Francisco Figueroa: Uma Nova Reforma Universitária para a América Latina

“Estou convencido de que se necessita de uma Nova Reforma Universitária. Destaco o ‘nova’ porque de nada serve repetir as bandeiras do reformismo do século XX, seria como uma gagueira na história, hoje as sociedades exigem outras coisas das universidades. Em primeiro lugar, reforma situada, ou seja, a partir da realidade e dos desafios das sociedades latino-americanas. Não a cópia dos modelos centrais, norte-americanos ou europeus, de universidade. A América Latina seguirá sendo uma região dependente, desigual e com forças conservadoras demasiado poderosas, se não reduzir a dependência dos países centrais, se não combater a concentração do conhecimento e da cultura, se não se comprometer com a formação de cidadania. Por isso, uma nova reforma deveria no mínimo providenciar um forte investimento e apoio à produção de conhecimento, existência de democracia nas instituições e fomento à participação das comunidades, para formar cidadãos comprometidos com a sociedade e não apenas com seus bolsos (esse espírito leva à destruição da sociedade), e um compromisso direto com a redução das desigualdades de classe, gênero e culturais. E em segundo lugar, uma reforma baseada na liberdade do conhecimento, que compreenda que todas as formas de propriedade privada sobre o conhecimento são hoje mais um obstáculo do que um incentivo para sua descoberta e desenvolvimento, como se pensou no século XIX e todo o século XX. A capacidade de inovar é a principal riqueza das sociedades, o que mais imprime valor a suas economias e cria mais possibilidades para seu desenvolvimento sustentável. O acesso ao conhecimento deve ser livre, para assim poder atualizá-lo, desenvolvê-lo e utilizá-lo em benefício das necessidades coletivas. E claro, uma reforma assim só é realizável com universidades devidamente sustentadas pela sociedade através dos Estados, não com uma educação superior fragmentada pelo mercado, marcada pelo imediatismo empresarial.”

Tradução livre de um trecho da entrevista concedida por Francisco (Pancho) Figueroa e publicada ontem no site da recém criada Fundação Nodo XXI, da qual ele é um dos diretores.

PS: Pancho é um dos mais destacados líderes do movimento estudantil chileno que, há mais de um ano, tem mobilizado o país para derrubar o modelo neoliberal de educação e de Estado herdado da ditadura de Pinochet, e mantido intocado, nas desigualdades estruturantes que cria e reproduz, durante os 20 anos de governo supostamente de centro-esquerda (?) da Concertación.

Vale a pena assistir ao debate abaixo, de que Pancho participou no ano passado, quando era vice-Presidente da Federação dos Estudantes da Universidade do Chile (FECH).

Argumentando sozinho pelo seu lado, contra dois debatedores (um figurão da Concertación, Sergio Bitar, e mais um economista neoliberal qualquer), Pancho leva seus oponentes na discussão ao exaspero, com seu sereno e agudo poder de crítica. Bitar, ex-Ministro de Salvador Allende (e também de Ricardo Lagos e Michelle Bachelet), tenta, por fim, esconder-se em seu distante passado de luta, e diz que não foi preso e exilado para ouvir lição de moral de “un niño” (fica a pergunta: foi preso e exilado pra depois vir a defender as injustiças do modelo socioeconômico daqueles aos quais resistia?). Pancho não se intimida com seu chilique e sua evocação do passado, e termina o debate externando desassombrada confiança na capacidade política de sua geração, que já despertou o Chile para os graves problemas inerentes ao modelo neoliberal, ser capaz de efetivamente transformá-lo:

“Lo positivo de todo esto es que estas indecencias que se han cometido con los estudiantes y sus familias ya no se van a poder seguir cometiendo después de esta movilización. Porque nuestra generación, porque este movimiento llegó a la politica para quedarse. Y eso es lo que profundamente irrita al ex-Ministro Bitar, porque ellos han tenido el monopólio de la politica, han estado acostumbrados a que solo les pidamos que por favor nos resuelvan los problemas. Eso va a dejar de suceder.”

Depois desse debate na CNN, o líder estudantil escreveu um artigo sobre o assunto: “Llegamos para quedarnos“, que pode ser lido aqui.

3 respostas em “Francisco Figueroa: Uma Nova Reforma Universitária para a América Latina

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