10 anos de governo petista: a Veja ganhou

Por Edemilson Paraná

Publico abaixo o excelente texto do amigo e companheiro de militância, o cientista social Eduardo D’Albergaria que, em análise criteriosa, demonstra no que se transformou a disputa interna dentro do Partido dos Trabalhadores após de 10 anos no poder. Elucidativo e didático, o texto demonstra porque domar um partido internamente é o primeiro passo para transformá-lo, de vez, em instrumento a serviço do “andar de cima”, nas palavras do autor.

Se, como disse certa vez o comunista italiano Antonio Gramsci, “escrever a história de um partido significa escrever a história geral de um país”, esse figura como um texto fundamental para entender o PT de hoje e de ontem e, com isso, a conjuntura que se impõe – como problema ou oportunidade – para toda a esquerda brasileira. Boa leitura.

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10 anos de governo petista: a Veja ganhou

Por Eduardo D’Albergaria

Uma semana antes da eleição de 2002, que colocou Lula na Presidência da República, a revista Veja dedicou uma edição especial à disputa interna do PT e aos rumos do futuro governo sob o título: “O que querem os Radicais do PT”.

Mais do que uma análise despreocupada das relações internas do partido, a Revista apresentava uma agenda de disputa que as grandes corporações fariam do futuro Governo, e vislumbrava, corretamente, que para isso teria que incidir na disputa interna do PT.

A mídia empresarial tinha muito poder para influenciar nessa disputa: em um partido anticapitalista amplo (o que o PT era nessa época), a disputa interna é feita não só nas instancias partidárias, mas, sobretudo, na sociedade. Uma matéria deste tipo, na maior revista semanal brasileira – na época com alguma credibilidade – e com outdoors distribuídos por todas as cidades do país – com essa capa da revista -, era uma tremenda demonstração de força.

Na primeira matéria da revista, com o título “Transição na Crise“, a Veja coloca o futuro presidente contra a parede: “cada passo da transição será vigiado pela implacável disciplina do Mercado”. E segue com uma explicação para a evasão de capitais que acontecia naquele momento no Brasil – também retratada em diversas outras matérias da mesma revista: “a instabilidade que se observa no Brasil foi provocada pela combinação de fatores de risco. Entre eles, figura o temor de um Governo Lula.”

A revista dá seu receituário para enfrentar a crise: o Governo Lula precisaria se mostrar submisso aos interesses do Capital Financeiro. Como exemplo de “bom comportamento” a revista cita o encontro da cúpula petista com o presidente da FIESP e o da Bovespa, em que foi assinado um documento no qual o PT passava a considerar “as bolsas de valores como parte das forças produtivas”.

Veja vai além e orienta que a cúpula petista isole os setores à esquerda do partido que poderiam se insurgir contra a submissão do PT à agenda do mercado. Como sentencia a segunda matéria da série: “Vai ser preciso segurar“:

“Ninguém acredita mais que o PT, caso seja eleito, indique radicais para os postos-chave da administração, como o Ministério da Fazenda ou a Presidência do Banco Central (curiosamente a revista sinaliza que já sabia inclusive que para esses postos seriam chamadas “pessoas sem ligação com o partido, até mesmo como recurso para acalmar o mercado”). (..) “O PT, pelo menos suas esferas de comando, não pretende entregar cargos vitais aos militantes entusiasmados com o jargão socialista predispostos a contrariar a linha política que o Governo adotar”.

E da um “conselho”: “caso siga essa conduta prudente, o partido, se chegar mesmo ao poder, estará cumprindo a expectativa de milhões dos novos simpatizantes que conquistou nesta eleição”. Um gancho para a matéria “nem todos que Lulam são PT”,em que a revista demonstra que o eleitorado de Lula é o dobro do eleitorado do partido. Ou seja, Lula e a cúpula partidária poderiam perder setores do PT, que ainda assim seu apoio popular estaria garantido com esse novo eleitorado de centro. Portanto Lula teria que escolher: mediar com a esquerda petista e ficar sob o cerco do mercado (e da mídia corporativa) ou optar pelo eleitorado de centro e reduzir a oposição do andar de cima.

A Revista prevê que parte da esquerda partidária poderia se calar frente às novas opções petistas, como já tinha feito durante as eleições para preservar a candidatura presidencial: “durante a campanha, Lula e José Dirceu disseram em conversas privadas que para contentar os radicais do partido, distribuíram entre eles cargos de segundo e terceiro escalão”. “Os radicais sem cargos eletivos, mas com competência especifica, serão aproveitados em ‘funções técnicas’, em que mesmo discordando ideologicamente das linhas gerais se submetem à orientação de cima. Com exceções, essa tem sido a regra geral na máquina do partido e nas administrações municipais e estaduais do PT. O partido calcula que cerca de 150 mil, ou metade dos militantes de carteirinha [filiados ao PT], já ocupem cargos nessas administrações. Pelo menos 50 mil pertencem a tendências revolucionárias e, segundo o partido, só expressam seu radicalismo nas eleições internas”.

E para os que se levantarem, a revista aconselha mão de ferro: “Os deputados radicais, asseguram petistas de alto coturno, serão enquadrados da mesma maneira que foram até agora. Um cacique petista assegurou na semana passada à Veja:’o PT fecha questão nas votações e quem ficar contra será submetido a um processo de expulsão’.” E lembra que tanto PSTU, quanto PCO já foram “expulsos” por não se submeterem à sua condição de minoria. E ameaça: as tendências de esquerda “sabem que se tornariam irrelevantes se expulsas do PT”.

A revista faz uma radiografia dos setores que precisavam ser isolados. Apresenta a esquerda petista como uma caricatura autoritária e de ideias anacrônicas, com direito a charge do cão de três cabeças da mitologia grega, Cérbero, com os rostos de Trotsky, Marx e Lenin salivando de raiva: “são pessoas que defendem a expropriação do patrimônio da grande burguesia, a estatização das empresas privatizadas e a censura à imprensa [??]. Sempre procurando relacionar a esquerda petista com as FARC – “guerrilha financiada pelo narcotráfico” – e o então já demonizado MST.

Induzem o eleitor a entender que a crítica aos limites da democracia representativa – cada vez mais evidentes – seria uma estratégia para depois da chegada ao poder suplantá-la por um modelo autoritário.

Ao menos, a Veja registra a posição de lideranças da então Democracia Socialista, demonstrando que a defesa da superação da democracia representativa apontava para um modelo de democracia mais radical e ampla. Heloísa Helena: “O Congresso Nacional ora se comporta como um balcão de negócios sujos, ora como um medíocre anexo do Palácio do Planalto. Não é por meio dele que o PT deveria governar, mas pela articulação das forças vivas da sociedade”; e Raul Pont: “se você aposta na democracia direta, se cria meios de organizar politicamente a população, pode conseguir muita coisa”. (É o que demonstra outra matéria da revista que trata da derrota do PT gaúcho para o governo estadual: “todos os indicadores sociais mudaram para melhor no Rio Grande do Sul”, governado pela esquerda petista, derrotada, segundo a revista, por confrontar os interesses do andar de cima ao negar isenção fiscal para a Ford – mais um recado para Lula!).

Na análise das correntes da esquerda petista, que a revista definiu como principais – Democracia socialista, Força Socialista, Articulação de Esquerda e O Trabalho -, chama atenção para a diferença de qualidade das formulações da então Democracia Socialista. Enquanto Força Socialista e Articulação de Esquerda apresentam como “Concepções” apenas um amontoado de bandeiras de luta (romper com FMI, suspender o pagamento da Dívida Externa,…), a Democracia Socialista apresentava uma estratégia política para superar o capitalismo: “no governo o PT deveria implementar um ‘programa de transição ao socialismo’. Isso implica desenvolver ‘formas de auto-organização popular’, como o orçamento participativo, as cooperativas e os assentamentos de trabalhadores rurais”. Essa falta de horizonte programático não se tratava de um equívoco da revista. De fato, das três maiores correntes da esquerda petista, a DS era a única que ancorava suas formulações numa perspectiva teórica e numa leitura política construída em estreita colaboração internacional. A solidez das formulações da então DS colocava ainda mais responsabilidade para que esta construísse uma alternativa à domesticação petista. Mas a revista, e os dirigentes do Campo Majoritário, estavam certos: a cooptação foi um instrumento poderoso para fazer a esquerda revolucionária se calar.

Sem dúvida a então senadora Heloísa Helena cumpriu um papel bastante positivo naquele momento . Em uma longa entrevista – em box da Matéria – com seu tom ácido, contundente e muitas vezes poético, fez uma diferenciação programática importante com o Campo Majoritário petista. Bastante diferente da Heloísa de anos depois, já no PSOL, quando a crítica moral ganhou mais peso do que a de projeto: “É impossível transformar um país de dimensões continentais como o Brasil sem romper com o modelo econômico existente”.

É curioso que a corrente O Trabalho, retratada como a mais à esquerda – inclusive centrando sua identidade política na polarização com o restante da esquerda partidária, especialmente a DS – não tenha saído do PT. E, diferente da DS e da AE, sua única dissidência, a Esquerda Marxista, também tenha ficado no partido.

Corretamente, a Veja avaliava que a esquerda partidária não teria mais como ganhar a disputa interna do PT: “os radicais do PT têm pouca margem de manobra no interior do partido. Desde 1995, essa ala vem sendo empurrada para uma posição marginal, graças às ações encabeçadas por Lula e José Dirceu para conquistar a hegemonia no partido”. E acerta na mosca: “a principal tacada nesse jogo foi a instituição do voto direto para eleger a cúpula partidária no começo de 2001″. Entenderam o obvio: que o Processo de Eleição Direta (PED) despolitizou o debate interno no PT “como poucos se dedicam em tempo integral à política, na hora de votar é natural que optem pelas lideranças mais famosas, em geral do Campo Majoritário”. (Haveriam ainda diversos outros elementos para se explicar porque o PED sepultou a disputa interna no PT).

É compreensível que, num primeiro momento, o temor por parte da então esquerda petista de perder espaço político e capacidade de influenciar a sociedade tenha provocado dúvidas e freou iniciativas de maior diferenciação com o grupo dominante no PT que pudessem levar a um racha ou expulsão.

Mas as medidas governamentais foram deixando claro, já nos primeiros anos, qual era o projeto hegemônico do Governo – que não poderia ser disputado por sua dinâmica interna: a eleição de Sarney demonstrava por qual aposta de governabilidade se optou; a nomeação de Meireles, o grau de subserviência ao capital financeiro; a reforma da previdência, o abandono de uma perspectiva reformista universal para se ampliar a privatização de direitos; a política agrária demonstrava que o Ministério do Desenvolvimento Agrário – na mão da esquerda petista – seria escanteado diante da aposta no agronegócio, demonstrada não só em termos orçamentários como na liberação dos transgênicos; a Lei de Falências confirmava que a Economia Solidária não seria um modelo alternativo de organização da economia, mas uma política pública marginal, subalterna aos interesses do grande capital, para “movimento social ver”; a expulsão de Heloísa Helena e dos/as 3 deputados/as federais que votaram contra a Reforma da Previdência mostrava o radicalismo com que a cúpula petista estava disposta em blindar o seu novo projeto.

Isso para ficar nas medidas tomadas nos primeiros anos de governo. Mas ainda assim, com tanta demonstração de qual o projeto executado, a esquerda partidária não rompeu com o Governo, com o PT, e nem sequer aqueceram a disputa pública de projeto.

E havia muito espaço para fazer a disputa pública de projeto: além de controlar 30% do partido, a esquerda partidária tinha, segundo a revista, 26 dos/as 91 deputados/as do partido, além de 2 Senadoras. Uma bancada que o PT não poderia abrir mão em sua atuação no Congresso, e que poderia fazer um tremendo estrago dentro e fora do Congresso.

Contraditoriamente, a opção pelo silencio significou não só a perda de influência na sociedade das ideias socialistas, como o próprio abandono dessas ideias. Permanecer no PT cobrava seu preço: para seguir tendo espaço nas instâncias de decisão do partido seria necessário, cada vez mais, jogar o mesmo jogo das filiações em massa – muitas vezes fisiológicas – para disputar o PED.

Hoje não cabe mais falar em esquerda petista. A Força Socialista saiu do PT; a Articulação de Esquerda – que teve uma pequena dissidência que também saiu do PT -rachou pela metade e hoje esta isolada no partido, já a DS – que teve 3 a 5 levas de militantes que saíram do PT – rompeu suas ligações com a IV Internacional (ausentando-se até mesmo do debate sobre sua tática para o Brasil) e recuou quilômetros em suas formulações programáticas, substituindo a “transição ao socialismo” por uma “transição ao pós-neoliberalismo” e hoje – em que afirmam ter o neoliberalismo sido derrotado no Brasil (em meio à privatização de aeroportos, dos hospitais universitários,…) – pela ideia “inovadora” de Revolução Democrática. Um rebaixamento que lhe permite uma aliança prioritária com os setores que a corrente historicamente identificou como os mais atrasados nos movimentos sociais: o PC do B na UNE e a Articulação na CUT.

Passados 10 anos é inegável que a agenda política apresentada e representada pela Veja em nome do“Mercado” foi vitoriosa: a maior parte da esquerda petista se calou, uma pequena parte se levantou e foi expulsa do partido – ou se desligou – e Lula, e o PT, puderam seguir de forma dócil a agenda do andar de cima, submetendo todos os avanços pontuais aos limites predeterminados pela governabilidade conservadora e pelo cerco midiático das corporações.

Eduardo d´Albergaria (Duda) é Cientista Social pela UFRJ, Especialista em Políticas Públicas do Ministério do Planejamento, assessor parlamentar do Mandato Chico Alencar, militante do ENLACE e da Direção Nacional do PSOL.

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atualmente é pesquisador-bolsista do CNPq.

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