Universidade sem política. Faz sentido?

Grande parte da comunidade acadêmica não tem preocupação alguma com as eleições para a reitoria. Nenhuma. Mesmo. E, naturalmente, devemos nos perguntar por que isso acontece. É bem curioso que, às vezes, mesmo com uma abertura democrática, com a possibilidade de se escolher quem representa a universidade, as pessoas não se preocupam em se informar, em se engajar e, claro, em disputar o espaço público.

As razões são inúmeras, mas, grande parte parece se sentir repelido pela disputa política em razão da contaminação do espaço público. Contaminado por discursos surdos, costuras infrutíferas e estratégias oportunistas de alguns que vivem existencialmente a política.

Os professores, parece, pensam que a escolha do reitor e da política de ensino, pesquisa e extensão da Universidade afeta pouco sua atuação na Universidade. Os estudantes, felizes e contentes por não pagarem nada pelo seu ensino, por terem passado num vestibular difícil, por carregarem o status de estudarem numa Universidade pública, estão mais preocupados com o papel que recebem ao “fim” do curso do que em produzir soluções criativas para os problemas sociais.

Esse panorama, por si só, já demonstra o problema com o projeto universitário em voga. Dizer que a universidade pública tem função social é bonito, então todo mundo fala. Dizer que o ensino público deve ser gratuito e de qualidade também é “socialmente referenciado”, então todo mundo fala. Mas a estrutura da comunidade acadêmica não privilegia o engajamento, não busca a interação e, pior, não cria sentido de comunidade. Nós temos, hoje, grupos esparsos e personalistas com projetos que refletem sua “história pessoal”. Não há um projeto que abarque a importância da instituição e que supere a dicotomia público-privado para instaurar a lógica do comum, isto é, da comunidade.

Por isso, a mudança de postura é indispensável. Um projeto de universidade que questione sua função e a critique, perguntando até que ponto ela atinge seu objetivo, qual é e qual deve ser seu objetivo faz parte da própria ideologia de uma instituição que se entende como produtora de conhecimento. Afinal, é postulado da ciência (pós) moderna o questionamento de suas premissas constantemente. A irrefutabilidade está mais vinculada à religião do que a um suposto conhecimento objetivo.

De onde, então, podemos esperar que surja que seja construído um projeto claro e refutável? De onde essa mudança partirá? Dos professores que, supostamente, se preocupam com sua carreira acadêmica e com a produção do novo, do funcional, do estruturante? Dos estudantes? Esse grupo criticado pelo “pouco tempo” que passam na Universidade, pela “falta de experiência”, mas exaltado pela ousadia, crença em utopias e espírito destemido? Ou dos servidores que, em tese, se inserem na comunidade enquanto trabalhadores e técnicos que fazem o sistema realmente funcionar e, portanto, tanto entendem como tudo funciona de fato, como reconhecem as mazelas estruturais e estruturantes da instituição?

É claro que virá do trabalho conjunto entre esses atores. A paridade, mais que uma perspectiva de contabilização de votos, invoca a importância participativa de toda a comunidade de maneira igual. Mas é evidente que a formalidade da paridade precisa ser preenchida por participação e engajamento nos projetos defendidos.

E isso se dá porque a elaboração de um projeto consistente requer pressupostos, requer princípios, requer disputa, requer exposição. Em suma, requer política. Não no sentido despolitizante que se dá constantemente à política. Isto é, que entende a política como uma conversa de bar ou disputa entre torcidas. Fala-se, aqui, de política no sentido de embate público de forças e idéias, de desejos e solidariedade comum.

O engajamento da libido que nos envolve requer essa politização de um projeto. Não se engaja, nem se requer que outros se lancem sobre algo que não atrai, que não seduz. Esse projeto de desejos precisa ser social, por ser uma entidade pública, precisa ser discursivo por envolver embate e confronto de visões de mundo e precisa ser político por envolver relações de força e de processos que, em última instância, se vinculam no viver do dia-a-dia.

Despolitizar a Universidade, pois, é desengajar, é retirar a possibilidade de alocar desejos, é jogar no lixo a instituição. Não é na não-política que as pessoas se preocupam com as coisas, é na politização enquanto projeto de alocação de desejos que se cria preocupação, vínculo e disposição para tentar, inovar e buscar atingir finalidades comuns, comunitárias.

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