“Turismo rural” e o prazer que nasce da dor

No sábado, assistindo a um programa sobre curiosidades e especificidades do Brasil na Globo News, deparo-me com um quadro no qual o apresentador ia se deslocando pelo interior do país, naquilo que ele denominava de “turismo rural”.

Pela própria definição dessa espécie de turismo apresentada pelo programa*, são passeios que proporcionam um maior contato com o ambiente rural, realizado por meio de visitas a locais clássicos da história brasileira: as casas grandes (e senzalas). Dessa maneira, o apresentador visitou um grande número de antigos engenhos de açúcar, tentando mostrar os costumes e as peculiaridades da época, na qual esses grandes latifúndios (escravocratas) não eram só o centro da nossa política econômica, mas espaços de irradiação de valores, modos de vida e de uma determinada “identidade nacional”. As casas grandes (e senzalas) reformadas abrigavam luxuosos hotéis, restaurantes aconchegantes com deliciosas comidas típicas, guias para orientar os passeios e etc. Assim, o programa ia passeando, com uma alegria e docilidade “contagiantes”, por ambientações basilares da colonialidade brasileira. Da escravidão local.

Massa, né? … não, nenhum pouco. Não sei onde foi, quando começou, talvez alguns indícios aqui e aculá, talvez uma soma de fatores diversos e plurais. Muitos “talvez”. Só sei que entre as maiores façanhas na construção de grandes narrativas, uma das que mais impressiona é o discurso “oficial” sobre a questão negra (passada, presente e futura) no Brasil.

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É essa grande narrativa que consegue transformar os símbolos da instituição total escravocrata, o complexo casa grande-senzala-engenho, em locais inofensivos de um passado que deveria gritar para o nosso presente. Ela serve, assim, de cimento moral oculto do cínico “turismo rural”. Tidos como ambientes românticos, contrapontos ao caos das metrópoles, metáforas do Brasil rural e alvos da exploração turística, tais espaços são colocados em uma construção discursiva que nega ou suaviza o que eles significaram para a história do país. Apagam-se as chagas deixadas na população negra brasileira.

Essa espécie de “turismo rural” é a materialização do distanciamento, da elaboração de uma memória que consegue tornar belo aquilo que deveria ser tido como grotesco e brutal. O monumento à verdade dos nossos “campos de concentração” não são erguidos sobre um silêncio aterrorizante que nos expõe perante as piores atrocidades cometidas por seres humanos. Não, ele se ergue no falseamento histórico de um passado racializado que se impõe na atualidade, no deslocamento de olhar que ainda enxerga os complexos escravocratas na perspectiva do branco (ontem, o senhor de engenho e sua nobre família; hoje, nos turistas das classes abastadas) e nas bases de uma “brasilidade” em que o sangue só se transforma em dor quando não escorre do corpo negro.

Em tempos de debate sobre a memória e a verdade, importante é lembrar como o “arquivo” brasileiro é sempre aberto por mãos brancas. Que ele é sempre aberto com maior veemência quando a voz sufocada, explorada ou torturada é do branco. Talvez não seja mera coincidência que o brasileiro sinta uma dor dilacerante ao visitar os campos nazistas ou mova os meios possíveis para resgatar o nosso passado ditatorial recente, sendo, por outro lado, acanhado na procura dessa mesma verdade na reconstrução de um dos períodos mais brutais da nossa história. O “turismo rural” não me espanta por ser apenas mais uma forma desse silenciamento. Espanta por ir além. Espanta por retirar, hipocritamente, prazer de onde somente nasceu dor.

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obs: no momento em que escrevia o post, descubro a seguinte afirmação realizada por uma futura efêmera celebridade global: “saudades de quando ter escravos não era crime”. Repito: por que não dói? com que sentimentos acessamos a escravidão?

obs2: a polêmica dos rolezinhos demonstra que o percurso dessa narrativa está mais vivo do que nunca. Escancarando o “apartheid” brasileiro, a ocupação dos shoppings por jovens negros/as é reprimida não só pelo cassetete da polícia militar ou da segurança privada. A exclusão legitima-se também no discurso defensor de uma determinada “ordem” que é interrompida pelos “rolês”. A ascendência apagada dessas afirmações é a mesma que tempos atrás proibiu as rodas de capoeira, que constrangeu o livre trânsito de negros/as libertos/as ou que hoje persegue os cultos de matriz africana. O discurso de controle, aparentemente, só mudou de mãos. Privado, nos tempos da casa grande e senzala; público, com o crescimento da disputa do urbano.

obs3: para uma outra visão da história brasileira, fica a dica da página Calendário Insurrecional do Brasil, que busca uma construção contra-hegemônica do nosso ideário de país. 

* A definição de “turismo rural” do texto é, em larga medida, a utilizada pelo programa. Obviamente o termo pode ser usado para tratar de outras formas de turismo, como os passeios direcionados à visitação de belezas naturais. Além disso, não se questiona a existência de visitas aos locais constituidores da escravidão, pelo contrário. O que se procura evidenciar é em qual quadro simbólico esses passeios são construídos.

2 respostas em ““Turismo rural” e o prazer que nasce da dor

  1. Sou membro da (APN) Agente da da Pastoral Negra, achei muito rica sua observação e não podemos deixar passar em branco essas situações.

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