As pontes que isolam as ilhas

Por Laila Maia Galvão

Não é novidade estabelecer a conexão da palavra ilha às noções de fechamento, isolamento, restrição e segregação. Por outro lado, a palavra ponte também pode funcionar como metáfora para as ideias de conexão, abertura, interação e troca. As ilhas precisam de pontes para estar ligadas ao restante do mundo e para diminuir a distância que as separam daquilo que existe ao seu redor.

As cidades brasileiras em geral reproduzem em seu desenho urbano a desigualdade socioeconômica de suas populações. Nessas cidades, criam-se bolhas de riqueza circundadas por bairros de infraestrutura precária.

Brasília, apelidada de ilha da fantasia, com seu plano piloto planejado, possui um dos custos de vida mais altos do Brasil. Ao redor de Brasília, a quilômetros de distância da visão de seus moradores, está localizado o entorno, uma das áreas mais violentas e pobres do Brasil. Em Florianópolis, carinhosamente chamada de ilha da magia, há belas praias, hotéis de luxo, baladas internacionais. Para quem fica do lado de lá, no continente, a história é um pouco diferente… o trajeto de ônibus para usufruir das maravilhas da ilha pode levar mais de duas horas(!).

Nessas cidades, a construção de pontes (literalmente e metaforicamente) é imprescindível. E justamente nessas cidades a construção dessas pontes se tornou problemática. Em Brasília, o governo Roriz foi acusado de desviar recursos da saúde pública do DF, que até hoje se encontra em crise profunda, para construir a superfaturada ponte Juscelino Kubitschek, conhecida também como terceira ponte. Poucos anos após a inauguração, a ponte já apresenta desníveis, oscilações e outros problemas de estrutura.

Em Florianópolis, a ponte Hercílio Luz, famoso cartão-postal da cidade, está interditada desde 1982. A partir de 2004, a ponte passou por obras de restauração, com obras orçadas em quantias que ultrapassam os 200 milhões. Há anos está impedida a passagem do cidadão. A previsão inicial é de que somente em 2014 as obras estarão concluídas, mas a prorrogação do prazo já é quase certa. Se não bastassem as obras milionárias e intermináveis, o Diário Catarinense publicou reportagem nessa semana informando que Santa Catarina conseguiu aprovar a maior verba da história da Lei Rouanet para a reforma da Ponte Hercílio Luz. Recursos que poderiam ser destinados a outros projetos culturais agora contribuem para o enorme bolo destinado às obras de uma ponte inoperante. Nada contra a restauração da ponte, que é um dos símbolos da cidade, mas é preciso avaliar de que forma isso será feito – em especial com quais recursos – e como se dará a utilização da ponte após as obras. Uma ponte que não funciona como travessia, pode favorecer ainda mais a segregação.

Dizem por aí que fazer política é derrubar muros e construir pontes. No entanto, as pontes superfaturadas, que desviam dinheiro da saúde e que retiram recursos da cultura, não promovem a integração, mas contribuem para a exclusão. Não são essas as pontes que queremos.

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