Carlos Nelson Coutinho

Uma pequena homenagem!

Esta semana tive acesso a uma entrevista muito interessante com este filósofo marxista que tanto inspira a esquerda brasileira. Quando soube de sua morte na semana passada sofri por ter tido pouco acesso às suas brilhantes contribuições teóricas e análises políticas, mas, sem dúvida sua história e suas centenas de reflexões ainda devem inspirar muito a Universidade e as organizações de esquerda no mundo.
Sua trajetória começou no encantamento com a leitura de Lukács, mas foi com Gramsci e o aprofundamento em seus escritos que Carlos Nelson ficou internacionalmente conhecido. Em entrevista dada à Revista da Fundação Lauro Campos em 2009 ele relembra um pouco de sua trajetória e reforça algumas de suas principais avaliações teóricas e políticas. Este pequeno texto tem a pretensão apenas de relembrar com brevidade discussões que este teórico tão expressivo trouxe para reflexão.

“A democracia como valor universal”
Em 1979 que Carlos Nelson trouxe a discussão da importância da democracia como instrumento da esquerda. Em meio a uma crise do chamado “socialismo real”, ele reforça alguns pressupostos que até então para a esquerda representavam apenas a moral “burguesa”. Na entrevista ele reforça que “sem democracia não há socialismo – a experiência, aliás, demonstrou claramente -, mas também digo que o socialismo é condição da plena realização da democracia”. Coutinho revela nesta entrevista que seu artigo foi duramente criticado por questionar uma leitura “esquemática marxista-leninista”. Ele sempre buscou inovar e não o alinhamento automático com as formulações tradicionais da esquerda, um inovador revolucionário.

“Socialismo do século XXI”
Em suas falas sobre o tema ele afirmava que “está pouco definido o tipo de socialismo do século XXI que o Chavez pretende construir na Venezuela”, porém, via com muita simpatia as experiências em curso na Bolívia, Equador e Venezuela. “Não sei o caminho que isso seguirá, mas se isso der certo terá sido certamente uma experiência de um caminho democrático para uma nova ordem social”. Não parece que Carlos Nelson se empolgue tanto com a dinâmica política nestes países, mas o fato de sua avaliação sobre a esquerda no mundo ser bem pessimista faz com que aposte nesta alternativa real de transformação.
Ele lembra ainda que a experiência chilena, antes do golpe em 1970 poderia ter caminhado com grande êxito na América Latina e como referência internacional de transformação radical da ordem social, mas sofreu um ataque visceral do imperialismo em aliança com os conservadores locais.

“Transição para uma nova ordem social”
Carlos Nelson faz uma leitura com maior complexidade da ruptura que se atribui como necessária para o processo de transição para uma nova ordem social. “Eu não acredito mais numa ruptura, digamos, no dia X, na hora H. A ruptura mais como um processo, mas certamente haverá rupturas”. Ele dizia que era importante ter em mente que a eleição leva o partido ao governo e não necessariamente ao poder, e que chegar ao comando do governo não significa a possibilidade de exercer o efetivo poder. “Não é possível prever de que modo a transição vai ocorrer”.
Ele lembra que o Estado é fruto de um contrato entre o príncipe e o povo, e se uma parte rompe o contrato e outra está desobrigada. Ou seja, caso uma das partes rompa qualquer cláusula e um processo de crise se aprofunde sem dúvida, o uso da violência pode ser adotado pelos dois lados.

“Revolução Passiva e Contra-reforma”
São incríveis os conceitos analisados por Coutinho em Gramsci quando discute a existência de dois movimentos importantes: a revolução passiva e a contra-reforma. A revolução passiva seria um processo no qual há pressão dos de baixo, e as classes dominantes são obrigadas a fazer transformações pelo alto. Já as contra-reformas são feitas sem concessões aos de baixo, pois as pressões são menos consistentes. “Quer dizer, enquanto o período do Welfare State, o estado de bem estar social, foi certamente uma revolução passiva, o período neoliberal é, ao meu ver, uma contra reforma. Mas uma coisa interessante é o fato de que em ambos os casos se dão processos de transformismos”. Segundo ele, Gramsci dizia que nestes processos as classes dominantes articulam a cooptação de lideranças e até setores inteiros da classe trabalhadora. Carlos Nelson cita FHC e Lula como exemplos.

“A atual crise econômica”
Nesta entrevista, ele prefere não se aprofundar muito mas traz algumas reflexões que, sem dúvida, podem nos ajudar a analisar a profundidade desta crise e seus limites políticos. “Eu não creio que a saída desta crise seja uma saída revolucionária, transformadora, que nos leve ao socialismo. Aliás, Gramsci era muito claro em dizer que crises econômicas não necessariamente têm repercussões revolucionárias no terreno da política”. Ele é veemente em combater a ideologia amplamente difundida pelos setores dominantes de que o mercado deve regular tudo, de que é preciso privatizar tudo, de que o estado é ruim. “Algo vai mudar no mundo com esta crise”.

“A eleição de Obama”
Não há ilusões na análise de Coutinho sobre as eleições americanas, mas ele faz a reflexão sobre alguns elementos que não podem ser escanteados. “Eu, há muito tempo, vejo a eleição americana como uma coisa em que ganhe um ou ganhe outro vai ser uma coisa exatamente igual, como aliás tem sido na história dos últimos tempos nos Estados Unidos: uma disputa de poder que não envolve uma disputa de hegemonia e contra-hegemonia”.
No entanto, longe de acreditar que Obama reflete um processo de ruptura com o capitalismo, ele reconhece um papel simbólico e histórico nesta eleição. “Mas certamente há uma novidade nesse quadro da eleição americana. Quer dizer, um negro presidente da república, um negro apoiado maciçamente pelas minorias raciais e também pelos jovens, eu acho que isso pode representar o início (…) de uma nova etapa do capitalismo, menos contra-reformista do que a etapa vivida nos últimos 30, 40 anos. Ele lembrou uma velha dica de Gramsci nas análise políticas para dizer que não tem ilusões mas que é sempre bom ter esperança “pessimismo da inteligência e otimismo da vontade”.

“Reformas revolucionárias”
Talvez uma das mais polêmicas de suas teses estejam nesta parte do texto, a discussão sobre reformas e o papel histórico destas foi alvo de muito estudo do autor. Conhecido por condenar com veemência a experiência do socialismo real, fato este que o aproxima do trotskismo, as reflexões sobre reforma criam uma nova distância. “O que me fascina no Trotski, é precisamente o fato de que ele criticou duramente o que estava sendo feito na União Soviética e se manteve firmemente revolucionário e firmemente comunista”.
Carlos Nelson chama o processo ocorrido na experiência real de transição bloqueada, e não acredita que aquelas experiências tenham de fato alcançado o socialismo. “A ideia do reformismo revolucionário (…) é de que é possível na ordem capitalista, quando existem instituições democráticas, quando existe uma forte participação da sociedade civil, empreender um movimento de reformas que levem a rupturas revolucionárias. Não é que o reformismo revolucionário dispense as rupturas. É a possibilidade que as rupturas se dêem por meio de reformas profundas”. O autor defende o reformismo e acredita que o período de bem estar social não foi reformista o suficiente, por isso não provocou rupturas reais e enfrentamentos mais contundentes com o modelo capitalista.
Esta formulação do autor é, sem dúvida, umas das mais polêmicas e tem gerado intensos debates no campo da esquerda brasileira. Será possível construir um ambiente revolucionário com profundas reformas ou apenas um processo de ruptura anterior poderá desencadear uma transição real?

“O quadro político brasileiro atual”
Partindo de uma avaliação política de que há poucas possibilidades para a esquerda, o autor reforça o “pessimismo” em sua análise e caracteriza de muito difícil o período atual para a esquerda. “Ascensão do PT ao governo, os dois mandatos de Lula foram trágicos para a esquerda. A ditadura nos reprimiu, nos prendeu, nos torturou, obrigou muitos ao exílio, mas não desmoralizou a esquerda. E esses dois governos Lula – não só pelo escândalo do mensalão, mas pelo fato de que realizam políticas claramente a serviço do grande capital, mantêm uma hegemonia neoliberal – desmoralizaram a esquerda.”
Sem ir muito além, Carlos Nelson Coutinho, acredita que os dois Governos de Lula representaram a maior desmoralização histórica para a esquerda brasileira e na prática não resultaram em um projeto de transformação política real que se chocasse com a ordem social ou ao menos criasse enfrentamentos parciais.

“SOU UM COMUNISTA E PRETENDO MORRER COMUNISTA” 

A pretensão deste pequeno texto é celebrar o grande teórico e militante da esquerda socialista e democrática brasileira, que Carlos Nelson Coutinho foi. Sua história, sua extensa formulação teórica contribuíram e continuarão a influenciar o pensamento contemporâneo. Com divergências e convergências com os seus pontos de vista, não há dúvidas de sua grande importância. Toda a esquerda deve saudar a vida do grande Carlos Nelson!

Uma resposta em “Carlos Nelson Coutinho

  1. Caro Articulista,

    Vc estudou um pouquinho sobre o que foi o comunismo? Se vc estudou, vc é um assassino descarado! Caso não (o que é bem provável) é somente um garoto idiota como eu fui um dia. Atenciosamente, Francisco Nabuco de Almeida Barreto Neto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s