Da festa à catarse: gays, cidadãos, e não meros consumidores

Aconteceu neste último domingo, 10 de junho, a décima sexta edição da Parada Gay na maior cidade da América do Sul, com estimativa de ter recebido mais de 3 milhões de participantes. Curioso notar que um dia antes da realização da Parada Gay, aconteceu a Caminhada de Lésbicas e Bissexuais. Diferenças identitárias, fragmentações e segregações do amplo espectro LGBTTT à parte, a manifestação a cada ano colore as ruas com irreverência, alegria e diversidade.

Entretanto, também a cada ano, a festa vai assumindo os contornos do processo de “festificação”, e menos o de reconhecimento de direitos. Esse processo fica claro quando se pensa haver uma marcha contra a homofobia, separada da Parada do Orgulho Gay.

O sucesso da parada parece, muitas vezes, seguir a lógica cadente da massificação que se acompanha no estágio atual de desenvolvimento do capitalismo: toda constituição agigantada em massas torna-se nicho poderoso de interesse de corporações. Patrocinadores, marcas e divulgações assediam e se apropriam, diariamente, do quotidiano, de vontades e desejos das pessoas agregadas em identidades e quantidades,  transformadas em “nichos de mercado” para esses olhos, e nada mais que isso.

Um processo avassalador que observa orientação sexual, religião e raça como meios para a finalidade de lucro; valorizá-los obedece uma razão de proporcionalidade: quanto mais valorizados os direitos desses grupos, maior a relação de autoestima que se completa no consumo de mercadorias e na confiança depositada nas corporações que os seduzem.

Não é difícil perceber essa lógica. Atualmente é de se observar uma preocupação permanente, da parte de empresas e governos com alguns setores médio-urbanos que recentemente alcançaram maior poder de compra e se encontram em expansão numérica. Não diferente são os setores organizados em torno de comunidades evangélicas neopentecostais, que vibram com a palavra de pastores inflamados e a crença num Deus onipotente que os salvará de suas condições miseráveis de existência, propagando e convidando colegas a tomarem assentos em bancos de igreja e eventos de grande magnitude. Todos esses setores sociais brasileiros constituem-se em poderosos nichos de mercado: os evangélicos neopentecostais doam parte de suas rendas a Igrejas em troca de uma promessa de salvação, os novos setores médio-urbanos doam enorme parte de seus salários, quando não eles todos, em troca de mercadorias ou financiamentos dessas mercadorias que conferem status em nossa sociedade.

O foco mercadológico das corporações, é claro, não está desatento ao gays. Aos gays do sexo masculino, especialmente, porque estes compõem possibilidades ainda maiores de consumo. Curiosamente, ao assumir características do sexo oposto para si, muitas das pessoas com variáveis orientações de gênero nascidas com o sexo masculino constroem no consumo, normalmente associado às mulheres como um forte identificador de hábito social, também uma prática identitária: homossexuais vaidosos, assíduos frequentadores de academias, spas, consumidores de marcas de grife de roupas, travestis consumidoras de maquiagem, roupas femininas, silicones e cirurgias plásticas, homossexuais afeminados, que misturam adereços e mercadorias masculinas e “queer”  e frequentam salões de beleza para compor sua identidade visual, não são raros.

É nesse mesmo mundo de excesso de mercadorias que apareceu, nos últimos anos, a figura chamada “metrossexual”: confundindo orientação sexual e comportamento de consumo, acabou se revelando numa categoria perdida, com uma sexualidade reduzida a pó e um hábito hipertrofiado de consumir mercadorias: antes de se relacionar com mulheres ou homens, antes de se pensar como mulher ou homem, o metrossexual é definido pelo carro Ferrari que tem, pelo vinho caro que bebe, pelo creme que usa e pelos óculos Prada que usa. A junção do vocábulos Metropolis e sexual, que deu origem ao termo, pouco ou nada tem de relação com sexualidade e tudo tem que ver com a vida nas grandes metrópoles industriais. Um homem cujo apetite por sexo foi substituído, ou ao menos ocultado, pelo apetite por compras e marcas caras.

Pois é nesse contexto que operam, cada vez mais, as categorias de mercantilização de direitos de cidadania: a apropriação de novas formas de interação social por empresas e produtos é feita diariamente. A tradicional família da sociedade capitalista, composta de pai, mãe e filhos cede lugar, cada dia mais, a grupos familiares não tradicionais, como os lares compostos por casais do mesmo sexo. Certamente, a campanha pelo reconhecimento de uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, e sua resposta institucional, pelo julgamento da ADIn no ano de 2011 pelo STF, representou um enorme avanço de reconhecimento de direitos dessas pessoas no Brasil, ao mesmo tempo em que incentivou oportunidades de investimento incomparáveis nesse novo modelo de agregação social: cruzeiros e viagens para casais gays, abertura de estabelecimentos comerciais chamados de “gays friendly”, onde são recebidos sem a guetização de locais exclusiva ou majoritariamente destinados ao público LGBTTT. Estes são exemplos dos processos que decorrem do reconhecimento de direitos de alguns grupos e de sua “equiparação” cidadã.

Eis o nosso problema. Qual a barreira invisível que separa cidadãos de não cidadãos, ou pelo menos aqueles que exercem sua cidadania de forma plena daqueles que sequer sabem que são titulares desses direitos de cidadania? Seria o acesso amplo a bens e mercadorias capazes de satisfazer suas necessidades e desejos?

Cidadania depende de duas práticas fundamentais. Reconhecimento e respeito. Objetivamente, a primeira é o passo inicial para a segunda. Não há respeito sem reconhecimento. Reconhecer a diversidade, aceitar a diferença, o outro em sua condição de diferente, e no exercício da tolerância, respeitar as escolhas, orientações, características e atributos da alteridade. Essa díade assegura a convivência social desarmada de conflitos.

Contudo, a receita que parece mágica aos primeiros olhares, de reconhecimento e respeito, foi absorvida por uma nuvem escura e confusa dos nossos tempos. Essa nuvem é a de uma sociedade simbólica que encontra na materialidade suas formas de distinção social e  reconhecimento. Cidades invisíveis que “convivem” com cidades que saltam aos olhos, como tem sido a realidade das grandes metrópoles brasileiras em seus processos de gentrificação: “aparecem” aos olhos os prédios altos, Higienópolis, Jurerê Internacional, e invisíveis restam as cracolândias, as periferias, os sem-teto e os mendigos maltrapilhos do centro da cidade. Destacam-se as grandes marcas e fortunas, as mansões, os carrões e as “mulheres ricas”, em campanhas publicitárias e veiculação midiática, ocultam-se as donas marias do quotidiano, suas jornadas estafantes a tomar ônibus lotados e toda a miséria de suas vidas. O conflito, silente, invisível, descerra-se no drama diário que alguns jornais noticiam: criminalidade, vandalismo, um espécie de alarme da periferia, que intenta mostrar: “ei, estou aqui”.

Reconhecimento na sociedade de consumo parece estar relacionado muito mais a construir-se conforme as mercadorias por que se pode pagar, exibindo-as como adereços em um verdadeiro desfile, do que efetivamente entender-se sujeito de direitos e exigir tratamento compatível com sua diferença. Entender-se igual na diferença, e com necessidades diferentes, nem por isso menos cidadão que qualquer outra pessoa.

O excesso do consumo oculta, em contraste a todas as quinquilharias que expõe, a identidade dos cidadãos e, consequentemente, seus direitos. O Brasil ainda vive um triste cenário de homofobia, que expõe números assustadores: em média, um homossexual morre assassinado a cada dois dias, um dia e meio. Os dados do Grupo Gay da Bahia e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República ainda não nos revelam a que classes sociais pertencem essas vítimas. Mas é muito possivel que uma parte significativa delas seja de pessoas de baixa renda, com algum histórico de prostituição, desamparadas por políticas públicas de reconhecimento, educação e proteção, políticas essas que ainda engatinham no Brasil. E se assim forem, que visibilidade é que têm em uma sociedade onde esses números ainda são subdimensionados, exatamente por sobrarem ocorrências não registradas de crimes de intolerância contra essa parcela da sociedade?

O efeito de três milhões de pessoas nas ruas de São Paulo é poderoso. São 3 milhões de vozes que cantam, pulam e trazem à tona a necessidade de se reconhecer a diferença: a humanidade não somos pretos e brancos e ponto final, homens e mulheres heterossexuais e basta. 3 milhões que podem exigir de parlamentares, fazer pressão no Congresso, pelo reconhecimento de suas uniões como unidades familiares, ou pela implemetação de KIts anti-homofobia nas escolas. Mas para além da diversidade, é necessário encarar a Parada Gay não somente como uma festa ou evento turístico, do qual se apropriam toda sorte de marcas e empresas interessados em nicho de mercado. Muito mais que isso, a Parada agrega pessoas que precisam lutar, diariamente, pelo reconhecimento de serem diferentes. Ou melhor, de serem o que são. E pelo respeito de tod@s. Sem a catarse provocada pelo excesso de mercadorias e compras. E sem medo de ser feliz.

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