Breve reflexão sobre Rio+20

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A conferência Rio+20 não gera expectativas. Nem da construção de uma metodologia dialógica que inclua atores sociais com compreensões distintas e populações mais atingidas com as injustiças ambientais como populações ribeirinhas, indígenas e camponesas; nem do desenho de uma agenda internacional propositiva que contenha alguma mudança real.

É um jogo de cartas marcadas. Os atores envolvidos nesse espaço são praticamente os mesmos que estiveram na Eco-92 e em Copenhagen. A estrutura programática que orienta as práticas nesse espaço permanece quase inalterada. Pouca ou quase nenhuma sensibilidade ecológica. Nenhuma vontade de aprofundar as discussões sobre as crises ecológicas e apontar alguns problemas e intervenções mais estruturais. E nada, que minimamente tangencie os problemas em sua raíz, foi construído. “Avanços” pontuais no debate do desenvolvimento de fontes não-fósseis de produção energética, legislações ambientais muito flexíveis e contornáveis e dispositivos mercadológicos que garantem ótimos lucros ao ecobusiness.

O espaço é rídigo, inflexível e nada permeável. Os atores e, como desdobramento, as proposições de agenda do Rio+20, estão alinhados com projetos conservadores e de desenvolvimentismo econômico. Nenhum governo, juntamente com os setores privados de interesse, está disposto a abrir mão de seus projetos de acúmulo, investimento e consumo, principalmente em um contexto específico de crises econômicas que desestruturaram as economias, para um projeto ecológico. Dessa maneira, como já dito, constroem instrumentos mercadológicos extremamente indesejáveis. A política de crédito de carbono por exemplo. É, não só ineficiente como maléfica. Não diminuiram as emissões de CO2 e foi responsável por, em determinada medida, gestar novas assimetrias, aprofundando os processos de injustiças ambientais e pressões políticas no conjunto de relações intergovernamentais.

Nesse contexto há um uma conjuntura de deslocamento na correlação de forças nos espaços de fórum mundial compartilhado. O escopo de recursos políticos se alargou e fora minimamente distribuidos, principalmente para o grupo dos chamados BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia e China). No entanto, assim como os atores decisórios tradicionais, nenhum desses parece disposto a inserir um discurso alternativo, ou algum elemento propositivo de agenda. Eles também não querem abrir mão de seus projetos desenvolvimentistas e de seu bom crescimento econômico relativo por nada. O que o Brasil, por exemplo, teria como base de discussão a oferecer nesse momento? Uma matriz energética supostamente limpa, baseada na cultura da cana e que gera distorções na produção alimentar?

A resposta nesse momento é fortalecer os espaços de fórum mundial alternativos, no caso, a Cúpula dos Povos. Produzir, através de extenso diálogo entre movimentos ecológicos e sociais em geral e as comunidades, uma agenda propositiva e consistente que se constitua, não só como arejamento do debate, mas como como alternativa discursiva e projeto desejável. Assim, também torna-se necessário a criação de instrumentos de visibilidade criativos das discussões, dos processos e da agendas, mediante o contexto de uma mídia comprometida co os projetos conservadores. É a criação a longo prazo de um projeto atrativo, que deve necessariamente apontar medidas estruturais que perpassam novas formas de organização econômica conjugada a novos valores e sensibilidades ecológicas no espaço público.

O filósofo francês Félix Guattari diz que há três ecologias, ou seja, três dimensões ecológicas no mundo: a ecologia ambiental, a ecologia da subjetividade e a ecologia do social. Dessa maneira ele opera o conceito de ecosofia, que consiste, basicamente, na articulação permanente das três dimensões. A produção das subjetividades e o conjunto de relações socioambientais deve estar conjugado a uma práxis de mudança e equilíbrio ecológico, que orienta sensibilidades desvencilhadas das práticas de mercado. Aí está um pequeno referencial teórico para que possamos pensar mais e melhor sobre o nosso futuro.

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