Banco Estrutural: alternativa econômica como práxis pedagógica transformadora

Depois da Oficina do B&D no ENECOM, em que os/as comunicadores/as se esforçaram enormemente em um processo criativo e imaginativo, saímos com algumas ideias, dum trabalho de compreender, em um texto de três parágrafos, o que era o Banco da Estrutural. Impossível para entender a complexidade do Banco, mas o suficiente para que as ideias surgissem, talvez extasiadas pela ideia de um Banco comunitário, cujos recursos advêm do juros cobrados, de projetos pautados pela Economia Solidária que são desenvolvidos pelo Banco e pela comunidade, por arrecadação de dinheiro entre os moradores/as da própria comunidade e doações*.

Com as ideias elaboradas na oficina em mãos, partimos (eu, Clarice e Camila) para a Estrutural com o objetivo de conhecer o quão transformadora e pedagógica pode ser a existência do Banco. Diego Nardi, companheiro da graduação da UnB, Érika e Solange, moradoras da comunidade e que estão tocando o barco do Banco receberam-nos amorosamente. Sentimos como aquela pequena casa, com a logo do Banco, é capaz de abrigar sonhos e desafios enormes de superação da lógica de dominação econômico-financeira, inacessível a boa parte da comunidade da cidade Estrutural. E este sonho pulula a todo instante. Não demorou para que aparecesse algum/a morador/a (aliás, esta é outra questão para o debate, mas fica para outro post: a maior parte das pessoas que procuram o Banco são mulheres) indagando-nos o que era “aquilo”.

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Bem, aquilo é um Banco solidário, com uma proposta radical pela simplicidade: fazer com que o crédito seja um elemento circulador da economia, chegando a quem precisa. Isso mesmo, a proposta do Banco é fazer com que pessoas excluídas do sistema financeiro (o Banco não consulta órgãos de “proteção” ao crédito, mas fazem uma avaliação na vizinhança para conhecer o vínculo do/a tomador/a com a comunidade e se é bom/boa pagador/a – veja mais aqui) tenham acesso a crédito, utilizando-o dentro da própria cidade, comprando em lojas parceiras e que oferecem desconto. Movimentar a riqueza da comunidade dentro de si mesma pode ser um passo transformador da lógica de consumo. Busca-se crédito porque a demanda pessoal é urgente ou necessária (veja aqui as linhas de crédito), a juros baixos e para ser movimentado internamente, dentro da própria Cidade.

Esta conquista (aliás, este é o nome da moeda social: Conquista) da comunidade da Cidade Estrutural, que partiu dela mesma em um processo de autoorganização e autogestão, para responder anseios comunitários é um processo pedagógico por excelência, que se dá enquanto práxis transformadora da realidade e do modo de enxergar o mundo. Se o Banco é comunitário, o benefício de sua existência é revertido em prol da comunidade (a pessoa tem sua demanda atendida com o dinheiro emprestado e possui desconto nos comércios locais, enquanto os/as comerciantes, em geral de pequeno porte, amenizam a concorrência predatória de organizações comerciais hegemônicas) e possui sua política de funcionamento ditado pela própria população, por meio das Assembleias do Fórum Maior (entenda novamente aqui). Diante disso, há uma abertura para reflexão crítica acerca do modelo financeiro que se adota. Daí, podemos nos indagar: a quem interessa ter, por exemplo, um Banco Público que mantém práticas trabalhistas predatórias (como há, por exemplo, denúncias contra o Banco do Brasil, por forçar que seus/suas trabalhadores/as tenham jornada ilegal de 8h diárias) ou um sistema financeiro excludente por um lado e que bate recordes mensais de lucro por outro?

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O Banco da Estrutural está em processo de construção, mas seus primeiros resultados são empolgantes. Repensar a forma de consumir crédito, as relações que um Banco desenvolve com a sociedade (em seu papel de incentivador de investimentos) e a própria essência do lucro máximo a um risco mínimo são contribuições que, de cara, esta iniciativa pode trazer. E quanto aos resultados emancipatórios políticos, sociais e econômicos que podemos alcançar, só a práxis da Conquista poderá nos dizer e que seguiremos acompanhando.

* A versão inicial do post falava em lucro como objetivo secundário do Banco, mas o querido companheiro Diego Nardi deu-me as contribuições agora levantadas, para superar a lógica do lucro, que se refere mormente a satisfação de interesses e desejos pessoais, sem foco necessário na manutenção e ampliação do próprio empreendimento.

Uma resposta em “Banco Estrutural: alternativa econômica como práxis pedagógica transformadora

  1. Muito bacana… existem experiencias como essa bem sucedidas na Asia. Se nao me engano existe um programa da ONU incentivando tal. Existe tambem uma forma alternativa de microcredito que coloca em contato financiadores ( voluntarios) e as pessoas que precisam de dinheiro para financiar um pequeno projeto. Para tal, uma plataforma coloca as os dados sobre a pessoa que demanda credito inclusive informacoes sobre o projeto na qual ela pretende investir. Financiadores ( benevoles) tem acesso a essa plataforma e escolhe financiar o projeto a juros predeterminados ou inexitentes.
    Essa experiencia tem sido bem sucedida rincipalmente com mulheres. Segundo os organizadores, elas tem maior disciplina na pagamento de seus emprestimos entre outrs coisas.
    Existem bancos cooperativos principalmente no Sul do Brasil como SICREDI, CRESOL mas apartir de um limite a cooperativa tem que seguir as regras do mercado para ser competitiva e garantir sua continuidade e essa utiliza-se do mesmo principios que um banco normal. Esse eh o problema.
    Por isso o microcredito cooperativo pode realmente resolver este problema delicado que sao os creditos e os juros brasileiro.

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