O individualismo entre vilania e tragédia individual

Sem querer banalizar tragédias, não há muita novidade no episódio de Aurora, em Colorado, EUA, no qual supostamente um jovem de 24 anos abriu fogo contra uma plateia de espectadores do filme Batman, o cavaleiro das trevas ressurge. Buscas por razões infindáveis, vida pregressa, perfil psicológico (se é que isso realmente existe) atormentam  investigadores do FBI em sua fastidiosa busca por possíveis razões, agravantes ou atenuantes de tamanha barbárie.

Mas que há de tão evocador em tragédias desse quilate, cada dia menos incomuns, é uma espécie de marca registrada desse perfil assassino: geralmente jovens, são pessoas para as quais a realidade descerrou tragédias pessoais, geralmente enveredadas por desprezo, conflitos familiares, bullying, traumas sexuais e outras sortes de decepções. Fosse isso suficiente para o imperioso julgamento de criminosos, essa vivacidade da causalidade psicológica não se perderia pelo excesso: afinal de contas, decepções e conflitos vivemos todos os seres humanos, essas criaturas multiplicadas às cifras dos bilhões, em diferentes doses e com diferentes percepções sobre o que nos significam. Estamos todos sujeitos a eventos de decepção, traumas e conflitos, afinal.

Certamente, a fuga pela violência é o extremo de desconstrução da realidade, ou construção de uma hiper-realidade (neste sentido, veja o artigo de Mauricio Colares, aqui). A narrativa da “vingança” como expurgo necessário do mal passado, que se faz presente para os atiradores, aparece muitas vezes em cartas, bilhetes, e relatos  como saída de “seus problemas”.

Ora, a vingança ali em cima está escrita entre os sinais gráficos de aspas exatamente porque, não raro, existe uma frágil identidade entre as memórias dos autores de tragédias e as vítimas delas. Não se tratam de vinganças voltadas exatamente contra quem, de alguma forma, contribuiu para provocar tragédias pessoais na vida pregressa de atiradores, mas pelo contrário, pessoas que possivelmente nunca os viram, nunca dirigiram uma palavra sequer a eles. Columbine, o atirador do cinema em Morumbi, o da escola em Realengo, e James Holmes apesar de terem calculado cada passo de suas ações, não tinham em mente abrir fogo contra conhecidos de quem pretendessem se vingar, mas contra pessoas que seriam, no meio de suas hiper-realidades, irremediáveis representantes da também irremediável humanidade. 

Esse falso sentimento de vingança, deletério, acusa uma incorreção das pessoas, enxergando em cada uma delas a origem do sofrimento que lhes foi causado, numa generalização absurda, para a qual não há vítimas ou inocentes, mas somente culpados, na mundivisão assassina.

É claro que o modo de sopesar históricos e reconstruir a tal hiper-realidade varia conforme o autor da tragédia. Contudo, é de se pensar que a avaliação irrefletida e exagerada que faz o autor de cada tragédia tem um fundo de correspondência com a realidade. E essa realidade é a de que o comportamento humano não é meramente natural ou adstrito à esfera exclusivamente individual ou subjetiva, mas seguramente construído socialmente.

Portanto, atitudes que demonstrem inveja, desprezo, cobiça, raiva, e tantos outros sentimentos somente acontecem porque vivemos na inafastável condição social. O modo como cada pessoa atuará nessa compreensão, valendo-se, seja de instintos autopreservacionistas, seja de cálculos objetivos para alcançar determinados fins, não pode ser tido como um mero “estado natural” ou puramente individual, mas decorre da lógica da vida em sociedade.

E, nesse sentido, a vida social contemporânea apresenta fortes problemas, senão sintomas de uma grave doença, que deturpa a condição humana objetiva de existência. Estruturam-se crenças de que a ação individual e a vontade sejam aquilo que mais concorre para conquistas virtualmente batizadas de “pessoais”: da casa própria ao cônjuge dos sonhos, do emprego à viagem tão esperada, do carro do ano ao cachorrinho felpudo. Dessa crença decorre um modo de encarar a vida como uma corrida: esbaforidos, os seres humanos correm atrás de sonhos projetados na concretude material, e é na mesma corrida que se enxergam uns aos outros como corredores, na virtualidade de uma disputa não sobre quem terá o primeiro lugar ou a maior fortuna do mundo, mas quem, afinal, conseguirá alcançar o prêmio projetado de felicidade.

Encarar a vida como uma disputa concorrencial, da qual o modo de produção social e material que vivemos – o capitalismo, este poderoso fratricídio, nas suas atuais feições – não é outra coisa senão a causa primeira desse modo de encarar a vida, de maneira concorrencial. Não pretendo resgatar uma teoria causal ou pueril da conduta humana, desviando meu olhar somente para o modo como as sociedades produzimos e atribuindo a ela toda a vilania das próprias condutas humanas. Contudo, ao mesmo tempo, não posso desviar a atenção minha e do leitor, imputando, num psicologismo reducionista, todo comportamento cruel aos matadores escandalados pelas mídias, como “doença mental”, “atribuição puramente subjetiva” ou algo equivalente.

Uma vida na qual se vislumbre uma corrida em busca de uma felicidade plástica e projetada produz corredores, ou lutadores, ou ainda batalhadores, que têm a sensação de estarem na frente ou atrás de outros, ou lutando uns contra os outros, ou de serem mais rápidos ou mais aptos que outros, enfim, de serem melhores ou piores que outros. Essa vida segue a lógica de ao vencedor, os louros. E, acompanhando esse mesmo raciocínio,  formas de sociabilidade as mais diversas, nas quais o desprezo, a inferiorização, a ridicularização e o bullying não raro aparecem. 

Nenhuma sociedade possuirá vencedores enquanto nelas persistirem pessoas famintas, doenças relacionadas a condições de vida subumanas, direitos de cidadania vendidos a preços de mercado, subsistências e não existências. E nenhuma sociedade que não consiga entender-se enquanto sociedade, firmada sob laços de cooperação e integração, solidariedade e irmandade entre seus membros, pode projetar-se permanente. O individualismo em seus excessos, o egoísmo disjuntivo, o segregacionismo anticoletivista legitimam a lógica social doente e empurram as pessoas em direção a tal lógica. Num contexto de pessoas ainda mais desagregadas, enfurnadas em apartamentos e casas cercados, no qual armas de fogos são de uso legal e instrumento de preservação de “conquistas pessoais”, sobre as quais nenhum competidor em desvantagem deverá ousar pousar suas mãos, não fica muito difícil realizar empreitadas como a de James Holmes.

A vida desagregada não é um enredo hollywoodiano, em que Bruce Wayne, um milionário dândi, solitário em sua dupla identidade de ricaço e salvador da corrupta Babilônia de Gotham City, constrói-se como bom em meio a uma plêiade de inimigos, vilões de caráteres jogados no lixo. Os seres humanos, muito menos que cercados de inimigos que queiram ver o fracasso da coletividade e que nos façam enxergarmos a nós mesmos como bons moços ou heróis de qualquer enredo, estamos e devemos estar (numa acepção cambiante entre ontologia e deontologia), num ambiente em que a cooperação, as formas associativas, a agregação em torno de um bem comum, e não individual, prevaleçam. 

Quer isto dizer que há, quando muito, um mínimo de pessoalidade em cada louro ou mérito pessoal, da mesma forma que há um mínimo de pessoalidade em cada drama ou tragédia pessoal. Para cada um deles, concorrem fatores objetivamente concluídos ou em vias de conclusão na vida societal, nos universos de cada comunidade em que o sujeito se insira, seja ela profissional, escolar, acadêmica, afetiva.

Talvez pareça mais cômodo, realmente mais fácil, a preferência pela individualidade. Não sei dizer ao leitor. O silêncio, a indiferença sobre a alteridade, a inércia por “cuidar de sua própria vida” e cada um que se ajeite no que essa tal vida lhe ofereça. Contudo, a facilidade com que temos em conduzir nossas existências nesses termos também implica a facilidade com que franco atiradores abram fogo contra plateias. O sentimento de desidentificação que carregam os segundos, de desconsideração pela vida de outras pessoas que também são seres humanos, por mais execrável e extremado que seja, guarda relação com o primeiro. Ambos, guardadas as proporções, são modos de se desentender na coletividade, cortar laços possíveis, negar a existência do outro e entender sua própria existência como única que importa, e nada mais.

Se podemos apontar algum caminho, que seja o do esforço. O esforço por entender-nos em comunidade. O esforço por valorizar nossas diferenças. O esforço por, mesmo diferentes, entender-nos iguais. O esforço por saber que cada “conquista” feita não é um resultado do jogo de ganha-perde, de uma corrida de ligeiros e retardatários, mas de condições objetivas que recebemos que nos permitem criar, inventar-nos, e, mais importante, que possam desembocar na solução de conflitos e desesperos alheios. O esforço contra o individualismo é aquele sorriso maroto, é aquele papo no intervalo, é aquela festa com os amigos e os amigos dos amigos, é aquela cervejinha depois do trabalho, é chamar o coleguinha sozinho no canto do pátio para brincar de pique, é um abraço coletivo esmagador, é uma piada bem contada, é uma roda de leitura ou de samba.

Talvez não seja tanto esforço assim…

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