimo que se espera de um partido de esquerda, diante do movimento que reivindica nada mais do que a garantia de direitos fundamentais. Até mesmo um Deputado Federal de outro estado (Chico Alencar, PSOL-RJ), foi à ocupação manifestar apoio àquela luta cidadã e colocar o mandato à disposição.
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Já Cristovam não apenas não pisou na ocupação, como nada fez. Não por falta de apelo ou de informação. Depois de alguns contatos com sua assessoria que nada renderam, eu e o companheiro Fábio Félix (militante do PSOL e do então B&D, hoje ELA) encontramos por acaso Cristovam sentado num café de Brasília (o Fran’s, na 209 Norte), num início de tarde. Dissemos a ele que tínhamos entrado em contato com o gabinete (por telefone, inclusive), conversado com a assessoria, mas não tínhamos obtido resposta. Pedimos que ele fizesse uma visita à ocupação. Cheguei a pedir que, pelo menos, ele comentasse no seu perfil no Twitter, no qual era e é bastante ativo. Cristovam disse que com certeza daria apoio no Twitter, e veria com a assessoria o que mais poderia fazer. Nada fez. Nem sequer uma simples tuitada (acompanhei atentamente seu twitter e redes sociais nos dias seguintes).
Cristovam deliberadamente omitiu-se diante das lutas populares por moradia e contra a especulação imobiliária no DF.

Cristovam deliberadamente omitiu-se diante das lutas populares por moradia e contra a especulação imobiliária no DF.

Cristovam não compunha o governo Agnelo, não tinha interesse em defendê-lo. Qual interesse o impediu, então, de assumir a defesa de famílias sem-teto, da função social da propriedade, do direito à moradia, de um movimento popular?
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O Senador ficou calado sobre a ocupação no DF pela mesma razão pela qual ergue sua voz para defender a total colonização da universidade pelo capitalismo, bem como criticar a resistência organizada do(a)s trabalhadore(a)s: ele sabe bem o lado em que atua na luta de classes, hoje… E é aquele antagônico ao das classes populares.
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Financiamento empresarial de campanhas eleitorais
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O “generoso” financiamento de grandes empresas e empresários à última campanha eleitoral de Cristovam mostra que essa aliança está bem pavimentada. Para sua candidatura ao Senado (ver aqui, do site do TSE), Cristovam recebeu: R$ 200 mil da Sangari, grande empresa da área da educação; R$ 100 mil do Banco Itaú; R$ 50 mil da empreiteira Mendes Júnior; R$ 100 mil de Eike Batista; R$ 100 mil da empresa Gerdau…
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A velha política de Cristovam, Reguffe e Rollemberg no DF
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Quando nós, do então B&D, tomamos a decisão de nos filiarmos ao PSOL, o fizemos para colaborar com a apresentação na disputa eleitoral de um projeto político alternativo ao do governo Agnelo, que deixa como marcas a parceria com a especulação imobiliária e outros setores do grande capital, a repressão às lutas populares e a construção de um estádio bilionário feito com recursos provenientes da venda de inúmeras terras públicas (que poderiam ter sido utilizadas, por exemplo, para assentar milhares de famílias sem-teto).
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Este texto mostra algumas das razões para que tenhamos recusado categoricamente qualquer possibilidade de aliança com o PDT e o PSB nas eleições deste ano, no DF. Deixo para outra oportunidade a análise do programa e dos compromissos políticos explícitos de Rollemberg e da outra grande figura pública do PDT em Brasília, Reguffe. Adianto apenas que, como Deputado, o paladino da redução dos gastos públicos fez discurso favorável à redução da maioridade penal e votou contra as cotas para negros e negras no serviço público. De resto, defende um programa semelhante ao de Cristovam e, enfim, ao do PSDB. E sem o “constrangimento” de ter de prestar contas a um passado e ao que resta de uma base de esquerda, como Cristovam ainda tem…
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Enfim, as candidaturas do PSB e do PDT ao Senado e ao governo do DF estão profundamente comprometidas com os interesses das grandes empresas que têm dominado a política local há décadas, revezando-se entre si apenas no grau de influência que exercem.
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A alternativa em cuja construção estamos empenhados/as é desde baixo, e à esquerda. Da esquerda que não cede seus sonhos e não teme dizer seu nome.

4 respostas em “Cristovam Buarque, o novo tucano

  1. Sei que você não me conhece, mas admiro bastante a consistência dos seus textos e da sua atuação política. Entretanto, com o devido respeito, esse daí recai totalmente na falácia do espantalho. É distorção da atuação do Cristovam para criar uma figura exagerada que não corresponde com a realidade de sua atuação.

    Falar que ele enxerga a educação apenas com mercadoria é desconhecer a campanha quixotesca que ele faz pela federalização da educação de base.

    Falar que o PDT representa os interesses do mercado é fechar os olhos para o partido que é o mais infiel da base, sobretudo nos temas atinentes à educação, e liderou a votação dos 10% do PIB para educação pública e também para destinar o dinheiro dos royalties do petróleo para educação. O PDT é o segundo melhor partido para o Congresso em Foco não foi à toa.

    O Reguffe tem as posições infelizes dele sobre redução da maioridade penal, mas não são as mesmas do Cristovam e da maioria do PDT. O Cristovam rechaça esse hipótese categoricamente. Além disso, o senador está liderando o debate sobre a descriminalização da maconha com bastante abertura ressalte-se.

    O PSOL, indubitavelmente, é uma alternativa mais à esquerda. Mas para isso não precisa criar um inimigo que não existe. Uma pena que para exaltar a candidatura do seu candidato tenhas que ignorar a real atuação do adversário. Isso também é velha política.

    • Caro Lucas, agradeço pela sua leitura e pela consideração, apesar de nossas divergências.

      Fiz uma análise objetiva de posicionamentos de Cristovam. O artigo dele sobre a USP é estarrecedor, sua posição sobre um tema fundamental – política macroeconômica – é profundamente neoliberal, Cristovam não defendeu os 10% do PIB para a educação pública… Também no tema dos direitos das mulheres e LGBTs ele não tem posições avançadas.

      É o contrário: apenas comparando com espantalhos da direita é que Cristovam pode parecer progressista.

      Sobre maioridade penal, está claro no texto que a posição é de Reguffe.

      • O Cristovam não defendeu a proposta de 10% dentro do atual sistema porque para ele seria jogar dinheiro no ralo dentro do atual sistema. Mas a revolução na educação que ele propõe elevaria bastante os gastos públicos com educação para pagar uma remuneração decente aos professores da educação de base (R$9,500,00) e garantir escola em tempo integral. Ele não tem uma proposta meramente genérica para se chegar a um patamar do PIB, mas sim uma série de propostas específicas sobre como gastar esse dinheiro para melhorar a educação de todos os brasileiros. Esse sim que é o carro-chefe da atuação dele no Senado tem uma caráter nitidamente social-democrático. Não uma uma frase tirada de contexto em um artigo de opinião no qual ele defende enfaticamente a importância da educação e do conhecimento para o desenvolvimento da sociedade.

        [Digite “federalizar a educação” no google, tem um arquivo em .pdf no terceiro link que ele explicar os detalhes em um livro de 53 páginas sobre como atuar. Não tem nada de abstrato.]

        O PSDB, por outro lado, não tem nenhuma proposta reformista para educação nem de base nem superior. Apenas o mantra abstrato de melhorar gestão e instituir metas. Não fala nada sobre educação integral nem em aumentar gastos públicos. Por isso, a comparação da atuação no campo educacional é, com todo o respeito, totalmente descabida.

        Uma coisa é o Cristovam não ter uma atuação combativa sobre direitos das mulheres, LGBT. Outra coisa é ele ser contra. Ele se posiciona contra? Nunca vi manifestações dele em oposição a essas pautas, pelo contrário. Concordo que a atuação pode até ser tímida, mas não tem nada de conservadora.

        Eu sigo os excelentes deputados Chico Alencar e Jean Wyllis no facebook e twitter e não vejo eles se manifestando frequentemente sobre o tema educação. Não é por que o foco da atuação deles sejam específico em outras áreas, que eles não sejam a favor, por exemplo, de educação em tempo integral, não é?

        O PDT – de fato – não tem a mesma veia anticapitalista como o PSOL. Está inserido na Segunda Internacional: a dos partidos social-democratas. Mas não é social-liberal – terceira-via – como o PSDB. Darcy e Brizola queriam implementar um “socialismo moreno”, de natureza social-democrática, tanto que a ênfase dos governos brizola no Rio foram os CIEPs, para ampliar a igualdade de oportunidades a todos. O Cristovam segue essa linha. São partidos de três tradições diferentes e não é necessário rotular o que difere do PSOL como equivalente ao PSDB como muleta para reforçar (a meu entender, enfraquecer) o argumento.

        Por fim, sobre financiamento de campanhas, não entro no mérito, porque sou contra o atual sistema e o Senador Cristovam também o é (tem inclusive uma proposta de reforma política republicana), mas todas as candidaturas competitivas dos que foram eleitos para o Senado Federal recebem financiamento de empresas. Em rápida olhada no sistema do TSE, vi que o Senador do PSOL, Randolfe Rodrigues, recebeu dinheiro de pelo menos duas empresas: LEITE SA LTDA (15 mil) e ATLAS OUTDOOR (R$3,500). Bem, todos têm teto de vidro, né?

  2. Pingback: Por que votarei nulo para o GDF no 2º turno | Brasil e Desenvolvimento

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