Reimaginar a esquerda: o chamado que também vem do Chile

A esquerda histórica está esgotada. Reimaginá-la implica pensar para além dos convencidos. Remete a pensar uma alternativa para amplos setores que não se definem de esquerda. Pensar o país – não só uma parte dele – e forjar uma vocação de disputa de consciências com uma direita que avança sob formas inéditas.

Há muito a assumir – e deixar de eludir – para abrir caminho a uma nova esquerda para um novo ciclo de lutas populares; as limitações dos chamados socialismos reais, de percursos que não socializaram o poder, que geram novas classes dominantes; as próprias derrotas locais da esquerda. Evadir esses problemas para buscar uma enganosa força moral, responsabilizar o inimigo de tudo, vitimizar-se como arremedo de identidade, apenas escondem o desarme político e o defensivismo conservador de magras burocracias. Assumir o fracasso das estratégias passadas para superar o capitalismo é um passo ineludível para criar outras novas capazes de fazê-lo.

Requerem-se novas estratégias. Não para administrar, mas para transformar. Esse esforço não pode reduzir toda sua luta à disputa pelo controle do Estado. O século XX nos ensinou duramente que a nova sociedade não se inventa depois da “tomada do poder”. A possibilidade de uma nova sociedade se define desde o presente. Está em jogo nas características dos atores políticos e sociais que impulsionam a luta transformadora. Ignorá-lo tem como consequência que em lugar de transformar, é a esquerda que é transformada, desnaturalizada e reduzida a sócia minoritária de projetos que terminam por aprofundar a ordem atual.

Desde hoje se prefigura o futuro buscado. Portanto, o que há que pôr no centro do debate, sem distrações, é a construção de uma força política e social transformadora, geradora de novas dinâmicas e espaços, o que implica superar o esforço centrado desmesuradamente no fortalecimento do partido e na monótona apelação ao que se quer destruir, no lugar daquilo a construir. Reduzir nossa identidade à antineoliberal, anticapitalista, antissistêmica, ignora a urgência de uma vontade construtiva e transformadora para uma nova esquerda como principal arma de superação da ordem atual.

A construção dessa força transformadora requer superar as velhas concepções de construção da organização política, em particular a lógica suplantadora das forças sociais. Estas são determinantes e insubstituíveis. Um processo de transformação social generalizado só pode ser sustentado por imensas maiorias determinadas a fazê-lo. Nisso não há atalhos possíveis. A crença ilusória em atalhos somente dilata essa marcha, e o curso da transição chilena [de superação da ditadura de Pinochet sem romper com seu modelo econômico] o exemplifica com brutalidade.

Para lograr abrir as portas de um novo ciclo histórico, esquivando-se de fechar qualquer parto na funerária da política esgotada, sem mais horizontes que a soma de cálculos burocráticos, hão de confluir, junto à vontade de ação e organização, enormes doses de imaginação histórica. Não se retornará à esquerda do século XX. Persistir hoje nesse formato apenas distrai nossa energia do desafio ineludível que a história pôs diante de nós: apropriar-nos do presente.

Carlos Ruiz y Francisco Figueroa

Fundación Nodo XXI

Tradução para o português de João Telésforo.

PS: este texto é a parte final do artigo “Izquierda para qué“, publicado pelos autores em julho de 2012 na edição chilena do “Le Monde Diplomatique”. Sugestões para aperfeiçoar a tradução livre feita por mim serão bem-vindas.pendonFrancisco (“Pancho”) Figueroa Cerda é militante do coletivo nacional Izquierda Autónoma (IA), do movimento estudantil. Foi vice-Presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECH) em 2010-11, e neste ano é pré-candidato a Deputado, junto a Gabriel Boric e Daniela López, também militantes da IA e ex-dirigentes estudantis. Todos se esforçam, atualmente, para alcançar as mil assinaturas necessárias para lançar suas candidaturas independentes.

Figueroa fundou, junto a outros companheiros da Izquierda Autónoma e antigos militantes do movimento Surda, a Fundación Nodo XXI, no ano passado. Entre ependonles, Carlos Ruiz Encina, professor de Sociologia da Universidad de Chile, ex-militante do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), fundador e antigo militante do Movimento Surda.

Ver também, aqui no blog, sobre o Chile e seu ciclo de lutas atuais:

(1) “Unidade da esquerda. Qual esquerda? Novas alternativas políticas em construção no Chile“; (2) Politizar demandas corporativas: o êxito do movimento estudantil chileno“; (3) “Francisco Figueroa: Uma nova reforma universitária para a América Latina“; (4) “No Chile, o Brasil que não queremos: termoelétrica de Eike Batista X Biodiversidade  e Comunidade de Pescadores“.

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