Nós revolucionários, o Papa Francisco e a Igreja

Por Edemilson Paraná

Algo de diferente parece surgir no horizonte da Igreja Católica. Um líder espiritual que, ao que indica seu discurso, defende algum respeito à diferença, a abertura a certos questionamentos teológicos, a preocupação com a opressão e os mais pobres, contra os males de uma dominação econômica cruel. Um Papa do terceiro mundo para o terceiro mundo. Trata-se, no mínimo, de um “giro tático” da Igreja, e isso não é qualquer coisa. Apontamentos para uma Igreja progressista e renovada, dos pobres, pela libertação? Cedo demais para dizer. O fato é que o tempo impõe mudanças e a Igreja entendeu isso: ou se renova, ou deixa de existir. Se o obscuro passado político do cardeal Bergoglio e a estrutura da instituição da qual faz parte são motivos para algum ceticismo, não é de se ignorar que a mudança guarda um simbolismo interessante.

A Igreja Católica, no entanto, é a Igreja Católica e um Papa é sempre um Papa. É importante ter essa obviedade em mente na hora fazer críticas e pensar seu papel (e a charge de Laerte que ilustra, abaixo, o texto é muito didática a esse respeito). Trata-se de uma instituição humana milenar, dogmática, hierarquizada e politicamente organizada a partir da obediência intelectual e comportamental. É assim que fundamenta sua razão de existir e se legitima enquanto representante do poder divino na Terra.

Larte

Essa instituição, no entanto, não é monolítica. Apesar de seu núcleo dogmático constitutivo, é dividida em correntes de pensamento, congregações e uma miríade de complexidades. Há em seu interior setores conservadores e setores progressistas (a Teologia da Libertação, por exemplo, cumpriu um papel político importante na resistência às opressões na América Latina). E essa diferenciação não é irrelevante; há igrejas dentro da Igreja.

Como estrutura de poder político simbólico e material, no entanto, cumpre um papel de normatização e controle. Esse papel, evidentemente, impôs historicamente e impõe um pesado fardo objetivo e subjetivo à mulheres, indígenas, negros, homossexuais, pobres e tantos outros “desviados” do “caminho” que ela professa. E impôs, sobretudo, porque sua “filosofia”, sua interpretação do mundo e da humanidade, da vida e da sociabilidade, é um dos sustentáculos morais de todo um sistema que organiza cognitivamente (e justifica, em alguma medida) uma vida submetida a irracionais opressões materiais.

Postas as paixões políticas de lado, é importante compreendermos que um “espírito” (judaico)cristão diz respeito às nossas instituições, ao nosso Estado, nossa política, nosso sistema de valores, nossa sexualidade, nossa sociabilidade “ocidental”. É, pois, parte constitutiva de nós: de críticos a criticados, de ateus a crentes, porque somos parte da mesma sociedade. O nosso humanismo e nossa visão de respeito ao próximo estão assentados, em alguma medida, em relação a tal “espírito” (que não explica em si a história, mas é parte dela).

É contra as agouras desse espírito, no que ele manifesta de cruel, que se direciona a luta do pensamento radical nesse particular. É natural que como revolucionários desejemos um novo mundo, livre das opressões materiais e imateriais, desejemos a superação de todas essas formas de controle e dominação, seja as justificadas em nome de deus, seja as justificadas em nome dos homens e suas “coisas”. Mas é natural também que, como parte dele, carreguemos dentro de nós esse velho mundo. Essa é a contradição fundamental de todo revolucionário: produzir o amanhã vivendo o hoje. Quem ignora ou nega essa contradição fundamental não tem compromisso com a realidade.

Mas o papo é sobre Igreja, Papa, religião. Como lidar com isso tudo diante de tal contradição mencionada?

Primeiro, entendendo que a fé tem sua materialidade, mas é algo sobre o transcedental. Uma ansiedade constitutiva e uma necessidade primária da existência humana. Nos sentimos parte de um todo, de um cosmo inexplicado e injustificado racionalmente. A questão, pois, é como vivemos e lidamos com isso, por meio de quais expressões. Os cristãos, católicos, se relacionam com isso de uma dada forma. Devemos respeitá-la. Não há outra opção. Cabe substituir uma normatização por outra, impondo a não-crença? Não parece razoável (e tampouco seria efetivo). Liberdade imposta não é liberdade e os cristãos devem ter seu direito à religião garantido. Para entender isso é preciso alguma dose de crítica ao hiper-racionalismo que tantos males produziu ao longo do século XX.

Segundo, entender que a religião, o Estado e a Coisa Pública não podem se misturar sem diferenciação. Tem-se direito de crer no que crê? Sim. Tem-se direito de impor isso ao conjunto da sociedade? Não. O ímpeto evangelizador, o ímpeto militante de conversão e convencimento (que é parte também da política e outras esferas da sociedade) não pode se transmutar em imposição e submissão. Não podemos aceitar essa violência que, para além de um ataque aos não-crentes, representa um duro ataque às demais formas de viver e entender a espiritualidade bem como as demais religiões.

Terceiro, entender que toda instituição e todo discurso guarda em si sua superação. A contradição fundante da Igreja é deturpar os ensinamentos fundamentais de seu profeta (de amor, tolerância, respeito, paz, solidariedade, contras as injustiças do mundo) por meio de um sistema de poder mundano centrado no controle e na regulação de subjetividades por meio de justificativas transcedentais – um sistema que produziu e justificou preconceitos, guerras e violências de vários tipos. É possível crer em uma fé diferente, libertadora? Eu diria que é contra a essência da verdadeira fé não ser libertadora. A fé só é fé, enquanto tal, quando expressa a liberdade em sentido pleno. Se hoje não a expressa, devemos lutar para que expresse. Para que a fé seja, sobretudo, a fé na capacidade humana de ser livre.

Há, estou convencido, cristãos comprometidos com essa missão. Esses devem ter nosso apoio porque são irmãos na luta por um mundo mais justo, livre e igual. A isso significa dizer que a religião é neutra e pode ser igualmente revolucionária ou conservadora a depender da apropriação? Isso seria uma afirmação muito categórica. O buraco é bem mais fundo. Significa dizer, no entanto, que fé não é sinônimo de opressão e que não há nenhuma hierarquia intelectual ou política entre quem crê ou não crê em algo para além da existência material mais imediata.

Tudo somado, há de se receber positivamente, sem ilusões, claro, as posições do Papa, que esperamos se materialize em posições de toda a Igreja. Chegaríamos, com isso, a um mundo livre? Não, longe disso, mas certamente seria um avanço considerável.

Chegaremos ao dia em que irmanados na vida livre prescindiremos de religiões, Estados, nações e todas as demais formas de normatização e controle da vida social? Só a luta dirá. Até lá, na busca por esse horizonte, não podemos nos desumanizar, não podemos ignorar nossas contradições. Não temos outra opção de caminho e construção que não o respeito. Um mundo construído em outras bases não seria o mundo da nossa utopia.

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