A importância da formação política para os movimentos sociais

Formação política em sentido amplo

Formação política, em sentido bastante amplo, é aquilo que nos forma para desempenhar a atividade política de modo cada vez mais eficaz em todas as suas dimensões, o que inclui não apenas a capacidade de compreender a realidade em múltiplos níveis, mas também a de atuar nela de modo concreto. Isso exige uma série de competências, de habilidades: como saber fazer trabalhos de mobilização, de articulação, de mediação e negociação, de agitação e propaganda, de formulação, etc. Formação política, portanto, não é apenas aprender a pensar, mas também aprender a fazer (e, no limite, essa distinção é falsa, pois pensar é fazer, e fazer é pensar).

Formação política em sentido estrito

Porém, é possível e útil entender formação política também num sentido mais específico, como aquilo que amplia nossa capacidade de atuar de modo conscientemente político. Quando participamos de um movimento social, por exemplo, podemos ter graus diversos de consciência sobre o projeto político a que servem nossas pautas e mobilizações, para além do que se apresenta como evidente nas disputas setoriais.

Empregamos “político”, aqui, basicamente como aquilo que diz respeito à organização da sociedade como um todo – aquilo que articula toda a polis, e não apenas uma de suas partes.

Para ficar mais claro, tomemos o exemplo de movimentos da área da educação. Digamos que estudantes e professores lutem por educação gratuita e por melhores salários, respectivamente. É possível que essas lutas sejam dadas simplesmente de acordo com interesses corporativos imediatos: os estudantes não querem pagar, os professores querem ganhar mais. Porém, é possível também que sejam compreendidas à luz de um projeto político: por que ter educação gratuita e professores mais bem remunerados seria importante não apenas para estudantes e professores, mas para a sociedade de modo geral?

As funções da formação política

Essa reflexão política consciente pode auxiliar o movimento, em primeiro lugar, a não se tornar vítima de sua miopia e corporativismo. Nesse sentido, é um exercício de alteridade, de enxergar e construir as pautas do movimento tendo em vista não apenas aquilo que afeta o seu setor de modo imediato, mas contemplando obstáculos e conseqüências em outras áreas. Exemplos: (i) será que a reivindicação de parte do movimento LGBTT por criminalizar a homofobia leva em conta a questão da seletividade de classe e raça (entre outras) do sistema penal, a sua estrutura montada para servir ao controle social e opressão de grupos dominados? (ii) o movimento estudantil defende a educação gratuita. Será que isso é mais justo do que exigir gratuidade apenas para os estudantes mais pobres, e não para todos? Por quê? A gratuidade e a não-gratuidade desempenhariam qual papel, e fariam sentido para quais projetos de educação e quais modelos de Estado e de política social? E, além disso, não existe educação “gratuita”, alguém paga a conta – será que a estrutura tributária mediante a qual o Estado a financia é adequada? (iii) os professores querem ganhar mais. A demanda para que ganhem X, Y ou Z, por meio das fontes de financiamento A, B e C, tenderia a beneficiar e prejudicar quais grupos sociais?

Já estamos passando à segunda função (umbilicalmente ligada à primeira) da formação política, que consiste não apenas em possibilitar que formulemos com visão mais ampla, mas que saibamos fazer a leitura estratégica das disputas, com clareza sobre quem são prováveis e potenciais aliados e adversários em cada uma delas, e qual o melhor caminho para desenvolvê-las. Se estudantes e professores são capazes de perceber que suas demandas, embora diferentes, estão a serviço de um mesmo projeto de educação, eles podem unir-se, fortalecendo ambas simultaneamente – e não simplesmente como uma espécie de relação clientelista (me apóia aqui, que eu te apóio lá), mas pela convicção de que a luta é uma só, se dá pelo mesmo projeto. Essa compreensão é fundamental para forjar alianças muito mais sólidas do que as de meras conveniências pontuais. Da mesma forma, se os movimentos de educação e de saúde – e de transporte, etc. – percebem que são aliados na defesa de políticas sociais universalistas e de uma reforma tributária para financiá-las de modo progressivo (isto é, que o Estado cobre mais impostos dos ricos, e não dos pobres), podem acumular forças por essa pauta, ou pela auditoria da dívida pública e redução dos seus juros, que consomem grande parte do orçamento da União.

Na pauta da redução dos juros, os movimentos podem encontrar como aliados, inclusive, segmentos do empresariado, talvez até do grande empresariado – apesar de que esses mesmos segmentos tenderão a ser adversários em outras reivindicações, como a da reforma tributária progressiva. Um dos grandes objetivos da formação política é ajudar militantes, movimentos sociais e organizações políticas a construírem visões estratégicas capazes de abarcarem essas complexidades inerentes ao projeto megalomaníaco de pensar e transformar a sociedade em seu conjunto. Não se trata apenas de pensar quais são as pautas mais importantes em abstrato, ou definir esquematicamente quem são aliados ou adversários nas disputas A ou B, mas de construir, à luz dessas variáveis todas, um caminho estratégico: por onde ir, como desenvolver as lutas na conjuntura colocada, o que priorizar, até que ponto recuar ou radicalizar em determinados movimentos e cenários contribui para que o projeto mais amplo de transformação social acumule forças e se realize ou não…

A formação política como práxis

Enfim, trata-se de uma construção a ser feita na práxis (= teoria e prática fundidas, basicamente) das lutas, é aí que nos formamos para ampliar nossa capacidade de atuação “conscientemente política” como militantes, movimentos e organizações, e não por meio da mera elaboração livresca. O estudo desempenha, sim, papel fundamental, mas, não mais do que a militância concreta na organização das lutas (e, de novo, o ideal é que isso se funda ao ponto de ser dificilmente separável uma coisa da outra).

Se tudo contribui para a formação política (mesmo tomada no sentido mais estrito), isso não significa que não seja útil desenvolvermos “atividades de formação política”, isto é, que tenham como objetivo principal responder a determinadas necessidades concretas de formação política. Outras atividades que não têm esse objetivo como prioritário podem realizá-lo ainda mais do que as “atividades de formação”: nós, do B&D, experimentamos um enorme ganho de formação quando participamos do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, por exemplo, ou do dia-a-dia de diversos movimentos. Porém, isso não dispensa a necessidade das “atividades de formação” – que, já em sua concepção e objetivos, devem ser construídas a partir do acúmulo de formação da militância em sua práxis cotidiana; e que devem incorporar-se como parte dessa práxis, e não como uma instância externa nem superior (ou inferior) a ela.

3 respostas em “A importância da formação política para os movimentos sociais

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