Sarkô na berlinda

Por João Vitor Loureiro

Eleições. Galope. Nicolas Sarkozy volta a sorrir diante da recente conquista de uma fatia das intenções de voto dos franceses e liderança em pesquisa eleitoral.

O sorriso de Nicolas tem um aliado indispensável: a sedução do eleitor indeciso – que sinceramente não sei se numericamente expressivo na política francesa – e do eleitor à direita da direita, que diante da inviabilidade da candidatura de Marine Le Pen, enxerga em Sarkô um horizonte real de implementação de suas expectativas.

Real? Sim, real. O “virage” de Sarkozy nas pesquisas pode ser explicado em parte pelas recentes e ousadas declarações de revisão do Acordo de Schengen, que estabeleceu a livre circulação de pessoas em países que integram a União Europeia: se o acordo foi, em algum pretérito, rearranjado, o intuito era fortalecer políticas comunitárias de concessão de vistos, facilidades de imigração, e não o contrário, o que vem dando azo à fragmentação da tão sonhada Comunidade Europeia.

Esse desfacelamento gradativo do edifício jurídico-político-institucional europeu não encontra outra explicação senão a crise que grassa as finanças soberanas, alastra resfriados e constipações em cadeias produtivas, e solapa a possibilidade de revigoramento da integração entre as nações do Bloco.

ImageEstado supranacional Europeu se tornou sinonímia de fuga da igualdade formal entre seus membros. Igualdade com o objetivo de condução comum do futuro da UE, essa não existe. Não existe nem mesmo como forma, se todo o conteúdo das políticas de integração e cooperação do Bloco se vê ameaçado pelos disparates de governos nacionais. Governos nacionais cujo único ídolo a que prestam devoção são grandes instituições financeiras, bancos, inventando inúmeras fórmulas para eleger tecnocratas, apagar incêndios com pacotões de ajuda financeira e enxugamento de gastos públicos.

Quem diria que o sólido projeto começa a sinalizar seu desmanchar no ar, em razão diretamente proporcional à escalada de um novo nacionalismo, fantasma recorrente da história continental? Um nacionalismo que seduz jovens corações, iludidos nas potencialidades do isolamento, do protecionismo atroz de empregos que não existem, de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários que viram pó ao menor sinal das exigências de financistas?

Quem diria…

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Quem diria que Sarkozy, essa estimada figura entre as forças conservadoras que arquitetam o implosivo futuro da UE, é suspeito de receber financiamento da campanha de 2007 de…Muammar Gaddafi? Uma ajudinha estrangeira não é das piores ideias, não é mesmo?

“Étrangers, dehors!” (“Estrangeiros, fora!”) nem sempre é regra, afinal.

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