A conversão do PT em partido da ordem: o discurso de Lula nos 10 anos de governo “democrático e popular”.

Anteontem, em evento de comemoração dos dez anos da chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo federal, ficou evidente, no discurso do ex-Presidente Lula, como o PT converteu-se explicitamente em um partido da ordem, abdicando de servir como instrumento de organização, formação e mobilização popular por um modelo alternativo de desenvolvimento, tal como o partido defendia em seu antigo – e efetivamente abandonado – programa “democrático e popular”.

Vejamos:

1. Política macroeconômica. Lula revela que, em 2002, se negou durante dez dias a assinar a “Carta ao Povo Brasileiro“, que terminou por subscrever no dia 22 de junho daquele ano. O ex-Presidente afirmou claramente, no seu discurso de anteontem, que esse ato constituiu uma ruptura com sua história e a do partido que liderava, e que não foi nada fácil fazê-lo. E não é por acaso que fazer essa ruptura foi tão dramático: a tal “Carta ao povo brasileiro” era na realidade, como se sabe, uma carta aos banqueiros. Buscava sinalizar claramente para o empresariado, e muito especialmente para o mercado financeiro, que a política econômica do governo do PT honraria o legado tucano e não deixaria de priorizar esse setor, antes de qualquer outro.

O candidato Lula afirmava explicitamente, na carta: “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário“. A política de superávit primário, que o PT combatera ao longo de todo o governo FHC, equivale a priorizar “o quanto for necessário” o pagamento de uma pequena classe privilegiada de rentistas, às custas de investimentos sociais e produtivos que beneficiariam a  maioria da população brasileira. Significa abdicar de construir uma nova política macroeconômica. Não por acaso, o escolhido para chefiar o Banco Central ao longo dos governos de Lula foi Henrique Meirelles, eleito, em 2002, Deputado Federal pelo PSDB-GO, e que aterrissava no Brasil após décadas de serviços em altos cargos dos maiores bancos do mundo, os quais depositavam nele inteira confiança.

O PT cumpriu a promessa, e priorizou a pequena classe riquíssima de rentistas em cada ano de seus governos. Em 2012, por exemplo, 47,19% do orçamento da União foi destinado a pagar juros da dívida pública, enquanto os gastos com saúde ficaram em 3,98%, de acordo com a Auditoria Cidadã da Dívida.

2. Reforma agrária. Lula afirma, em seu discurso, que também não foi fácil, para ele, abandonar a demanda histórica por uma “reforma agrária ampla e radical sob o controle dos trabalhadores” e passar à reforma agrária que ele denomina “tranquila e pacífica”. O significado desse “tranquila e pacífica” é deixar de encarar e pautar a reforma agrária como um instrumento para construir uma nova forma de organização produtiva, social, política e ambiental no campo.

A reforma agrária reorganizadora, pauta histórica e atual da esquerda, exigia e exige o confronto do agronegócio e da sua lógica de mercantilização da terra, exploração do trabalho, depredação ambiental, concentração de poder e reprodução da secular condição do Brasil como país dependente, com economia rural baseada na monocultura para exportação, e não na segurança alimentar e na produção com alto valor agregado por meio do desenvolvimento tecnológico sob controle popular (e não por meio da posição dependente assumida frente à Monsanto e outras transnacionais).

Os governos do PT não incomodaram o agronegócio; pelo contrário, dispuseram-se, desde o início, a apoiá-lo fortemente, o que estava presente no discurso de posse de Lula em 2003. Desde o primeiro dia do governo Lula até hoje, o Ministério da Agricultura esteve sob o comando de pessoas e partidos de confiança do Agronegócio, e sua responsabilidade foi apoiar esse setor.

A reforma “tranquila e pacífica” significou a redução da reforma agrária a uma política marginal e compensatória, incapaz de realizá-la como instrumento de democratização da propriedade e de construção de um modelo alternativo de desenvolvimento.

3. A redução do PT a uma máquina eleitoral.

Algumas pessoas argumentam que o caminho que o PT escolheu se justificaria naquele momento; mas, depois de vários anos no governo implementando as políticas estruturais de seus adversários, em algum momento o partido poderia voltar a exercer o seu antigo papel de polarização em termos de projeto. Infelizmente, não é para isso que as evidências da realidade têm apontado. O processo é de despolitização do debate, burocratização dos processos internos do partido e crescimento da cultura personalista.

No discurso de Lula anteontem, isso voltou a ficar explícito. O ex-Presidente conclui afirmando: “A resposta que o PT deve dar a eles é a gente dizer para eles que eles podem se preparar, eles podem juntar quem eles quiserem, porque se eles têm dúvida, nós vamos dar como resposta a eles a reeleição da Dilma em 2014 nesse país. É essa a consagração da política do Partido dos Trabalhadores.”

A consagração da política do PT, pois, é vencer eleições. Pode-se argumentar que isso significa que a consagração seria a aprovação popular a esse projeto. Porém, esse reducionismo não se sustenta, quando se compreende os defeitos estruturais das eleições no interior do nosso sistema político e socioeconômico, dominado pelo poder econômico e ideológico das classes dominantes. Vitória eleitoral nunca foi sinônimo de mudanças estruturais, ou sequer de progressismo.

Consagração real do processo seria constatar sua contribuição ao fortalecimento de processos de organização e ascenso das lutas populares de sentido emancipatório, o que vai muito além das eleições, embora possa ter também nelas um espaço de disputa e projeção.

Essa fala de Lula não é isolada, e é reflexo consciente da estratégia assumida pelo PT: entender a disputa eleitoral por ocupação de espaços no Estado como prioridade superior a qualquer outra, e em nome da qual instaura-se o vale-tudo, todo tipo de concessão programática, organizativa e ética (e não me venham petistas chamar de “moralista”, pois a esquerda nunca deixou de valorizar a ética, como dimensão principiológica, estratégica e pedagógica de seu projeto).

4. Superar o PT, construir novos instrumentos

Ao longo da minha infância e pré-adolescência, meus pais eram petistas, não apenas filiados, mas militantes de intensa convicção e engajamento cotidiano. Aos doze anos, fiz “campanha” para Marta Suplicy na minha escola, aos catorze emocionei-me com a vitória de Lula. Nunca fui, nem sou antipetista. Foi e é doloroso, para mim, desgarrar-me de uma simbologia carregada de afetos positivos, de memórias das lutas que o partido ajudou a construir e desempenharam grande papel na história do Brasil.

Tampouco desprezo certos avanços, pontuais porém importantes, trazidos pelo governo Lula, a exemplo do Bolsa-Família e do aumento do salário-mínimo.

Porém, é preciso fazer uma análise sistêmica e avaliar que, infelizmente, os setores dominantes do PT optaram por abandonar o projeto histórico do partido, o seu papel de lutar por um modelo alternativo de desenvolvimento, de pautar reformas estruturais. Contentaram-se em conciliar e, como “pagamento” pelo seu papel apassivador das lutas, ter a possibilidade de realizar pequenos ajustes progressistas no modelo que deixaram de questionar. Tornaram-se máquina eleitoral que visa a realimentar essa opção. No caminho, fortaleceram-se mais dentro do partido, cada vez menos “disputável” pelos setores insurgentes que ainda têm a paciência ou a teimosia histórica de resistir lá dentro.

Nós, que reivindicamos um novo projeto de sociedade, um modelo alternativo de desenvolvimento socioeconômico, uma democracia sem amarras; nós que queremos a reconstrução – como criação, e não como repetição – de um caminho de polarização com o modelo de sociedade que o PT antes combatia, e agora conserva; nós não temos mais lugar no PT, infelizmente.

Cabe a nós construir, na práxis conjunta de luta social e articulação e formulação política, novos instrumentos.

É duro constatar que o caminho traçado faz mais de uma década, por Lula, Dirceu e outros, realizou-se e aprofundou-se. Por outro lado, é reconfortante interpretar esse processo e perceber que se tratou de uma escolha estratégica malsinada, e não de um mero “desvio ético”. Essa lucidez é necessária para que não embarquemos em falsas alternativas, tais quais o PSB, que jamais polarizou à esquerda com todo esse processo petista, e agora sinaliza para possível candidatura oportunista à Presidência da República. É imprescindível, também, para que não reproduzamos, agora sob novos rótulos, erros análogos àqueles cometidos pelo PT, tal como tem sinalizado, infelizmente, “a Rede” de Marina Silva, que já nasce sob o signo da conciliação, da acomodação, da inconsistência de formulação estratégica e da falta de ousadia.

Finalmente, a compreensão do declínio do ciclo petista de lutas é ferramenta para traçar caminhos alternativos, sem ceder à tentação desmobilizadora do niilismo.

A vida pede coragem!

3 respostas em “A conversão do PT em partido da ordem: o discurso de Lula nos 10 anos de governo “democrático e popular”.

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  2. Cara, que bela análise você faz. É isso companheiro! Não podemos esmorecer. Para construirmos uma nova ferramenta de luta, é necessário compreender porque a antiga já não serve mais. Para não repetirmos os mesmos erros. O que não podemos fazer é desistir de sonhar por um mundo melhor.

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