Conexão BSB-RIO: B&D conhece Marcelo Freixo

“Um grande abraço a vocês de Brasília. Obrigado pela força. Hoje eu acho que a internet faz com essa campanha municipal tenha um perfil nacional. A gente tá recebendo muito apoio, muita ajuda – até de doações, mas principalmente de ideias, do programa, de incentivo. Eu acho que essa energia tornou um sonho municipal nacional e a gente espera contribuir para que todo o Brasil tenha uma campanha tão bonita quanto essa que a gente tá fazendo aqui” Marcelo Freixo.

 

É indiscutível o papel da campanha de Marcelo Freixo (PSOL) na renovação das esperanças da esquerda na construção de um nova política: aberta, criativa, renovadora e propositiva. Curiosos a respeito dessa nova experiência – que foi capaz de catapultar a esquerda socialista de seu gueto tradicional direto para uma das discussões de maior revelo nas eleições municipais de 2012, os integrantes do B&D foram até o Rio de Janeiro para conhecer de perto e engrossar o caldo. Contagiados, saímos de lá com a certeza de que o único jeito de combater o desencanto com a política é com mais política.

E esse novo modo de fazer política para estar pegando. Nessas eleições, o PSOL saltou de 6 vereadores eleitos em cinco capitais, em 2008, para 23 vereadores eleitos em onze capitais, agora: Rio de Janeiro (4), São Paulo (1), Belém (4), Fortaleza (2), Natal (2), Maceió (3), Salvador (1), Macapá (2), Goiânia (1), Porto Alegre (2), Florianópolis (1). Sinal de que há espaço de crescimento para uma alternativa de esquerda no Brasil. Que o movimento cresça e se fortaleça!

Publico abaixo ótimo texto de um dos coordenadores das campanhas de Marcelo Freixo e Renato Cinco no Rio de Janeiro, Eduardo Albergaria. Em uma análise profunda porém direta, ele nos conta o que é e como foi produzida a Primavera Carioca. 

O que é a primavera carioca?

*Por Eduardo D´Albergaria

A campanha eleitoral na cidade do Rio de janeiro tem despertado a atenção da esquerda em todo o Brasil. Muitos se perguntam o que a campanha de Marcelo Freixo tem de diferente. Como ela conseguiu tirar a esquerda radical de uma posição marginal para o centro da disputa de poder?

Algumas coisas são visíveis, mesmo para quem esta acompanhando de longe:

– Uma parcela expressiva do eleitorado carioca reconhece a trajetória de Marcelo Freixo como militante dos Direitos Humanos e Deputado Estadual . Sobretudo por sua coragem no enfrentamento das milícias – que se notabilizou pelo filme Tropa de Elite 2.

– Freixo é inegavelmente uma liderança carismática com capacidade de convencimento e de dialogar com os sonhos, revoltas e desejos de uma parcela considerável da população carioca.

– O PSOL, ao se apresentar como uma alternativa política de fôlego, se tornou a principal referencia para o voto de oposição ao atual prefeito. O Rio de Janeiro tem uma tradição oposicionista forte que costuma fortalecer as votações dos divergentes.

– Ser referencia de oposição significa ter o apoio daqueles/as que se indignam com os desvios éticos da atual gestão [nao é a toa que Otávio Leite PSDB elegeu Freixo como seu maior adversário nos debates. Sabe que o voto liberal e até conservador esta migrando para Freixo pela questão da ética na politica].

Por esses motivos Marcelo tem sido identificado pela midia corporativa como um novo Gabeira: uma candidatura  que se consolida nos setores médios e mais escolarizados. Eleitores que com sua maior capacidade de convencimento, conseguem “catapultar” o candidato para o segundo turno.

A própria candidatura de Paes também tem achado interessante identificar Freixo com Gabeira. O ex-candidato do Pv à prefeitura e ao Governo do Estado teve as suas candidaturas freiadas por uma caracterizacao de que ele seria o candidato da área nobre da cidade (zona Sul) e que por isso teria pouca preocuparacao com as áreas periféricas: zona oeste e norte. Por isso os setores que se colocam contra Freixo tentam identifica-lo com uma candidatura da elite contra os suburbanos que estariam sendo supostamente beneficiados pela atual gestão. O que nao se sustenta a partir de uma analise minimamente séria das propostas de Freixo e nem das prestações de contas de campanha no TSE: o andar de cima está jorrando rios de dinheiro na candidatura de Paes.

Mas o que diferenciaria a candidatura de Freixo da de Gabeira?

A começar por seu enraizamento social. O mandato do Freixo e sua candidatura a prefeito esta lastreada em dezenas de lutas desenvolvidas pelos movimentos sociais. Foi com essa pluralidade de atores que as propostas da campanha foram construídas, naquilo que tem sido chamado de “programa movimento”: um processo de construção coletiva em que as bandeiras históricas dos movimentos sociais convergem para a construção de um projeto de sociedade alternativo.

Ao dar voz a esse programa, e demonstrar sua diferença com o que vem sendo implementado no Rio de janeiro, Freixo se tornou a principal referencia para a esquerda social – militantes e/ou eleitores de esquerda. É simbólico o apoio recebido pelos “petistas com Freixo”, pelos brizolistas históricos, pela Consulta Popular, pelo PCR e, claro, pelo PCB. Quando uma alternativa se torna hegemônica na esquerda, é natural que ela “arraste” setores partidários e dos movimentos sociais. ” [não é à toa que tanto PSTU, quanto uma parte do PT, têm centrado suas criticas em Freixo – pouco preocupados com a disputa mais geral de projeto, e desesperados com a base social que estão perdendo]. Esse processo vigoroso tem sido capaz de atrair uma parcela importante da esquerda social que até agora não tinha rompido com o PT graças a um pragmatismo estreito: se tornaram reféns da lógica do “já que nao é fácil eleger o nosso projeto vou apoiar o menos pior” – que cada vez se torna “mais pior”. Esses setores ao verem que é sim possível construir uma alternativa coerente de esquerda embarcam na campanha de forma entusiasmada.

Também os chamados “movimentistas” – militantes que se traumatizaram com a adesão petista à ordem e passaram a priorizar exclusivamente a luta social – começaram a perceber que uma candidatura militante como Freixo é fundamental para a reconstrução dos movimentos sociais: pois alarga o imaginário político da população à esquerda e traz novas pessoas para a militância política.

Um conjunto de elementos: a coerência, o carisma do candidato, o sentimento oposicionista, o projeto contragemonico de fôlego têm empolgado uma nova geração para a política. Inicialmente a campanha começou com uma projeção de votos muito pequena na juventude de 16 a 24 anos- justamente a geração que alcançou sua maturidade policia já na decepção do PT e na maior vitoria do naoliberalismo: a consolidação da idéia de consumo como valor maior de felicidade. Essa geração tem se (re) encantado com a política e entrou de forma decidida na campanha. As últimas projeções de voto ja apontam um crescimento vertiginoso de expectativas de voto nessa faixa etária: de 7 para 18%, e depois 29% na última pesquisa.

Esse perfil militante é outro diferencial importante da campanha de Freixo: é um processo com enorme capacidade de mobilizar  as pessoas para atuar de forma volutária, sem esperar qualquer retorno imediato, mas porque estão convencidos que o projeto defendido é o melhor para a coletividade. A campanha tem se desafiado a dar organicidade para essa adesão voluntária: em mais da metade dos bairros da cidade existem Comitês com reuniões regulares, debates do “programa movimento”, apresentação das candidaturas a vereador e agendas de atividades. Além dos bairros há ainda comitês temáticos: LGBT, cultura, educação, saúde e nas universidades e escolas. Ou até mesmo a partir do local de trabalho, como na Fiocruz.

Os comitês tem sido centrais para que a campanha seja viva, criativa, politizada e com independência política. A começar pelo financiamento que se dá de forma individual ou em atividades de arrecadação como feijoadas, shows de artistas apoiadores e festas – que também servem de celebração de um sonho comum. (Afinal empresa não doa para campanhas eleitorais, elas investem!)

Mesmo as dimensões da campanha que nao tinham um perfil militante inicialmente foram contaminadas positivamente e tiveram que reorientar seu funcionamento (se fosse assim desde o início estaríamos ainda melhor!). Esse processo tem permitido que muita gente que se aproxima do Freixo, a partir até mesmo de uma ilusão mítica, se politize, questione coisas que até então entendiam como natural (Nada Deve Parecer Natural!) e comecem a viver um processo acelerado de mudança de visão de mundo. E é muito positivo que o próprio candidato convoque a população para a ação coletiva. A nossa experiência histórica demonstra que é fundamental uma figura carismática para colocar as maiorias sociais em movimento. No entanto, quando ficamos reféns de uma figura mítica, a esquerda perde seu potencial de contestação.

A primavera carioca tem sido capaz, dentro de suas limitações de formar uma geração em novos valores, da autoorganização, da ação coletiva, da imaginação inventiva….semeamos centelhas para os dias de amanha!

Uma campanha com essas características, com enorme espaço político em aberto, tem tido um rápido crescimento eleitoral. A pergunta que todos fazem é se ela será capaz de chegar ao segundo turno e ganhar as eleições. Tudo indica que por sua própria evolução teria plenas condições de alcançar esses objetivos. Mas é uma campanha – como todo projeto contrahegemonico – que ameaça muitos interesses: empresas de ônibus, milícias, construtoras, igrejas fundamentalistas, máfia do carnaval, FIFA, …por isso enfrenta oposição aberta da candidatura oficial, como também enfrenta uma campanha subterrânea nas redes sociais, mídias corporativas e nas ruas sobre os mais diferentes temas. E um dado muito positivo é de que Freixo nao tem fugido de debates polêmicos, que lhe possam tirar votos. Para resistir a essa pressão que vem de todos lados é fundamental construir uma massa critica na cidade: muita gente que esteja nos mais variados espaços da sociedade com entendimento de qual o projeto da candidatura e que se sintam em condições em defende-lo.

A forma como a militância tem se envolvido nos debates e polemicas (tantas vezes desonesta), vindas dos opositores a Freixo, tem sido um intenso processo de formação política. Portanto Freixo só terá condições de chegar ao segundo turno, quanto mais se intensificar o processo de organização dos comitês e a formação política de seus membros.

Ainda a se ver qual será o resultado das urnas, uma vitoria política já foi conquistada: a campanha de Freixo mostrou os caminhos para se reconstruir a esquerda socialista.

Vamos construir a Primavera Brasileira?

EDUARDO D´ALBERGARIA (DUDA) – Cientista Social, Especialista em Políticas Públicas do Ministério do Planejamento, militante da Cia Revolucionária do Triângulo Rosa e assessor parlamentar do Mandato Chico Alencar PSOL-RJ

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Sobre Edemilson Paraná

Edemilson Paraná é jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduado em Marketing e Comunicação Digital (IESB), mestre e doutorando em Sociologia pela UnB. Trabalhou como assessor de imprensa na Câmara dos Deputados, no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como repórter, cobriu política no Congresso Nacional para o portal UOL e Blog do Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo). Como freelancer, escreveu para a Mark Comunicação e para a revista Gestão Pública e Desenvolvimento. Atualmente é pesquisador-bolsista do CNPq.

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