Rap é arte, cidadania e política

Mesmo sem qualquer inserção no imaginário popular, tivemos essa semana o Dia do Rap Nacional. Aliás, São Paulo teve. Nada aconteceu para o Rap ou para o movimento Hip-Hop de significativo no dia 6 de agosto. Foi um dia criado. No entanto, é um momento necessário pra se refletir. Não pude deixar de fazê-lo, pois o Rap foi e é importante na constituição do meu Eu. Como singela homenagem, deixo algumas provocações e reflexões pertinentes hoje na discussão conceitual e de movimento.

O que é o Rap? Ou Répi?

Em seu formato conceitual é a interação produtiva entre dois elementos constitutivos da cultura Hip-Hop: o MC(Mestre de cerimônia) e o DJ. No entanto é comum o entendimento simbólico do Rap como a figura do MC, também chamado rapper, especialmente pelas rimas de improviso sem acompanhamento do DJ, prática comum. O Rap é música falada com lágrima. Poesia de sangue. Não surgiu em lugar nenhum. Nem Bronx, nem Kingston. Mas está em todos os lugares. Improvisada ou não, é expressão.

Não gosto de pensar o Rap como Rap. Mas como parte de algo. Como o é. Parte de um conceito mais amplo do Hip-Hop. E tenho preocupações em buscar traduzir os significados sócio-culturais e políticos do Hip-Hop em uma linguagem distinta daquela própria do movimento. Movimento, aliás, muito preocupado com as minucias da linguagem e da estética. Poderia um processo linguístico exógeno explicar a cultura Hip-Hop?! Ou a cultura precisa apropriar-se de outras linguagens? Enfim, há de se refletir.

Assim, o Rap se estrutura como instrumento de comunicação das periferias: dos marginalizados dos processos capitalistas de distribuição dos bens materiais e simbólico(nessa dimensão, semelhante ao funk old school nos morros da capital fluminense). É sim linguagem e código. Construídos pra expressar subjetividades, articular intersubjetividades, forjar identidades e arquitetar cidadania fora do asfalto. Ou simplesmente mobilizar, dançar, gritar, sorrir. Não são variáveis mutuamente exclusivas: o entretenimento e o protesto.

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“Eu chamo o Hip-Hop de um recurso cultural. Recurso cultural no sentido de uma cultura de urgência, de morte, de exclusão social. Recurso cultural no sentido pleno da palavra” – Regina Novaes, Antropóloga

Os processos criativos do Rap sempre estiveram imersos em contextos de vulnerabilidade social, violências urbanas e tensionamento racial. Transformou-se assim, a cultura hip-hop, agregando-se o grafitti, em uma cultura de resistência com forte componente racial. Cultura que contrastava em sua estética e conteúdo com a cultura das classes médias brancas. As juventudes negras não se identificavam com o mundo social exposto na TV, com os códigos de comunicação mobilizados e nem com os valores que orientavam a prática educacional. Fez-se o Hip-Hop uma cultura globalizada, transnacional, que mobilizou todas as juventudes negras, primeiramente.

“Tamo ciente, o rap fez uma pá de pobre preto si vê como gente”
Realidade Cruel – Deus é do gueto

O forte discurso racial do Rap foi contestado no plano simbólico. Cada vez mais artistas brancos e pardos circulam na cultura. Países como França, EUA e Brasil tem a inserção progressiva de elementos pardos, brancos e de descendência arábe. E no plano social, discursos reivindicam um recorte apenas social ao Hip-Hop, em nome de uma “pauperização transversal” ou ainda a necessidade de ultrapassar a “racialização da sociedade” e afirmar a identidade Hip-Hop. No entanto há grande mobilização de reafirmação do Hip-Hop como autêntica cultura negra. O tensionamento racial, com um substrato material distinto, foi transplantado para dentro do movimento. Será?!

“Eu não sou preto, eu não sou branco, eu sou do rap, eu sou bem isso” Criolo – Ainda Há Tempo

E no Brasil, não seria diferente. De Afrika Bambaata a Nelson Triunfo e Dj Hum e Thaíde não se demorou. Inserido num contexto social específico de desigualdade aguda o Hip-Hop se disseminou e consolidou nas periferias de todo o Brasil, tornando o país referência de movimento. E desde então se operam conflitos de diversas dimensões. O racial e primeiramente a “mimetização do padrões culturais estrangeiros”.

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Inegável que houve a importação de estéticas e linguagens, especialmente estadunidenses que foram referencial primeiramente. No entanto, tendo a visualizá-lo como um movimento de confluência cultural, gestado em um espaço transnacional, que se estruturou com elementos próprios. A aproximação atual com imagens do que seria a cultura popular brasileira, sinaliza a tentativa de afirmação do Rap como música popular brasileira. O trabalho de Criolo, RAPadura Xique-Chico e Rappin Hood ilustram bem essa preocupação. O Hip-Hop brasileiro mostra assim sua multi-dimensionalidade discursiva. Ao mesmo tempo que se alinha aos discursos transnacionais de cultura mundializada se afirma como elemento identitário nacional. Somos Rap ou Répi?!

“- Mas quem é o Hip-hop brasileiro?
– É um cara que, antes de escrever o primeiro Rap, já era gestado no repente e a embolada com pandeiro. Antes de se atrever a entrar na primeira roda de break já era chacoalhado nas rodas de umbigada, da cogada, do jongo. Antes do primeiro footwork já ia me formando no passista de frevo, na dança chula gaúcha. Antes do primeiro traço com spray já estava misturado na tinta das pichações políticas contra a ditadura, na forma rústica da xilogravura nas capas dos livros de literatura de Cordel.”

Toni C. – O Hip-Hop está morto: A História do Hip-Hop no Brasil

Hoje, o Rap nacional vive uma conflito político. Uma nova escola de MC’s e DJ’s ganharam visibilidade em mídias até então estranhas ao movimento. O quê por um lado possibilitou, do ponto de vista político estratégico, um possível espaço para diálogo com o centro, mas também propiciou uma apropriação estética pelo mainstream cultural, processo bem ilustrado com o Rap estadunidense. O forte elemento identitário do Rap produziu, então, algumas ortodoxias, que por sua vez geraram fissuras no movimento. Fissura em um movimento já caracterizado pela sua difusão e insconstância organizacional.

Assim, vemos o aparecimento de clivangens discursivas: diversificação dos espaços de circulação (“mostrar a cara dos pretinho na TV, mano”, como diz Rappin Hood); dispersão de capital que poderia ser utilizado no fortalecimento e organização efetiva de movimento Hip-Hop e que seja um ator político de maior relevância; e esvaziamento do conteúdo político, significando a traição a formas tradicionais e legítimas do Rap, especificamente.

O fato é, há um cenário dado de abertura e amplificação e o Hip-Hop não pode se furtar a espaços de disputa política. Da sua auto-compreensão como grande instrumento político. Governos por exemplo, não podem, no Brasil, produzir política pública para a periferia sem dialogar ou ao menos equacionar a força do Hip-Hop em sua efetividade. Que seria se houvesse um movimento robusto e orgânico? Um movimento que soubesse conduzir os conflitos, reconstituir-se e desenhar estratégias de não esvaziamento da forma-arte Hip-Hop e da disputa política, seria um movimento social de muito mais força.

Compreensível o potencial conflitivo que abertura de canais de diálogos produzem. O Hip-Hop significa tudo para muitos sub-cidadãos. Perdê-lo, significa o esvaimento de vidas, a nadificação de centenas de milhares de sujeitos. Para o movimento é fundamental esse dimensionamento do seu próprio significado social. Uma hora é necessário sair da trincheira. Potencial de mobilização é o quê não falta.

PS.: uma ressalva para o senhor maestro Julio Medaglia que nega a qualidade de arte, de música, ao Rap. Que o põe como forma primitiva de expressão desprovida de talento. Nega o Rap e afirma a música branca e européia como clássica. É um discurso: elitista, preconceituoso, asséptico.

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