Em defesa de Novo Pinheirinho

por Danniel Gobbi

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Ceilândia, cujo nome e fundação remetem às iniciais C.E.I. – Campanha de Erradicação de Invasões – é uma região administrativa criada, em 1969, no extremo ocidental do Distrito Federal, fruto de uma política higienista e segregacionista, que objetivava manter as favelas em formação na Capital Federal bem afastadas do centro da cidade. As famílias que lá foram despejadas viviam sem qualquer garantia de propriedade e sem acesso a serviços básicos.

Desde a criação de Ceilândia, agravou-se severamente a especulação imobiliária no Distrito Federal. O elevado preço das casas, terrenos e alugueis no DF gera uma catástrofe humanitária sem precedentes na região ao excluir um enorme contingente de famílias do acesso ao direito básico da moradia digna.

Ontem, como já divulgado aqui no blog pelo militante Edemilson Paraná, cerca de 300 famílias de trabalhadores, que se desalojaram pelo alto preço de aluguel de barracos ou pela ação criminosa do poder público – que insiste em destruir as habitações precárias para jogar a população nas ruas – ocupou um terreno isolado em Ceilândia.

Em extrema insalubridade, as famílias acampadas dormem sobre o chão de areia e debaixo de lonas pretas que acumulam um calor insuportável, realizam suas necessidades diárias em buracos improvisados no chão e vivem sem o acesso a energia elétrica e a água encanada, reivindicando o direito de ali permanecer.

O poder público, diante da enorme tragédia pela qual passam as famílias com renda de até três salários mínimos no DF, tem a obrigação de garantir-lhes a integridade física e o direito a moradia digna. Assentar essas famílias em regiões sem infra-estrutura, deixando-lhes entregue à própria sorte, enquanto urbanizam a região central com belos parques e canteiros, é fazer uma política ativa de proliferação da subcidadania e da desigualdade. Expulsá-los de seu acampamento é uma política social facista que apenas agrava o problema que o próprio GDF criou com a escassez imobiliária e a inexistência de uma política habitacional para os mais pobres.

Ao derrubar o barraco de uam família, o GDF joga-os na rua à própria sorte, para, em seguida, escorraçar-lhes, porque na rua também não podem viver. Não compreendem as nossas crianças, nossos idosos e trabalhadores que o GDF reservou-lhe imensos gigabytes para que existam num espaço virtual em uma conta de e-mail do Google, bem longe da nossa linda, rica, branca e limpa Brasília.

Sob a alegação de proteger o sagrado direito à propriedade, muito mais valioso do que a vida humana, a dignidade e a integridade dessas famílias, o Poder Público está protegendo o interesse dos especuladores imobiliários, em um claro atentado ao bem comum e aos valores coletivos essenciais à vida em sociedade.

Novo Pinheirinho surge, não da montagem de seus bambus e lonas, mas da militante esperança de um mundo melhor. Ele é fruto da força de trabalhadores e trabalhadoras que teimam em lutar pela sua sobrevivência. Lá está o bem mais valioso a ser protegido: a vida e a dignidade humana. Qualquer coisa que contra ele atente é o mais raso e inescrupuloso sintoma de desumanidade.

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Uma resposta em “Em defesa de Novo Pinheirinho

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