Um dia tão cinza

Por João Vitor Loureiro.

Para o Luiz Eduardo, por escritas menos quadradas. 

Estava ali. Silenciada no meio do caos urbano. Uma palavra que caísse em seus ouvidos poderia soar como cor em um dia tão cinza. Trambolhava papéis, lia notícias, via sua vida em rápidas postagens, curtas digitações, explosivas sensações.

Completava vinte e poucos anos, miúda, olhos grandes e cabeça inquieta. Observava todos aqueles carros que iam e vinham, e por vezes se encalacravam rua abaixo. Uma distância enorme entre os seres afogados em rotinas, silêncios e desconversas. Abraçava seus livros com cheiro de novo. E pensava…

Pensava: “cheguei a este mundo”. Devassado, devastado, curto, no qual a brevidade cabe na palma da mão; encerra-se em setenta e poucos anos de vida dessas criaturas bípedes. Cheguei a este mundo, em que produzir é um imperativo, e onde em espaços poucos assomam-se milhões de vontades e necessidades, cada vez mais distantes entre si, sem tempo para tomarem de assalto seus corações em cores, descobertas, sons e texturas. Exploravam seus sentidos como mercadorias: quanto mais sensação, mais caras.

E viu uma debilidade dócil diante do que chamaram mercado: a vida é assim. Exige isso. Foi ensinada, treinada nesses termos. Observava, com uma azia indecifrável, aquela pasmaceira que contaminava governos e poderosos: corrompiam-se por campanhas e financiamentos, jogavam no lixo bandeiras e vontades. Bastava o silêncio, a patifaria. E o lixo, esse era o vácuo dos sentimentos perdidos. Aterravam-nos com grandes camadas de terra. Lá despejavam toda sorte de ultrapasso, velharia, descompasso social: desde máquinas a mercadorias outrora caras, aduladoras de sentidos. Aterravam diferentes, menores, ignóbeis, desajustados, insatisfeitos.

Voltou a abraçar seu livro. Enxergava todo o excesso de micro-poderes, micro-ameaças, microfísicas, micro-homens e micro-verdades nas páginas incessantemente viradas. Sentia-se idiota por ver, por outro lado, quanto de grandes acordos haviam sido feitos, quanta meia-verdade prevalecia: os bípedes acordavam quantas horas iriam trabalhar, quanto dinheiro iriam ganhar por isso, quanto custava sua saúde, sua educação, seu teto onde estariam abrigados do vento, da chuva e dos “aterrados do lixo”. Acordavam que roupa iriam usar, que barriga, seios e peitoral iriam ter, que aos dezoito anos teriam uma carteira, um carro e algumas possibilidades. Que suas vidas dependiam de sucesso. E que sucesso era diretamente proporcional a esforço pessoal e mérito.

O silêncio a perturbava, tornava seus olhos ainda mais arregalados. Estava ali, naquele apartamentinho abafado no centro da cidade, engolida pelo barulho quotidiano e ainda assim, afogada em silêncio e solidão. Tinha seu livro, ao menos…Um livro…Que lia, afinal? Muitas páginas, muitas palavras, algum sono, várias pausas e reflexões. Voltou à contracapa: “a grande ilusão”. Diziam que era um best-seller. Foi-se dando conta que era um grande engodo, isso sim.

Foi-se dando conta também de que vinte anos passaram, e ela via isso tudo acontecendo sem ter dito nada, expressado nada, escrito nada. Lia, pensava e tal. Apenas lhe ocorriam azias espasmóticas, dores de cabeça ou náuseas. Incomodava-se com o gigantismo e o excesso maquinado de uma vida tão desumana. Preocupou-se com o tempo em que se absorvia de atividades inteiramente inúteis para o que queria.

Voltou com uma velocidade impressionante seu pensamento ao lixo e tudo o que lá estava aterrado. Tudo sobre o que estava jogado uma porção de terra e quinquilharias. Havia amigas e amigos muito importantes e valiosos por lá: esperança, luta, sabedoria, criatividade, cafuné, abraço, ternura, crítica, todos esquecidos sob grossas camadas. E pensou que seus vinte e poucos anos foram outro engodo: tomava muitos medicamentos para que parecesse nova, inovadora até. Sua idade era muito mais antiga, mas foi confundida pelos bípedes, para que representasse o nov…O novo? O que? Por favor!!!! Essa palavra era uma espécie de confusão mental…O novo, o novo, o novo…E o velho ia sendo enterrado naquele lixão. Percebeu que havia esquecido seu próprio nome!

Seu nome! Como era? Não é possível que tenha sido tão desmemoriada.

Seu nome…

Não lembrava de si, afogada em leituras, algumas azias e dores! In-su-por-tá-vel. Decidiu ir ao lixo procurar seus amigos soterrados.

Começou a cavucar, e fundo, entre soluções, desesperos, choros e angústias…A terra e as quinquilharias eram intermináveis. Muitas. Mas não desistiria. Seus amigos haviam de estar ali embaixo, e vivos.

Aos poucos, depois de muito tempo cavucando, sentiu-se fraca. Mas continuou, mesmo com os braços dormentes. Começavam a surgir umas palavrinhas abafadas, bolhinhas de gás-palavra que brotavam do fundo…aos poucos, em meio àquelas frestas, podia ver cada um de suas amigas e amigos perdidos, clamando por serem resgatados. Subiam as palavrinhas feito metano do fundo, de forma muito rápida… “São” “Uço”, “Vo”, saíam da terra, abafadas e pouco ou nada decifráveis.

Foi quando lhe interrompeu um homem meio esquecido ali do lixão, muito bonito, porém surrado pelo tempo e profundamente maltrapilho. Via ansiedade nos olhos grandes daquela menina-mulher, a cavucar o monturo de cacarecos. Aproximou-se. Perguntou: Que foi, que desepero é esse? Que queres achar?

E ela: “Eu mesma. Esqueci meu nome”.

O homem: “Esqueceu? Poxa, isso deve ser horrível. Muito prazer, meu nome é Amor. Se puder ajudá-la em algo…

A moça: “como faço para remover esse lixo?”

“Não sei… Mas vejo que está muito nervosa. Quer um cigarro?”

Foi quando Amor chegou mais perto da moça, arrancou de seu bolso um cigarro esquecido e amassado. Colocou-lhe em sua boca. E acendeu um fósforo.

As palavrotas metano! As palavrotas metano! Correram feito doidos por ali. Meio que inútil:

Explodiu uma hecatombe de grande som, enorme, estrondoso, poderoso: REVOLUÇÃO!!!!!

Lembrou de seu nome, e o Amor, sobre esse tinha certeza de que era um velho conhecido…

O lixo deixou então de existir.

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