O dia em que a poesia calou o fascismo

Cem anos de Vinicius de Moraes. Não esquecer que o poeta, músico, diplomata,  dramaturgo foi perseguido e aposentado compulsoriamente pela ditadura civil-militar. Não esquecer que a poesia é subversiva, como a “flor que brota do asfalto” de Carlos Drummond – que disse, sobre Vinicius: “De todos nós, ele foi o único que ousou viver como poeta”. Não esquecer que o amor é uma força revolucionária avassaladora, a mais temida por toda forma de opressão.  Não esquecer Vinicius de Moraes.

Reproduzo texto de Renzo Mora, narrando episódio que merece ser contado e lembrado eternamente. O dia em que Vinicius confrontou, armado com seus versos, os apoiadores da ditadura de Salazar, em Portugal. O dia em que o lirismo impôs-se sobre o fascismo.

A poética que calou os salazaristas

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Centenário de Vinicius de Moraes.
E uma história para os leitores portugueses e brasileiros da Obvious, estes irmãos separados por um mesmo idioma.
Em 13 de Dezembro de 1968, dia em que a ditadura brasileira instituiu o Ato Institucional número 5, o ponto máximo da escala totalitária dos militares, o Poeta estava em Lisboa.
Fazia um show acompanhado pela cantora Marcia e pelo violonista Baden Powell por lá, quando recebe a notícia. Do palco, comunica ao público sua tristeza com a situação do Brasil e lê seu poema “Pátria Minha”.

Quando sai do hotel, o Poeta se vê cercado por salazaristas revoltados com seu discurso contra a ditadura. É aconselhado a usar uma porta alternativa. Recusa-se. Sai e olha os manifestantes raivosos.
Ouve as vaias e as palavras de ordem que contagiam os idiotas de qualquer orientação política nestes momentos.
Então, ergue a voz e recita:

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Trata-se da Poética, que ele escreveu em 1950, quando estava em Nova York. Na metade do poema, uma voz com sotaque brasileiro repete o poema com ele. É um estudante que está junto com os salazaristas. Os revoltosos se calam aos poucos. Um ou outro tenta gritar, mas a força dos versos de Vinicius os cala e, ao final, só se ouve o Poeta.
Um primeiro rapaz tira o casaco e o coloca no chão, para servir de tapete para Vinicius. Outros o imitam em seguida.
Vinicius, que estava ameaçado por um grupo furioso, agora sai de cabeça erguida pisando em um mosaico de paletós e sobretudos.
A história está na biografia de Vinicius, “O Poeta da Paixão”, escrita por José Castello.

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