Velho com cara de novo? Diálogos com o bom-mocismo marinista

Desafio. Dependerá do programa político a construção de um partido de fato “novo” e sério por Marina Silva e seus seguidores.

Por Edemilson Paraná

Às voltas com a criação de uma legenda eleitoral, Marina Silva e seus correligionários tem um gigantesco desafio pela frente: parir, em menos de um ano, um programa político onde, até aqui, há apenas “boas intenções”. Recolher assinaturas para a criação da nova sigla é um mero (ainda que monumental) detalhe diante desse problema político fundamental: a inconsistência político-programática dos marineiros.

Há, é impossível negar, elementos interessantes na proposta: a inclusão da questão ambiental na pauta, a defesa de uma nova cultura política, renovada pela inclusão dos “setores vivos da sociedade” no processo e a inquietação perante a crise de representatividade em que vivemos. É preciso reconhecer ainda; sua base atuou de algum modo, ainda que dividida no Congresso, contra os abusivos ataques ao Código Florestal, contra os ataques dos últimos governos aos indígenas e quilombolas, contra os problemas em torno da construção da Usina de Belo Monte e mesmo regionalmente em iniciativas esparsas por um modelo de cidade “verde” em diferentes regiões. Mas qual é, de fato, o lastro ideológico do novo partido? Que lado tomará nas grandes questões nacionais?

Ética pela ética para o desenho de um “udenismo verde”, Marina Silva e os “sonháticos” devem saber, não é a resposta. Tão pouco o tergiversar ideológico sobre um partido que não estará “nem à esquerda, nem à direita, mas à frente”, como vem dizendo Marina e seus seguidores desde sua campanha de 2010 que, recordemos, foi de um considerável ensaboar programático. Não deixa de ser irônica, sobretudo pela óbvia diferença de trajetória pessoal, a coincidência das declarações de Marina com a definição dada por Gilberto Kassab ao seu recém-criado PSD: um partido que não é “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”.

É sobre política, pois. Porque não há estética transformadora sem consistência de ideias, sem projeto de mudança e sem o corajoso (e doloroso) ato de tomar lado. Até aqui, além da defesa convicta do tripé neoliberal da macroeconomia brasileira – que garante injustiças estruturais como a destinação de mais 40% do orçamento da União para uma dívida pública jamais auditada, de um capitalismo verde dos mercados de carbono e de uma tímida reforma política que permitirá doações privadas de campanha de pessoas físicas e jurídicas, pouco se sabe a respeito do que fato defendem os marineiros para o Brasil.

A perguntas são muitas, as respostas, pelo menos até aqui, insuficientes. Como reduzir a produção e o consumo de agrotóxicos sem enfrentar o modelo de agronegócio exportador e a indústria agroquímica? Ou a agroecologia e a agricultura familiar se tornarão modelos dominantes sem grandes disputas? Devemos ignorar a desconcentração fundiária e a reforma agrária como temas da agenda socioambiental? Como barrar de fato Belo Monte sem enfrentar o complexo mineral-siderúrgico e as grandes empreiteiras que financiam campanhas em todo o país? O empresariado verde que apóia Marina aceitará, em nome da sustentabilidade, reconhecer que a propriedade intelectual dos seus produtos pertence às comunidades tradicionais? Como negar a óbvia relação entre modelo agroexportador, destruidor do meio ambiente, e a política econômica defendida por Marina? Como fazer frente ao acenso fundamentalista sem sair de cima do muro em temas morais como a liberdade sexual, as políticas sobre drogas e o direito das mulheres?

Marina Silva em debate com o grupo Brasil e Desenvolvimento em 2010, durante campanha presidencial. Defesa de uma agenda econômica à direita de José Serra.

Ou Marina Silva e seu “Movimento por uma nova política” encaram essas questões, ou não serão capazes de apresentar uma alternativa política de fôlego. Vale a reflexão: o que justifica o “silêncio” em relação a esses pontos? Ingenuidade? Ou falta de coragem para produzir os dissensos necessários à mudança real? Em busca da resposta, lembremos que é na ausência de projetos reais de sociedade que a conservação mostra sua face mais perigosa: a ideologia de que o confronto é sempre danoso e a conciliação é sempre uma dádiva. Pois é aí, nessa geleia conciliatória de ética pela ética combinada com neoliberalismo verde, ausência crítica e indefinição programática sobre qual modelo de “desenvolvimento sustentável” seguirá o Brasil que reside a grande debilidade política do marinismo.

Como apresentar respostas para a “crise de civilização”, termo emprestado por Marina dos ecossocialistas, sem uma real tomada de posição em relação à estrutura econômica do país? A coalização política que se forma em torno do marinismo permitirá a defesa de um modelo de “desenvolvimento sustetável” que de fato coloque nossas gritantes desigualdades sociais no centro da questão? Até aqui, poucos sinais de que isso acontecerá foram dados.

“Mas nós defendemos uma nova política”, dirão os marineiros, discorrendo a respeito de articulação e colaboração em rede, representação política sem legenda e “ativismo autoral”, como numa grande Marcha Contra a Corrupção, espontânea e auto-organizada por meio das redes virtuais do século XXI; como as ocupações das praças dos EUA e Europa, como a Primavera Árabe, conforme explicou Marina a respeito de seu “movimento” em recente entrevista ao jornal Valor Econômico. Um “movimento” que em 2012 apoiou candidatos diferentes de legendas diferentes e, por vezes, completamente antagônicas (PPS, PV, PSB, PDT, PSOL, PT), todos ao mesmo tempo, unicamente porque unidos pelo ideal da ética para uma “nova” política, conforme se orgulha Marina em sua profecia da alternativa de conciliação ungida pelo bom-mocismo.

Há de se separar bem coisas em meio a tanta confusão retórica. É evidente que defendemos a atuação política em rede, espontânea e auto-organizada do povo, assim como igualmente enxergamos com entusiasmo as revoltas que sacudiram o mundo nos últimos dois anos em diferentes locais e contextos. Mas o giro de pensamento e o protagonismo político que transformam forma em conteúdo (e vice-versa) não existem em si mesmos; são sínteses históricas e criações políticas coletivas, esforços de resistência e luta por mudança, uma ressignificação insurgente, e não uma biogênese virtual do bom-mocismo sonhático. De que adianta usar novas formas para velhos conteúdos? Trata-se aqui, então, para efeitos de clareza política, de centrar o movimento da história nos “porquês” mais do que nos “comos”, nas contradições e injustiças a serem combatidas; porque não existe forma sem conteúdo ou processo emancipatório sem consistência política.

O que diria o “Movimento por uma nova política” ao ser lembrado de que o Occupy Wall Street e as acampadas espanholas ou gregas foram para as ruas contra modelos de política econômica e capitalismo verde como os defendidos por Marina Silva? Como reagiria ao furor de uma Marcha contra a Corrupção que, espontânea ou não, apresenta amnésia a respeito das relações estruturais (e estruturantes) entre corruptores e corrompidos, que nega que a maior de todas as corrupções é o Brasil manter uma das mais gritantes desigualdades de renda do mundo e que a corrupção existe, sobretudo, pela escolha política de manter privilegiados e excluídos, opressores e oprimidos? O que explica a timidez na discussão a respeito dos modelos excludentes de cidade e o avanço da especulação imobiliária?

É preciso mais. Para a falta de participação, para a crise de representação, para descrença na mudança precisamos de mais e mais política, mais programa, mais consistência, mais projeto. Ainda que a indignação contra a corrupção tenha seu justo lugar garantido, política não é apenas sobre ética, mas sobre a capacidade de propor e realizar.

Pois vamos, então, a alguns dos esboços de propostas do “movimento”. Uma interessante solução para a crise de representatividade na política institucional apresentada por Marina Silva é a promoção formal, via resolução de tramites burocráticos, de candidaturas avulsas de não-filiados orgânicos em seu novo partido. Em resumo, trata-se de “emprestar” a legenda para que cidadãos, representantes de organizações ou setores sociais, se candidatem livremente pela legenda, desde que observando “orientações gerais” do partido. Ora, ainda que as intenções sejam boas, poucas coisas são tão conservadoras quanto construir mais um partido com candidaturas que não defendam um projeto coletivo, mas sim ideias e interesses próprios chancelados por sinalizações gerais. O que isso tem de novo?

Marina e seus seguidores defendem, ainda, o alvorecer de algo que ela chamou de “ativismo autoral” em resposta à falência de modelos de organização política do século passado, como partidos, sindicatos e movimentos sociais tradicionais. Ora, o descenso desses modelos de organização, por várias razões políticas, econômicas e históricas – algo que não é objeto desse texto, é, concordamos, um dado. Mas um dado que pede uma reflexão insurgente para respostas imaginativas e não o frenesi cult-modernoso da democracia 2.0, da transparência pela transparência.

Tratar a tecnologia como a desgraça completa ou a redenção final da humanidade não são pólos muito razoáveis nessa discussão. Não há como pensarmos “novos aplicativos para a democracia”, como defendem, se não tivermos clareza de qual democracia queremos. Se, com a evolução tecnológica e todo um conjunto de mudanças sociais por ela responsável e dela advindas, as injustiças mais cruéis e antigas permanecem e se intensificam, o momento é, então, de reafirmação, por todos os meios possíveis, da luta histórica por uma outra sociedade.

Como organizar a luta por melhores condições de trabalho em tempos de capitalismo informacional? Como usar a internet para organizar famílias pelo direito à moradia e à terra quando o acesso à tecnologia ainda é um privilégio de poucos? Como utilizar a dinâmica das redes em prol e com quem está fora delas? Como manter o apelo a projetos e programas políticos estruturais de mudança quando partidos se esgotam como modelo de organização? Como usar a tecnologia para democratizar as decisões dentro e fora dos partidos e do Estado? São desafios que pedem renovação de perspectivas, reinterpretação de nossos problemas e visões de mundo, e não apenas novas “formas” e instrumentos de ação.

“Vivemos uma crise civilizatória”, avalia corretamente Marina. Pois é em torno das respostas para tal crise que devemos repensar nossa ação e nossas propostas para o futuro.

18 respostas em “Velho com cara de novo? Diálogos com o bom-mocismo marinista

  1. Que puta bobagem, meu! Vc não fala nada com nada! Tenta colocar a Marina no mesmo lugar dos outros políticos, ou devido sua incapacidade de ver as diferenças ou devido ao seu petismo enrustido!

    • É uma pena, Sonia, mas além de umas poucas palavras grossas, seu comentário não rebate nenhum dos argumentos do texto. Não estou discutindo a pessoa da Marina Silva, mas o marinismo como fenômeno político. Aguardo seus questionamentos. Obrigado.

    • Realmente, acredito que Marina Silva diferencie-se de muitos “dos outros políticos”, mas não de todos, e isso não significa que ela seja, a princípio, moral ou legalmente condenável. Nas últimas presidenciais, o discurso de Marina Silva simplesmente não era de todo consoante com suas práticas.
      Em primeiro lugar, porque uma das principais bases de toda a sua candidatura foi algo não determinado que ela chamou de “nova política”. É compreensível e, por vezes, admirável o simbolismo do discurso moralista que pretende combater males históricos da cultura e da prática política brasileira; no entanto cumpre indagar acerca da responsabilidade de alguém que se candidata à presidência da República, prometendo algo que ela mesma confessa desconhecer o que seja e como seria possível fazê-lo. Não surpreende que, uma vez perdidas as eleições, Marina Silva tenha declarado retirar-se, temporariamente, da cena política, para tentar compreender e como fazer precisamente aquilo que ela pretendia realizar, caso eleita.
      Em segundo, é preciso lembrar que Marina Silva optou por candidatar-se pelo Partido Verde, que constitui partido político que realiza, sem consternações, práticas da “velha política”. A contradição com o discurso marinista é notório. Por que Marina Silva não se candidatou por um partido político novo, cujas alianças tradicionais, por exemplo, não se caracterizassem por características criticadas por sua candidatura? Faltaram tempo, recursos e apoio à candidata para a criação de nova sigla para as eleições de 2010, ou, pragmaticamente, interessava à Marina Silva lançar-se pela sigla Verde, qualquer que fossem as práticas gerais do partido, a fim de consolidar seu nome nacionalmente e sua plataforma ecológica para futuras eleições e para projetos pessoais?
      As razões da saída de Marina Silva do Partido Verde somente confirmam o fato de que esse partido nunca esteve em condições de sustentar o esboço da “nova política” de Marina Silva. Inclusive, em face das circunstâncias em que ocorreram a entrada e a saída de Marina Silva do Partido Verde, é possível especular que ela tenha pretendido apropriar-se dele, por conveniências de legenda partidária, ainda que vislumbrasse a transformação das orientações gerais do partido.
      Destaco, apenas, esses dois pontos, pois creio que o texto do Edemilson Paraná aborda inconsistências muito claras do discurso de Marina Silva que devem ser destacadas e criticadas, sobretudo em razão do moralismo que parece estar subjacente a ele. E o moralismo precisa ser sempre considerado sob perspectiva crítica, pois ele frequentemente confunde político e Política, e moral e ética, o que tende a contribuir com a perigosa despolitização da sociedade brasileira.

    • Parece que o problema da discussão em torno dessas mudanças necessárias é mais conceitual e ideológico do que de fato ter uma agenda, um compromisso, um discurso pragmático, ou qualquer outro que seja. O que precisamos é parar de conceituar, teorizar, porque isso já temos bastante e com competência. Existem vários pensadores que nos deram todas as bases necessárias, Portanto, hora de fazer e tentar mudar. Se não der certo foda-se, pelo menos tentamos. Devemos sim levar em conta a discussão conceitual, mas do mais precisamos é do velho “clichê” EDUCAÇÃO. Sim precisamos disso. Entendo assim mais do que nunca, porque curso geografia em universidade pública e minha linha de pesquisa é na área do planejamento ambiental. Vejo o quando é preciso investimentos públicos na formação de profissionais capacitados, das áreas técnicas e humanas, sobretudo com a discussão conceitual da ciências humanas, porque essa pode dar um norte muito importante. Dinheiro também tem, órgãos de pesquisas como a FAPESP e o CNPq disponibilizam apoio aos projetos, mas o que falta são pessoas interessadas, alunos interessados, porém nossa cultura privilegia as áreas que não estão interessadas na mudança do statos quo. E a maioria das pessoas se interessam por elas. Lógico, as que são importantes não existe propaganda, são ditas áreas chatas, sem graça, pesada, massante, que não dá dinheiro, e assim vai. Portanto EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO E EDUCAÇÃO pra mudar essa mentalidade. Não apenas investimentos nas áreas técnicas, pois corre-se o risco de reproduzir os erros que nos guiaram até aqui. RESPEITO À DIVERSIDADE PARA QUE CADA UM CUIDE DA SUA VIDA SEM IMPORTUNAR A DO OUTRO. Assim poderemos viver pacificamente e modificarmos a sociedade.

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  3. “A perguntas são muitas, as respostas, pelo menos até aqui, insuficientes. Como reduzir a produção e o consumo de agrotóxicos sem enfrentar o modelo de agronegócio exportador e a indústria agroquímica? Ou a agroecologia e a agricultura familiar se tornarão modelos dominantes sem grandes disputas? Devemos ignorar a desconcentração fundiária e a reforma agrária como temas da agenda socioambiental? Como barrar de fato Belo Monte sem enfrentar o complexo mineral-siderúrgico e as grandes empreiteiras que financiam campanhas em todo o país? O empresariado verde que apóia Marina aceitará, em nome da sustentabilidade, reconhecer que a propriedade intelectual dos seus produtos pertence às comunidades tradicionais? Como negar a óbvia relação entre modelo agroexportador, destruidor do meio ambiente, e a política econômica defendida por Marina? Como fazer frente ao acenso fundamentalista sem sair de cima do muro em temas morais como a liberdade sexual, as políticas sobre drogas e o direito das mulheres?”

    Sou eleitor da Marina e acho que essas perguntas são pertinentes apenas para uma parte do eleitorado dela. Nem todo mundo que vota nela é “ecoeleitor”. Eu acho que ela ganha pontos por fugir do lugar comum da briga estúpida entre direita e esquerda e por se livrar de alianças políticas que perpetuam a corrupção. Não sei se um dia ela será presidente, acho que ela corre o risco de não receber apoio do parlamento (que só se mexe quando há $$$$) e talvez por isso um possível governo empaque. Mas eu suponho que ela não molharia a mão de ninguém para receber apoio político. O que não suporto é a relação promíscua que há entre a capacidade de governar e corrupção. Independente do partido que esteve no poder, ocorreu essa relação podre. Quando o único interesse que realmente existe é o enriquecimento ilícito, não importa a ideologia do ladrão. Talvez a competência importe… mas a ideologia não… por isso muita gente vota em políticos que “roubam, mas fazem” ¬¬

  4. Muito bom.

    Essa tendência neoudenista de gritar ética pela ética, de achar que ser ‘técnico’ resolverá tudo, de fomentar um desprezo pela classe política apenas enfraquece as discussões.

    Parabéns pelo texto.

  5. Grande Edemilson Paraná , teu texto tem pontos interessantes, discordo de vários, mas o debate é longuíssimo…rsrs Vamos debater ao vivo que a prosa é grande! Em resumo minha opinião é que a disputa pela questão programática que vc elenca é o desafio central. A premissa de um desafio é que a questão está em aberto. Por isso é desafio e não limite. O limite tem como premissa uma definição já consolidada. Acho que o que vai separar as pessoas que acham que o problema é um limite ou um desafio é a percepção que possuem sobre a premissa. Eu acho que é desafio, me pareceu que vc acha que é limite. É isso mesmo? Além disso, o pensamento progressista pode se enquadrar em outro binômio que não o direita e esquerda, mas o de antecipação do futuro ou extinção dos modos de vida. Essa clivagem me parece central, porque definidora de todas as outras.

    • Querido Janjão, vamos lá:

      1 – acho que a questão está mais no campo das tendências e sinalizações do que propriamente na discussão a respeito dos limites e desafios. Para não cair no achismo, o que discuto no texto é um conjunto inegável e claro de tendências que, uma vez consolidadas, podem decretar de vez a não viabilidade do novo partido como alternativa real (transformadora) no debate político. Uma vez que, por todas as razões elencadas no texto, essas tendências já vem de algum tempo e parecem, pelo rumo dos encaminhamentos, se intensificar, é natural que eu as interprete mais como limites do que como desafios (partindo da sua categoria de análise); mas é claro que abro a possibilidade para contradições e, evidentemente, mudanças de rumo – algo, aliás, pelo qual torço e que me moveu a escrever esse texto de “alerta” a vocês nesse momento de concepção da nova sigla.

      2 – Sobre a dicotomia direita X esquerda, aí, de fato, nossa discordância é radical. Como socialista, que carrega um conjunto de princípios e valores (e legal vc ter retomado a importância desse “conceito”) claramente situados no debate, é evidente que acho esse “situamento” cognitivo (para não falar em ser declaratório ou demarcatório por mera estética) é importante. Política, conforme defendo no texto, é sobre uma tomada clara de lado, sobre a honestidade a respeito de convicções e locais de fala orientadas a partir de visões de mundo, sobre pocisionar-se a respeito das polêmicas fundantes que definem nossos problemas e injustiças. É a confrontação desses lados que gira a roda do debate político. A isso não significa decretar que essa é a única categoria, ou a principal, mas é sem dúvida um divisor de águas e, portanto, fundamental. Fugir dessa discussão é, a partir de um certo vazio retórico, caminhar em direção à confortável (para não dizer oportunista) posição de obter, a partir da falta de objetividade, a concordância de todos e a discordância de ninguém. Sabemos, no entanto, sob pena de sermos ingênuos, que esses “consensos fabricados” ou aparentes dificilmente nos levarão à mudança que desejamos. Os interesses e armas da conservação são pesadas e todos sabemos disso.

      3 – Sob centrar a discussão em “antecipação do futuro ou extinção dos modos de vida”, acho essa uma aposta muito acertada. Aposta aliás de largos setores da esquerda mundial. É o caso dos ecossocialistas, de quem o movimento de vocês parece emprestar vários conceitos. Isso evidentemente não pode ser um chamado à fuga sobre a discussão do atual modelo de sociedade, do que ele significa e do que propomos em seu lugar e, portanto, o que é ser direita ou esquerda no contexto atual. Acho, ao contrário, que essas duas perspectivas se complementam a fim de dar mais substância e clareza ao debate e à ação política.

      Tudo, somado, espero, quando possível, considerações de mérito suas, dos grandes Pedro Ivo Guarani Kaiowá e Pedro Piccolo Guarani Kaiowá, companheiros que respeito, em relação à discussão que proponho. Apesar da dureza (um imperativo, por vezes, da clareza e honestidade política), minhas intenções são as melhores: contribuir para que juntos, cada um a seu modo, possamos trabalhar por um mundo e um Brasil melhores.

  6. Parabéns Edemilson, deixo aqui um link porque de fato a civilização está em cheque e é preciso recomeçar do zero. As Cosmópolis propostas não são apenas instrumentos supostamente indenes ambientalmente para que as pessoas possam levar as suas vidas burguesas sem prejudicar o meio-ambiente. Elas são na verdade a manifestação de um ambiente que detém por detrás de si um ideário sócio-ambiental-espiritual muitíssimo mais amplo de rica lavra antropológica & sociológica.abraços. http://www.facebook.com/CosmopolisAsCidadesDaLuz

  7. Querido Edemilson,

    Primeiramente te parabenizo pela analise crítica e bem fudamentada do “mocismo marinista” como você mesmo define, se bem entendi, o estilo político da referida. Concordo com a seguinte frase: “Ainda que a indignação contra a corrupção tenha seu justo lugar garantido, política não é apenas sobre ética, mas sobre a capacidade de propor e realizar. ” Creio que este seja um dos problemas nao somente da legenda que surge mas também desta pessoa política que se mostra ambígua algumas vezes em seu discurso. Pode-se também notar a falta de uma política fundamentada, estruturada e clara que possa realmente propor ações aplicáveis e concretas para sulucionar problemas que aflingem o país.

    Um grande abraço.

  8. Excelente texto. Excelentes argumentos.

    Adorei o UDN verde, pois tudo que surge assim como se fosse novo e usa a retórica da negativa (Não sou esquerda, nem direita, muito pelo contrário) é bastante perigoso. Parece o mesmo discurso do PT lá nos anos 80 e que vimos onde deu. Não há nada de técnico na política, as opções são puramente ideológicas!

  9. Marina Silva conseguiu fazer proezas na política: fez um partido que não é partido, mas uma rede; tomou posição partidária sem tomar posição: não é nem de esquerda, nem de direita, nem de direção alguma ou de todas as direções que uma rede possa ter; e assim conquistou cibernéticos, esotéricos, ambientalistas, evangélicos e a maioria já bastante descrente da política dos engravatados de Brasília. Paira a dúvida no ar: onde é que isso vai dar?

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