Marchamos, marchemos e marcharemos.

As marchas tratam de uma intrépida construção. O que pode parecer, à primeira vista, aos olhos de desapegados, alheios e quejandos, um bando de gente gritando, sacodindo cartazes ou fazendo festa. Uma das críticas que oportuna, senão dolorosamente bate na ponta do nariz das esquerdas out-of-closet em tempos de identidades efêmeras, plásticas e líquidas. Dizem as línguas maledicentes, esquerda festiva.

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Não. Não é mera festa. E se for, que se festeje uma coisa: a mudança. Nem só de sobriedade e luta política vivem as esquerdas. É preciso, afinal, brindar e festejar as mudanças que representem efetivas conquistas.

Não estamos em tempos nos quais a ordem imperativa demolia exigências sociais, coletivas, organizadas. Nos quais liberdade resumia-se a estar conforme a normalidade. Nos quais o silêncio, a indiferença ou o medo encerravam-se em casa e fora dela, e tudo o que desafiasse essa atmosfera era colocado em porões escuros, expulso de sua terra, ou desaparecido.

Estamos num tempo de exigir. De considerar insuficiente o descompasso representativo: democracia não se encerra no banquete de senadores e deputados com empresários e oligarcas. A expressão desamparada da democracia sim, putrefata pela caminhada histórica que o modo de produção social engendrado pelo capitalismo tardio criou, ela sim perverte toda a complexidade das relações sociais: adstringe-se à roda de interesses de poucos, em votações compradas e lutas de marionetes, manipuladas por interesses que não estão difundidos em diferentes estratos de nossa sociedade, mas restritos a meia dúzia de ricaços prontos para construirem, pelo sagrado edifício jurídico, a deontologia que mais lhes convém.

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Tomemos alguns pouco exemplos: a discriminação racial, de gênero, orientação sexual ou com relação a pessoas com deficiência agigantam toda a truculência quando desveladas pela  impiedosa máquina da valorização humana na medida de sua acumulação de bens. Um preto pobre, um gay pobre, uma mulher pobre, um deficiente pobre certamente atravessam formas de discriminação e privação de direitos ainda maiores que aqueles para os quais a materialidade sorriu largamente, seja por sua herança pessoal, condições estruturais de acesso a direitos fundamentais ou o que quer que seja.

Muito óbvio, tudo bem, até aqui. Não menos óbvio, contudo, é a tendência de esvaziamento discursivo que podemos observar em algumas marchas. Não se fala apenas de liberdade de corpo e orientação sexual, como é o caso da marcha das vadias. Não está se falando apenas de liberdade para fumar seu cigarrinho de maconha, como é o caso da marcha da maconha, e menos ainda se fala apenas da liberdade de transar com alguém do mesmo sexo, ou construir-se identitariamente com elementos do sexo oposto, como é o caso das marchas contra a homofobia. Todas as marchas têm, ou ao menos devem ter como ação estratégica, a emancipação coletiva: nunca construída apenas com base em “meu direito”, mas como mensagem de conscientização, o outro goza de semelhantes e diferentes discriminações e privações de direitos. Por isso marcham juntos, com várias pessoas. Sua condição jamais é fadada à simples soma numérica, mas sobretudo à soma identitária: o ser igual na diferença.

Pois bem. “Esvaziamento discursivo”, ali em cima escrito, tem que ver com uma pouca expressão crítica, que seja cadente com a insanidade sabor látego da condição em que vivem alguns seres humanos. Estou falando, novamente, daqueles sobre os quais o duro custo de viver criou condições ainda piores de discriminação. Aqueles cuja existência cerca-se pela permanente regra de sobrevivência, para os quais sobreviver – e não viver! – tem o gosto ainda pior da discriminação. É óbvio que todo senso de emancipação passa pela condição de liberdade. Contudo, liberdade, em seu sentido mais libertário, não é uma fatalidade da igualdade sobre os povos. Isso precisa ser sempre e cada vez mais claro. Um cadeirante que tenha condições de comprar uma cadeira de rodas motorizada, uma mulher que tenha condições financeiras de realizar um aborto, (ainda que clandestino), um gay que possa pagar as festas a que vá ou as roupas que goste de usar, seguramente estão a alguns anos-luz de distância daqueles a quem a vida jamais ofereceu liberdade.

É preciso, portanto, encorpar as lutas. Entender que o recorte social de cada uma delas envolve injustiçados num nível desolador que não estão no front de cartazes, bandeiras, apitos e caminhadas. E não diz respeito apenas a uma classe média branca cool, endinheirada, envolvida com uma importante, porém ainda inicial luta. Essa crítica precisa conduzir as estratégias de atuação e discursos: respeito se conquista à medida em que todos, todos sem exclusão, o conquistam. É preciso, para tanto, reforçar uma agenda positiva, propositiva, de objetivos estratégicos: alterações de dispositivos legais, criação de políticas públicas inclusivas, ações afirmativas. Essa agenda, claro, não se esgota em um dia de marcha, mas precisa ser construída permanentemente pelos movimentos sociais que protagonizam as marchas.

Só eles? De maneira alguma! A inclusão de pessoas interessadas, que têm a coragem de se pintar, erguer cartazes, entoar hinos sem participarem de qualquer coletivo é necessária para esse processo de construção coletiva. A participação popular na elaboração de pautas coletivas precisa ser fortalecida pelos instrumentos participativos de condução e formulação de políticas públicas. E considerar a importância de cada um disposto a enxergar essa dinâmica, construir o debate,e dele participar, é fundamental.

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A luta é diária. Com as marchas, despertamos consciências. Construímos exigências. Abrimos os olhos para a alteridade. Refletimos a diferença. Convidamos para uma caminhada difícil, pelo respeito e por direitos iguais. Convidamos a participação em fileiras de emancipação: não se marcha pelo óbvio, contra aquilo dotado de carga objetivamente negativa, como é o caso da marcha contra a corrupção. Aliás, se me permitem dizer, não se marcha por uma bandeira negativa, contrária. É preciso construir alternativas, outros sensos, quebrar demiurgos sociais, exigir mudanças, um outro mundo, uma nova realidade, utopia das pessoas. A insatisfação cria exigências. Se marcha pela conquista, por agendas propositivas, pela inclusão do outro. Se marcha por direitos, por propostas, pela emancipação.

Pela conquista de uma democracia substancial, efetiva, de poder popular e participativo.

E por isso é que marchamos, convidamos a tod@s que marchemos e marcharemos enquanto for necessário.

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