A luta é libertária: a relação entre as opressões e o anticapitalismo

Fábio Felix[1]

Há uma grande responsabilidade para a esquerda brasileira ao se debruçar sobre as discussões relativas à luta de classes e às pautas libertárias. Um dos desafios é teórico: como produzir sínteses que sejam capazes de dialogar com as teorias clássicas, mas conduzir a atualização de conceitos e fugir da estreiteza em que muitos mergulham nas análises das estruturas sociais? Outro desafio de igual grandeza é político, pois não há como construir uma leitura aberta e dialética da interação da luta de classes com as pautas LGBTs, feministas, racial e indígena, entre outras, sem buscar alternativas políticas de organização e perspectivas de ação.

Dessa forma, esta discussão precisa iniciar com a reflexão sobre como deve se dar a compreensão dos conceitos trazidos por Marx. Isto significa afirmar que os instrumentos científicos e políticos que compõem sua obra não podem se tornar dogmas cristalizados e intransponíveis. A partir das necessidades das novas conjunturas e dos rearranjos do modelo societário é preciso ter ousadia para que estes fundamentos possam ampliar nossa leitura e não limitá-la.

Não há como analisar a sociedade na perspectiva da totalidade sem o reconhecimento de sua divisão em campos divergentes inseridos na lógica do Capital que se relacionam com os diversos processos e fenômenos sociais. Neste sentido, apartar por completo as pautas de LGBTs, feministas e racial da agenda da luta de classes pode nos levar a uma leitura imprecisa das opressões. Esta lógica fortalece visões fragmentadas e artificiais da questão, como relaciona Leal (2007) ao tratar de suas inquietações de gênero.

Há o exemplo clássico dos dois gays localizados em classes sociais distintas em certa realidade: um mora em um bairro de elite e tem acesso a serviços e produtos de última geração e o outro em uma periferia e possui longas jornadas de trabalho. O que difere as duas realidades? Ambos sofrem da mesma forma a homofobia? São perguntas que descortinam um pouco esta discussão e os desafios que ela levanta. Sim, ambos sofrem homofobia, são tratados de forma violenta por serem gays, são vítimas de violência simbólica e outras formas de opressão por sua orientação sexual; mas as duas realidades guardam peculiaridades também: o gay da periferia tem sua condição de homossexual submetida a outras possibilidades de violação, a partir de seu local de classe, o que pode implicar em uma ampliação de sua vulnerabilidade e subalternização.

Os instrumentos para gays e lésbicas do andar de baixo responderem à homofobia e à violência são bem diferentes do primeiro. As formas que os dois personagens se relacionam com a complexa dinâmica da vida humana, suas interfaces, instituições e processos são distintas, apesar de guardarem semelhanças.

Este exemplo também é importante, inclusive, para escancarar que o mercado também cumpre a função de mascarar as diferenças de identidades, buscando normatizar e privatizar a cultura e a estética de LGBTs. Não é possível analisar a situação de LGBTs sem discutir o quadro de mercantilização do modo de socialização, o que pode se tornar uma cidadania “sexodiversa” às avessas. Um passo fundamental para o movimento social que lida com esta pauta é enfrentar, sem sectarismos, a estética predatória e uniformizante do capital.

Um ponto fundamental da discussão desta contribuição está na necessidade de fugirmos da hierarquização destas pautas. A sobreposição de uma questão sobre a outra fragiliza a organização dos movimentos sociais, sua interação e afasta a possibilidade de construções políticas na perspectiva da totalidade que respeitem a diversidade. Por tudo isto, as pautas libertárias, tais como a luta LGBT, das feministas, de negras e negros são estruturais.

Nesta perspectiva, concomitante com a afirmação destas questões estruturantes, não há como fugir da pauta anticapitalista e da luta de classes. A diferença, aqui, é como estas se relacionam. Assim, construir estes debates de forma ahistórica, pluriclassista e não à luz das outras inquietações também estruturantes não semeará a possibilidade de construção de um enfrentamento a este modelo social, político e econômico opressor.

Por isso, Mészáros (2002) propõe que estas pautas se relacionam: “centrada na questão da igualdade substantiva, uma grande causa histórica entra em movimento sem encontrar saídas para sua realização dentro dos limites do capital. A causa da emancipação e da igualdade das mulheres envolve os processos e as instituições de toda a ordem sociometabólica”.

Por outro lado, não se pode tratar as pautas libertárias como mera expressão da luta de classes porque isso artificializa a discussão e tenta simplificar temas de alta complexidade. Qualquer consideração de que as opressões de gênero, raça e orientação sexual são resultado automático e natural da contradição capital-trabalho limita a discussão e fecha as portas para a atualidade destes debates. É preciso inauguramos um novo modelo de interação entre estes conceitos, que não implique em contraposição ou sobreposição. Isto significa afirmar que a contradição capital-trabalho tem papel relevante nas formas de opressões identitárias e seus contornos contemporâneos.

A condução do texto até aqui reforça a importância de construção e uma aliança das pautas libertárias com o enfrentamento do capital em uma nova roupagem, mas existem algumas preocupações que precisam ser sanadas. A hiper-particularização das pautas e sujeitos sociais pode diminuir a capacidade de formulação, organização e luta coletiva por ruptura com este modelo de sociedade. A busca por um equilíbrio que não invisibilize a diversidade, mas também não a particularize, descolando-a da totalidade, deve ser perseguida para algum êxito na aliança destas pautas históricas.

Portanto, é preciso aliarmos esta discussão da interação de conceitos com a reflexão sobre a conjuntura política brasileira. Os movimentos sociais libertários, em especial o LGBT, feminista e racial buscaram uma institucionalização por meio das Organizações não governamentais (ONGs) que tem hoje um caráter predatório para o acúmulo político e a autonomia destes movimentos. Esta nova forma de movimentos sociais, na qual o estado prefere estabelecer interlocução por serem mais “técnicos, eficientes e bem-comportados” como afirma documento do Banco Mundial, põe em xeque a luta estratégica das pautas em questão. Há o um desafio de produzirmos novos contornos na organização e mobilização dos temas libertários, com independência, autonomia, desburocratização e pautados no enfrentamento à ordem opressora na perspectiva da totalidade.

O panorama político atual traz vários elementos, entre eles o ciclo PT e seu largo condomínio da governança que preteriu as alianças com as ruas e movimentos sociais e estimulou a acomodação e o apassivamento das forças insurgentes, utilizando a estrutura, a repressão e a cooptação para este fim. Ainda, priorizam a aliança com os setores mais atrasados do coronelismo, da intolerância religiosa e da prática política.

A acomodação da antiga esquerda demonstra o abandono da luta anticapitalista sintomático da deterioração ideológica e o rebaixamento programático, e as pautas libertárias são influenciadas todos os dias por estas tendências. Por isso, a necessidade de darmos novo fôlego para estas discussões fugindo do dogmatismo, mas também do oportunismo particularista que tenta despolitizar e rebaixar as pautas políticas.

O desafio colocado na tensão destes conceitos tem como pano de fundo a reorganização da esquerda democrática e radical brasileira, que precisa assumir como princípio o programa libertário, de luta em defesa de LGBTs, das pautas feministas, das pautas do movimento negro/negra, a mobilização indígena, ambiental e antiproibicionista. É urgente a construção de um novo projeto da esquerda para o Brasil que enfrente todas as formas de opressão e respeite a autonomia dos movimentos sociais. Esta articulação precisa ser capaz de inaugurar um novo ciclo de convencimento social e construção de hegemonia, o que só pode ser feito por meio do comprometimento coletivo insurgente e a interação equilibrada das diversidades políticas libertárias.

Referências:

LEAL, Maria Lúcia. Inquietações de gênero. http://www.violes.unb.br

MÉSZÁROS, István. Educação para além do Capital. São Paulo: Boitempo 2005.

Leitura prévia e sugestões:

Edemilson Paraná, Gustavo Capela, Hugo Fonseca e João Telésforo


[1] Mestrando em Política Social na UnB, militante da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA) e do PSOL

Uma resposta em “A luta é libertária: a relação entre as opressões e o anticapitalismo

  1. Edemilson, as “pautas libertárias” como continuamente citado tem relação conceitual com as doutrinas libertárias, como o libertarianismo e o liberalismo, que pregam essencialmente a anulação do Estado como um guia da ação individual?

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