Que tempos são esses

Por Izadora Xavier

Essa é uma semana de pautas importantes no STF. Ontem, a Camila postou sobre o julgamento que o STF fará sobre anaencefalia. No dia seguinte a esse julgamento, o STF se reune de novo, para jugar o cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Araguaia.

Do mesmo jeito que no caso da anaencefalia, poderia recitar e referenciar diversas posições, que se reproduzirão na mídia e com as quais o B&D se alinha. Preferirei, no entanto, argumentar de outra forma. Argumentarei com uma homenagem.

Semana passada morreu a poeta e ensaísta Adrienne Rich. Lésbica, judia, Adrienne esteve na vanguarda da literatura e do movimento feminista a maior parte da sua vida. Seu ensaio mais famoso, Compulsory Heterossexuality and Lesbian Existence, é uma peça belíssima de crítica à heteronormatividade do movimento de mulheres. Famosa também foi sua recusa da medalha nacional das artes, maior prêmio artístico oferecido pelo governo dos Estados Unidos. Em uma carta à chefe do comitê de entrega do prêmio, Adrienne Rich escreveu: “a arte não significa nada se serve apenas para decorar a mesa do poder que a faz de refém”. Em 1974, ao ser declarada ganhadora do maior prêmio dos Estados Unidos para a literatura, o prêmio nacional do livro, ela recusou o prêmio apenas para si e subiu ao palco com duas das outras finalistas, as poetas negras Audre Lorde e Alice Walker. As três receberam o prêmio em nome de todas as mulheres.

Revendo seus poemas, semanda passada, deparei-me um que me comoveu particularmente. Ele me comoveu porque pareceu falar tanto à nossa realidade política atual, e à realidade que será julgada pelo STF nessa quinta-feira, apesar de ter como foco original uma realidade distinta. Essa capacidade simultânea para o específico e o universal, já disseram antes, é o que faz dos poetas grandes. Nesse caso, não há como defender com maior eloquência a grandeza de Adrienne Rich, nem melhor maneira de chamar o STF à sua responsabilidade no próximo dia 12. Deixo aqui uma tentativa de tradução, como homenagem à poeta e como argumento em favor da justiça e dos direitos humanos. Sobretudo, deixo como homenagem à poeta o uso do seu poema como arma de luta, como lírica da libertação, como reafirmação de que ela não será decoração nas mesas do poder.

Que tempos são esses

Por Adrienne Rich

Existe um lugar, entre grupos de árvores, onde a grama cresce subindo o morro

e o velho caminho revolucionário se desfaz em sombras

perto de uma casa abandonada pelos perseguidos

que desapareceram naquelas sombras.

Eu andei por ali, colhendo cogumelos, beirando o terror, mas não se engane

este não é um poema russo, este não é outro lugar senão aqui,

nosso país, movendo-se mais próximo das suas próprias verdades e terrores

das suas maneiras próprias de fazer desaparecerem as pessoas.

Não direi pra vocês onde é esse lugar, essa malha sombria de floresta

que encontra uma réstia indefinida de luz —

encruzilhadas assombradas, paraíso mofento:

Eu já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.

E se eu não digo onde é esse lugar, por que digo

qualquer coisa? Porque vocês ainda escutam, porque em tempos como esses

para que alguém ao menos escute, é necessário

falar de árvores.

(original:

What Kind of Times Are These

BY ADRIENNE RICH

There’s a place between two stands of trees where the grass grows uphill

and the old revolutionary road breaks off into shadows

near a meeting-house abandoned by the persecuted

who disappeared into those shadows.

I’ve walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don’t be fooled

this isn’t a Russian poem, this is not somewhere else but here,

our country moving closer to its own truth and dread,

its own ways of making people disappear.

I won’t tell you where the place is, the dark mesh of the woods

meeting the unmarked strip of light—

ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:

I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won’t tell you where it is, so why do I tell you

anything? Because you still listen, because in times like these

to have you listen at all, it’s necessary

to talk about trees.)

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3 respostas em “Que tempos são esses

  1. Fantástico o poema!
    Só sugiro uma alteraçãozinha na interpretação/tradução dele, para que o último verso seja “falar de árvores” apenas.

    Assim, a última frase do poema seria: “Porque vocês ainda escutam, porque em tempos como esses, para que alguém ao menos escute, é necessário falar de árvores.”

    Acho que essa leitura/tradução revela o quão mais incisivo é o poema.

  2. Pingback: Que tempos são esses « Da Planície

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