A violência das ruas e os Inocentes da Esquerda Leblon

“Eu tô vendo um monte de gente incomodado com o quebra-quebra na Toulon. Sei que é polêmico o que eu vou dizer, mas eu, como ex-vendedora de loja, que trabalhava de 12/14h por dia em dias de grande movimento, sem ganhar hora extra, sem salário fixo, sem descanso no fds, tendo que chegar cedo pra limpar loja, tendo a bolsa e o corpo revistado ao sair, obrigada a bater meta, sob ameaça de ser mandada embora constantemente se não fosse rentável, tradada como produto da loja, obrigada a estar impecável, com as unhas e cabelos feitos no padrão da empresa (nada mais violentador pra mim do que ouvir que eu era um produto tb), vou ser bem franca, se eu trabalhasse ali EU ADORARIA VER A LOJA ARDER. 

Acho que eu acordava às 6h da manhã sonhando com isso todos os dias enquanto eu trabalhava em loja. 

Imagino que muitos vendedores de loja de Ipanema hj acordaram pensando “Droga! Pq não foi a minha loja!

Esse depoimento foi dado por uma ex-funcionária da Toulon, sobre sua alegria ao saber da destruição da loja de luxo do Leblon (bairro grã-fino do Rio de Janeiro) no contexto de manifestações em meados de julho. Ela não o divulgou anonimamente: postou-o no seu perfil pessoal no Facebook, com a coragem de expôr seu nome para deixar bem claro que se trata de um relato e de um sentimento real, de uma trabalhadora de carne e osso, e não algum tipo de invenção publicitária.

Quem seria de fato violento? O Estado e as empresas, que exploram, aviltam, oprimem, degradam, geram infelicidade, matam cotidianamente… Ou quem se rebela atacando símbolos e patrimônios (e não pessoas) desse sistema destrutivo de acumulação de capital, competição e consumismo, dominação econômica e cultural, coisificação do ser humano e mercantilização da vida?

manequim

Poucos dias antes do “vandalismo” contra lojas do Leblon, dez pessoas foram assassinadas durante operação policial na favela da Maré, também no Rio. Adivinhe qual desses fatos foi mais repercutido e criticado pela mídia…

Mais importante do que julgar os atos de destruição de lojas de luxo, agências de banco, concessionárias de automóveis, etc, é tentar compreendê-los. A esquerda radical é aquela que busca as raízes dos problemas para nelas encontrar as possibilidades de sua superação, ao invés de atacá-los apenas em sua superfície evidente (e por vezes enganosa).

Claro, em alguma medida a sanha destrutiva da turba parece ter sido insuflada por policiais infiltrados (com a cumplicidade dos governos, para dizer o mínimo), interessados em acirrar o conflito para tentar justificar a violência brutal da repressão (que inúmeras vezes foi detonada contra massas pacíficas). Porém, também parece bem claro que não foi o único detonador dessas ações.

Ao depoimento da funcionária da Toulon poderiam se somar inúmeros outros, sem dúvida alguma: de ira contra o escancarado caráter explorador do sistema econômico (que se expressou pela depredação aos bancos); de raiva gerada pela frustração com a má qualidade de vida, objetificação e falta de (auto)reconhecimento e prestígio social produzidos pela sociedade competitiva e de consumo burocratizado (representada pelos ataques a lojas de luxo e concessionárias de automóveis); de revolta contra a violência policial sistematicamente utilizada pelo Estado contra a periferia, as mulheres, os povos indígenas, a juventude negra, a população LGBT ou contra a participação política contestadora.

É inegável que toda essa raiva social acumulada contra as instituições vigentes – que se expressou também no rechaço à mídia hegemônica e a partidos – teve papel fundamental em gerar os atos de “vandalismo”.

Precisamos abandonar a postura da esquerda moralista e da esquerda arrogante, que se combinam na preocupação em condenar essas ações espontâneas das massas, mais do que em tentar elaborar alternativas para que seu instinto destrutivo da ordem vigente possa ser canalizado para a transformação social em perspectiva emancipatória. 

Maquiavel, nos Discorsi, já dizia que é preciso criar meios para que os conflitos se expressem na ágora e nas instituições – caso contrário, explodirão incontrolavelmente contra elas. É exatamente isso o que temos presenciado nas últimas semanas. A revolta contra as violências sistêmicas cotidianas não têm conseguido se expressar plenamente nem se organizar politicamente ante: (i) o fechamento e a falência das instituições; (ii) a burocratização e conversão à ordem de parte da esquerda; e (iii) a desorganização, desorientação estratégica e déficit criativo nosso, das organizações e movimentos da esquerda combativa. Em consequência, alguns setores só conseguem enxergar a violência espontânea e a revolta “contra tudo e contra todos” como a única saída para suas angústias e desejo de rebelião.

Compreender esses três fatores deve nos levar a reconstruir a estratégia de transformação social, em meio à sua práxis.

Nós, que rejeitamos radicalmente as injustiças do sistema social existente e sonhamos com uma sociedade organizada sobre bases culturais, econômicas e políticas livres e igualitárias, devemos celebrar a rejeição às instituições, bem como os sintomas e possibilidades de libertação subjetiva contidas no combate a símbolos do status quo. Obviamente, é precisamente aí, nesses momentos de crises, que florescem as maiores possibilidades de edificar novas instituições, sob viés emancipatório.

Nós, que há anos tentamos – sem muito sucesso, é necessário admitir – construir alternativas políticas capazes de não recair nos erros do ciclo histórico do petismo (a burocratização, a conciliação pelo alto, a prioridade conferida à disputa de cargos nas instituições como método principal ou até único de acúmulo de forças para a transformação), devemos comemorar o fato de que cresce a rejeição aos partidos da ordem. Assistimos agora a uma desilusão das expectativas socialmente depositadas no “projeto democrático-popular” (do PT, PCdoB, PSB e adjacências) e sua ênfase na ideia de que poder popular se constrói essencialmente pelo frenesi de vencer eleições – a qualquer custo, cada vez mais – e ocupar cargos institucionais.

É verdade que essa frustração e “ressaca” contamina também partidos que permanecem combativos e que jamais se alinharam à estratégia de priorizar as disputas eleitorais (em detrimento das lutas sociais). Porém, vejo mais a comemorar do que a lamentar aí. Trata-se de astúcia histórica do povo, aprendizado da sofrida memória das lutas e das desilusões com os caminhos institucionais. Mesmo para quem – como eu – julga que a esquerda não deve abrir mão de fazer também a disputa eleitoral, é preciso reconhecer que esta deve ser secundarizada. O caminho político para a transformação social deve ser construído sobretudo nas ruas! E não se pode desprezar a gigantesca importância de que amplos setores venham manifestando – por sua prática – acordo com isso. (Sobre esse ponto, leia a concepção de poder popular do B&D).

Por fim, não é apenas pelo rechaço ao sistema, às instituições e à estratégia eleitoralista que cresce a rejeição aos partidos (inclusive aos da esquerda que não abriu mão de seus princípios e projeto estratégico). É também porque boa parte da esquerda combativa não tem sabido sair do gueto, dialogar com os “não-convencidos”, disputar o senso comum e oferecer alternativas de organização com a cara da indignação das ruas.

Para superar essa situação, precisamos, sim, de novas formas de organização e novas linguagens. O desafio, porém, é muito maior. A esquerda precisa ir mais fundo, e repensar o conteúdo estratégico de seu projeto, sendo capaz de responder de forma dinâmica e programática aos grandes e novos desafios contemporâneos, adaptar-se a novas formas de cognição, comunicação e condições produtivas e culturais, e superar diversos vícios e equívocos que carrega em sua prática (sectarismo, vanguardismo, propagandismo…), evitando recair em outros (espontaneísmo, incapacidade de articular bloco contra-hegemônico de lutas…).

Os inocentes da “esquerda Leblon”, porém, já nos lembrava Drummond, preferem ignorar a realidade. Confortam-se em condenar aqueles e aquelas que fogem à verdade dos iluminados ou agem em desacordo com seu mantra. “Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem.” O óleo suave, no caso, são velhos dogmas de algumas organizações.

Quanto a nós, estamos presos à realidade, ao tempo presente, ao mundo presente. Em vez de sucumbir ao niilismo nostálgico ou às vãs esperanças depositadas num futuro abstrato pelo vanguardismo das seitas, preferimos participar do esforço de abrir caminhos para e com o poder popular, na práxis de reflexão, imaginação e tentativa contínua de superação das contradições e limitações que carregamos, em meio às lutas. Pela construção de alternativa consistente e viável de transformação social, capaz de canalizar de modo criativo e emancipatório o turbilhão rebelde de desejos de destruição das violências sociais.

“Os que virão, serão povo. E saber serão, lutando”.

PS: obrigado à Helena Martins, que me fez conhecer o depoimento da ex-funcionária da Toulon; e ao Rodrigo F. de Magalhães, pelo produtivo diálogo sobre este tema, em que pesem nossas divergências. Este texto é influenciado também pelo constante diálogo com o amigo Fernando Nogueira “Sansão”, e pela minha inveterada leitura do Bruno Cava (apesar das discordâncias que também temos, claro).

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