(Feliz dia das mães) Maternidade como escolha

Por Laila Maia Galvão

Participei, recentemente, de uma cerimônia de colação de grau em que uma estudante fez o discurso de homenagem aos pais. O tom do discurso era de agradecimento. A forma pela qual a aluna dizia obrigada parecia focar o grande peso que é assumir a responsabilidade de ser mãe: falou-se em “sacrifício” e em “abrir mão” da juventude, da liberdade e dos sonhos para assumir a tarefa de ser mãe e viver única e exclusivamente em função de outro ser humano.

De outro lado, há por aí um discurso comum que enxerga a maternidade como algo divino, em que a mãe se torna uma espécie de Virgem Maria, um ser sagrado, intocável, que não comete erros.  Não é por outro motivo que a questão da depressão pós-parto ainda é um tabu em nossa sociedade, sendo a mulher que passa por isso considerada uma aberração por ser incapaz de assumir com serenidade a sagrada missão de ser mãe.

O discurso da “mãe santa” é o outro lado da moeda do discurso do “sacrifício”. As ideias que vinculam a maternidade a um trabalho hercúleo e penoso ou então a uma experiência divina e redentora tratam a maternidade como essa enorme carga que a mulher deve carregar por conta própria.

Acredito que a maternidade é, fundamentalmente, uma escolha da mulher. Se a maternidade é parte integrante do projeto de vida escolhido pela mulher, a ideia de que a mulher abre mão de sua própria vida para se dedicar integralmente ao filho passa a ser incoerente. Não estou a dizer que ser mãe não envolverá dedicação e desgastes.  Como qualquer decisão que tomamos durante a vida, haverá momentos de maior dificuldade. Não obstante, a mulher não precisa abrir mão de seus sonhos e de sua vida para ser mãe… ser mãe pode ser apenas mais um desses desejos e planos.

Quanto à divinização da maternidade, há séculos esse discurso foi utilizado para submeter a mulher a um certo papel social, restringindo sua autonomia.  A mulher era definida pela maternidade e a maternidade era uma obrigação da mulher. Por isso a atuação do movimento feminista em prol dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher foi e é tão relevante.  “Um filho se eu quiser, quando eu quiser!”.

Não deixo de achar que a maternidade tem um aspecto mágico. A relação mãe e filha ou mãe e filho, assim como ocorre em outras relações interpessoais [relação pai-filha(o),  por exemplo], tem a potencialidade de gerar vínculos afetivos profundos e únicos.  Todo o processo de criação de uma filha ou de um filho, envolvendo ou não a gestação, é maravilhoso nas suas imperfeições, por essa possibilidade de troca de experiências e de amor.

A mulher, autônoma para decidir seu projeto de vida, poderá optar pela maternidade no momento e do jeito como quiser. Se assim decidir, vai poder construir essa maternidade a seu modo: mãe depois dos 40, mãe “produção independente”, mãe adotiva, etc. Não há fórmulas prontas para os projetos de maternidade, assim como não há fórmulas prontas para os projetos de vida das mulheres.

Um feliz dia das mães para todas e todos.

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