A direita ataca na Venezuela

Hugo Chávez após uma de suas sessões de tratamento contra o câncer

Hugo Chávez após uma de suas sessões de tratamento contra o câncer

por  Fábio Felix

A Venezuela fervilha mais uma vez na mídia brasileira e estrangeira como grande pauta da política internacional. Não é preciso ser um perito ideológico para perceber a sede das classes dirigentes da América Latina em comemorar as trágicas condições de saúde do Presidente Hugo Chávez. E repetindo a cobertura de outros eventos naquele país (como a tentativa de golpe em 2002), a maioria da mídia começa uma campanha de desestabilização do regime venezuelano. A polêmica amplamente alimentada neste caso tem sido a posse do Presidente Hugo Chávez, que deveria ter ocorrido no dia 10 de Janeiro de 2013.

O Presidente Chávez enfrenta uma turbulenta luta contra o câncer e que parece atravessar um de seus piores momentos. O porta-voz do Governo da Venezuela assumiu que “o estado de saúde do comandante é grave”, fato que impediu sua ida ao país para ser empossado pelo Tribunal Superior. O momento é tão grave que o Vice Presidente Nicolás Maduro afirmou: “O Presidente está lutando pela vida”.

O fato é que um mandatário eleito com a maioria dos votos do povo não poderia perder seu mandato por uma interpretação formalista da Constituição Venezuelana, alimentada pela mídia internacional. A organização Mesa de Unidade Democrática (MUD) que em 2002 não teve uma leitura formalista da lei, quando colaborou para uma tentativa de golpe no Presidente, agora queria, através de um de seus principais líderes, Ramón Guillermo, que o prazo da posse fosse decisivo para o reconhecimento da legitimidade do líder. Caso parecido ocorreu no Paraguai, onde Presidente Fernando Lugo foi destituído pelos latifundiários por meio do Senado, em um cenário de golpe baseado em argumentos legalistas.

A discussão não passa de mais um factoide criado pelas elites da América Latina, que têm sofrido profundas derrotas políticas na Venezuela nos últimos anos. Por meio do papel decisivo das forças vivas do povo, um conjunto de enfrentamentos têm sido realizados, e vão de encontro aos setores que historicamente acumularam sozinhos a maioria da riqueza nacional.

O governo Chávez não representa uma mudança de paradigma ou de orientação fundamental que possa ser considerado um redirecionamento a uma nova ordem social, política e econômica, mas sem dúvida representa um governo dos setores insurgentes da Venezuela. Não é possível analisar a situação do país sem mergulhar em uma leitura dinâmica daquela realidade, ou sem termos em mente a categoria “contradição”.

Com a participação dos movimentos sociais, tensionamento sistêmico e organizado do povo venezuelano, bem como dos setores organizados, foi possível garantir avanços no que diz respeito à participação democrática, aos instrumentos de participação popular (individual e coletiva), além de baixa significativa nos índices de pobreza, de superação do analfabetismo e de ruptura com os monopólios da mídia local. Todos esses avanços indicaram a formação de uma contra hegemonia com claras contradições, e que impactou em melhorias reais para a população.

A proposta do Socialismo do Século XXI, mesmo que não represente o conteúdo real da proposta socialista, faz alusão a um modelo de enfrentamento com as elites locais e pode ser capaz de despertar importantes setores sociais em toda a América Latina. Uma perspectiva insurgente que gera a repulsa da direita tradicional e dos países centrais do capitalismo. Mesmo que esta proposta apresente claros limites de superação de um modelo fundamentalmente constituído por uma contradição de classe estrutural, que não é combatida pela política chavista.

No entanto, há também ponderações necessárias, entre elas, sobre o possível excesso de personalismo praticado. O que será da Venezuela sem Chávez? O que é de fato do povo e o que é de Chávez? Estas perguntas não possuem respostas fáceis ou lineares, mas precisam de uma profunda reflexão que passa por erros e acertos nos quais a esquerda precisa se debruçar no próximo período.

O combate simbólico ao perfil imperialista da atuação dos Estados Unidos da América foi marca registrada deste Governo, tendo sido uma importante voz contra as guerras promovidas no Iraque e Afeganistão, assim como a luta intransigente nos fóruns internacionais contra o embargo histórico imposto à Cuba.

Neste sentido, o apoio à posse de Hugo Chávez em outro momento, conforme decidiu o Tribunal Venezuelano, não significa negar ou omitir os problemas e até distorções existentes no regime comandado pelo PSUV, mas enfrentar mais uma tentativa golpista das elites internacionais de impedir a continuidade de um projeto legitimamente escolhido pelo povo.

Por outro lado, a esquerda precisa apresentar um programa para que a Venezuela possa avançar na garantia dos direitos e na melhoria das condições de seu povo, além de aprofundar o enfrentamento aos setores que oprimem e se retroalimentam das desigualdades sociais, bem como das péssimas condições ainda existentes naquele país. A estagnação aparente do regime e as dificuldades do PSUV em receber críticas têm fortalecido estes setores conservadores.

Nesta perspectiva o ódio presente na fala dos articulistas de grandes mídias brasileiras precisam ser explicitados mais como uma nova tentativa de retomar o poder na Venezuela de forma autoritária, fugindo das escolhas democráticas da população. A TV Globo e Jornais como a Folha de São Paulo, Estadão e outros perdem o senso do ridículo nas coberturas folclóricas e caricatas sobre o tema.

O reconhecimento da eleição de Hugo Chávez como Presidente da Venezuela, de sua história e conexão com as importantes transformações ocorridas naquele país, devem nos alimentar na defesa de sua posse e no repúdio a qualquer golpe patrocinado pela direita internacional.

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