Mãos sujas: homofobia mata!

Por Fábio Felix e Daniel Jacó

Uma morte banal. Um corpo numa rua em São Paulo. Depois por dias sem identificação no IML. Desfigurado. Sem dentes. Com uma barra de ferro atravessada em uma das pernas. Com dedos quebrados. Mais um “indigente.” Só mais um.

Matamos nossos gays por que eles nos assustam. Lembram-nos que a casinha perfeita papai e mamãe não é a única casa. Estão aí pra avisar que sexualidade é espontânea mas não é natural. Pra avisar que possuir um pinto não garante o domínio sobre uma casa, sobre uma mulher, sobre uma cultura. Pra mostrar que estamos todxs travestidxs, brincando papéis de gênero decadentes e os negociando. E isso assusta muito homem. Assusta a ponto de torturarmos. Assusta a ponto de matarmos.

Matarmos. Nós o matamos, sim.

Mais um jovem gay assassinado, em meio a tantas travestis torturadas, lésbicas espancadas, casais do mesmo sexo agredidos verbal e fisicamente. A barbárie que nos amarra na institucionalidade da conveniência e da inoperância. Se não há sangue em nossas mãos, é porque as lavamos.

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Talvez não sejamos culpados, mas somos certamente responsáveis. Mantemos os gays reféns. Todas as políticas voltadas ao combate a homofobia são rifadas – sejam políticas protetivas com dimensão educacional, como o Kit Escola Sem Homofobia, sejam elas punitivas, como o PLC 122 (que criminaliza a homofobia), permanecem paradas, enquanto milhares de homossexuais, travestis, transexuais e trangêneros continuam reféns da violência simbólica, psicológica e física explicita de uma sociedade que tem medo de liberar sua sexualidade, e que mata quem quer ouse liberar sua própria.

Nossos destinos são negociados no submundo do Congresso Nacional e nossas vidas são rifadas por coligações e governabilidade. “Mas eles têm o direito de não concordar com a prática de vocês”. E as mãos são lavadas.

O Governo de Dilma – PT abandonou o movimento LGBT para manter um elo com os setores religiosos mais atrasados. Governabilidade. Em termos leigos, para manter o poder mesmo – em troca de jogar no ralo os direitos de milhões de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais brasileirxs.

Na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República é mantida uma Coordenação LGBT. Mas pra quê? Se não conseguimos nenhum avanço via Executivo? Sua influência nas decisões, nos rumos e nas disputas da política pública brasileira é quase nula. A prioridade foi escolhida: manter as alianças para a governabilidade conservadora e contribuir para os retrocessos.

Ontem, ao ler a matéria e assistir ao vídeo da morte de Kaique, de 16 anos, negro, no início de sua vida, nos indignamos profundamente com o descaso das instituições e com a forma como é tratada a história de vida das pessoas. Cadáver desfigurado. Sem dentes. Com uma barra de ferro atravessada um uma das pernas. Com dedos quebrados. Pra Polícia de São Paulo, um suicida.

Este caso junto como tantos outros, deve nos fazer refletir sobre o apartheid de classe, raça, gênero e orientação sexual existente em nossa sociedade. A necessidade de superação de uma sociedade profundamente desigual e discrimatória que hierarquiza a cada segundo as pessoas por suas condições de existência.

O nosso grande desafio é construir uma nova cultura social de respeito à diversidade e a livre expressão da sexualidade. Não há como conviver com a violência, a apatia patrocinada por nossos governantes e por setores tão conservadores das religiões mais atrasadas. Aqueles que dizem pregar o “amor” lutam cotidianamente contra a criminalização da homofobia, se articulam contra os direitos das relações homoafetivas. O falso discurso do “amor” acaba se transformando em ódio, sangue e morte!

Precisamos limpar nossas lágrimas, e transformar nossa indignação em ação política coletiva e organizada, tanto para denunciar o tamanho da violência que nossas instituições praticam quando se silenciam quanto para nos sentirmos parte do mesmo corpo que sofre todos os dias a ausência de vida em totalidade e de direitos e plenitude.

Superar a homofobia é uma transformação cultural profunda que exige assumir responsabilidade. Exige ver as lutas com clareza. Exige, acima de tudo, que não lavemos nossas mãos.

Daniel Jacó é militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA), LGBT e Advogado

Fábio Felix é militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA), LGBT e Assistente Social

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