Ida e volta Brasília – La Paz, com escala no Rio de Janeiro

por Izadora Xavier

Fiz uma viagem, recentemente, à Bolívia. Assim que voltei, há um mês, as discussões e manifestações que vi me colocaram um pouco angustiada com alguns pontos da análise de conjuntura internacional que o B&D fez e publicou aqui.

No entanto, revendo minhas anotações hoje, vi que há um assunto mais premente para ser tratado, e que tem muito a ver com os desconfortos que senti durante a viagem.

Primeiro, um dos melhores momentos da viagem foi uma longa conversa que tive com um antropólogo aymará. Apesar de sua identificação étnica, ele se mostrava impressionado com o que seria uma nova “hegemonia aymará” na política boliviana. A redefinição da participação política no país, tão celebrada, estaria agora caminhando para barrar seu próprio aprofundamento. Apoiado pelo grupo cocaleiro, os chamados “indígenas de terras altas”, a cúpula da decisão política cada vez mais se fecha e se alinha às ideias de desenvolvimento “sustentável” que vemos em outras partes da América do Sul e, em especial, no Brasil. A própria ideia de “bem-viver”, celebrada pela constituição plurinacional, ele apontou, baseia-se numa concepção de mundo a qual não compartilham várias das outras etnias do país.

Assim como Belo Monte, muitos dos projetos de infraestrutura sendo avançados pelo governo de Evo Morales são retirados de diretrizes da década de 70, 80 – elaboradas por governos a que, teoricamente, o atual governo se opunha de forma fundamental.  Uma delas é a própria rodovia, objeto central da controvérsia do TIPNIS – um projeto de altíssimo impacto que é, ironicamente, justificado como necessário para ligar entre si alguns projetos de baixo impacto, entre pequenas comunidades indígenas “de terras baixas”.

Como eu disse no início do post, a ideia, no entanto, não é apontar os limites do plurancionalismo e do modelo de participação popular da Bolívia. De fato, ao revisitar as discussões que tive, o meu interesse se move para o futuro, ainda que um futuro bem próximo.

A principal frustração que vi no discurso de colegas que trabalham com cooperação internacional não era apenas a defesa de projetos e modelos com os quais elas discordam. A principal frustração era com o abondono do esforço de tentar imaginar e implementar modelos alternativos, que foi a marca dos primeiros momentos do governo, e impulsionou o processo da nova constituição do país.

Isso tem um significado especial que entendo como premente, quando estamos a menos de três meses da Rio +20.

A Rio +20 e, por consequência, todo o sistema multilateral relacionado a meio-ambiente e desenvolvimento, perde com a perda de capacidade imaginativa do governo boliviano. E não creio que ao dizer isso estou em absoluto superestimando o poder desse país no sistema internacional. Ao fazer essa afirmação, penso na atuação do Brasil na Eco 92 (a Rio -20). Mesmo tendo muito menos poder e importância no sistema internacional do que países europeus, naquele momento, naquele espaço, o Brasil foi bem-sucedido em propôr e conseguir adesões à ideia das “responsabilidades comuns mas diferenciadas”. Assim, estabeleceu quais as linhas e os limites do (direito ao) desenvolvimento e pautar políticas internacionais e nacionais sobre o tema. Na época, a questão era não impedir que o discurso do ambientalismo fosse distorcido de forma a reforçar a ordem econômica internacional assimétrica.

No atual momento, algum ator que faça o mesmo papel de, vindo da margem, angariar legitimidade para novos modelos, para diferentes formas de conceber sustentabilidade, é igualmente essencial. Se a Bolívia tivesse seguido os rumos definidos em Tiquipaya, haveria esperança ao menos de uma voz dissonante, em torno das quais a sociedade civil global e, quem sabe, outros governos, poderiam se organizar. Teríamos muito o que aprender com a Bolívia, se o país não estivesse aprendendo com o que estamos fazendo de mais errado. E o final do semestre está quase aí, em junho de 2012, para reprovar todo mundo.

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2 respostas em “Ida e volta Brasília – La Paz, com escala no Rio de Janeiro

  1. Iza, muito legal e importante o seu relato sobre a Bolívia. Porém, com relação à sua angústia com essa parte da análise de conjuntura, destaco que nós nos posicionamos de modo bastante crítico com relação ao governo. Destaco um trecho:” Não há nada novo, tampouco, no fato de o governo ter cedido a pressões de grupos empresariais para tomar medidas impopulares em nome de um ‘projeto de desenvolvimento’ (para quem?) ou do ‘equilíbrio econômico'”. A questão que ressaltamos, no entanto, é que a análise do processo social não se reduz à do governo, e apesar de o governo ter se alinhado com essa visão desenvolvimentista no caso TIPNIS, por exemplo, a mobilização social foi capaz de fazê-lo recuar, o que é algo que demonstra que o processo de mudança na Bolívia continua sendo muito especial no mundo e no continente (o que vemos no Brasil e pelo mundo é que normalmente, mesmo com multidões nas ruas, Acampadas, Occupy, marchas de centenas de milhares de pessoas nas ruas no Chile etc, os governos não cedem; então, há algo de diferenciado na Bolívia, e talvez também no governo em alguma medida, embora essa questão tenhamos deixado em aberto). O que de fato ficou ausente da nossa análise foi a contraposição entre indígenas de uma região e o de outra, o que de fato é uma variável analítica bastante importante.

    • Sim, João, você está certo. Acho que minha angústia está sobretudo, nesse momento, em perceber essa oportunidade perdida do governo, cada vez mais perdida algo que não tocamos tanto na análise. Sobretudo, é preciso tomar cuidado com a ideia de que houve, finalmente, recuo na questão do TIPNIS, tema que não está de maneira alguma encerrado. Acho que o processo político na Bolívia é algo de muito interesse pro grupo (e pra América do Sul), que precisamos estar acompanhando constantemente. Minha angústia deve ser resultado de algo por aí.

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