Thatcherismo laureado

Por João Vitor Loureiro

Los Angeles, 26 de fevereiro de 2012. Deste 2012, um ano que ainda não mostrou muito a que veio, mas seguramente carregado de predições e simbologias do intenso predecessor, o ano de 2011. A indústria cultural cinematográfica norte-americana confere seus auto-elogios na festa que faz sentar legiões de curiosos, cinéfilos e deslumbrados em seus sofás, e as faz ligar aparelhos de televisão para acompanharem a extensa e – na maior parte das vezes – enfadonha premiação dos nomeados pela Academia. Nada novo até aqui.

Meryl Streep, que faz de seus cabelos brancos e senilidade grandes aliados para os elegantes papéis que desempenha, ganha mais uma estatueta dourada pela atuação em A Dama de Ferro, coprodução franco-britânica que gastou em torno de 13 milhões de dólares para fazer aparecer nas telonas toda a modesta pompa da democracia parlamentarista inglesa. Até aqui, nada novo também.

Image

O filme levou, sem surpresas, apenas duas estatuetas: a de melhor atriz e a de melhor maquiagem. Com um enredo um tanto entediante, em que o protagonismo da vida pessoal, os devaneios e a decrepitude de uma figura controversa da recente história do ocidente são o principal foco, A Dama de Ferro deixa muito a desejar na construção prosoprográfica de sua narrativa. O gabinete de uma das pioneiras experiências neoliberais do século passado aparece, ora ou outra, balançado pelo movimento sindical organizado, pela força das greves e dissensões inevitáveis que as medidas do governo conservador produziu na sociedade inglesa das décadas de 70 e 80. Até aqui, nada novo.

Contudo, não podemos nos furtar do seguinte questionamento: como é que surgem narrativas como a Dama de Ferro, e exatamente nos dias de hoje, financiadas por milhões e milhões de dólares? Nos dias em que os modelos de completa desregulamentação econômica, flexibilização de mercados financeiros, privatizações e absenteísmo estatal na economia mostram seus perversos efeitos e condoído colapso? Em mais um episódio de crise do capitalismo posto em funcionamento ao largo sorriso das facetas do liberalismo econômico?

Ah, isso é teoria da conspiração, dirão alguns. Dirão que o filme não demarca uma posição clara, nem um elogio ao thatcherismo, ao neoliberalismo ou sequer à figura de Margaret. Tampouco faz pesadas críticas a ele. Outros ainda dirão que Meryl Streep é simplesmente sublime, excelente, classuda, uma atriz de esmero e dedicação incomparáveis, e que por isso mesmo o filme ganhou destaque. E só.

Essa visão é de uma ignorância atroz. A construção de qualquer discurso é fundamentalmente seletiva. Palavras são selecionadas no esmero do autor para escrever um texto. Conceitos são criados a partir de um acervo de verbetes, de um vocabulário, para então serem catapultados ou suavemente perfurados em seus espectadores/leitores. No caso de A Dama de Ferro, isso fica mais claro, e também mais grave: se trata de um filme, com toda a carga de significados e significações imediatas que as imagens são capazes de construir. E, mais importante que isso: um filme feito em narrativa histórica.

Ora, que é a história do ocidente senão uma rigorosa conexão entre as sociedades humanas e suas necessidades mutáveis? Uma descrição dos processos sociais sobre a disputa antagonizada pelas relações de dominação? Uma história marcada por guerras sucessivas, disputas sucessivas, conflitos sucessivos? A história do ocidente é sobretudo a história de oposições, sejam elas de natureza ideológica, simbólica, cultural, política ou econômica.

Portanto, recontar um passado, tornando-o mais próximo do presente é intencional. Escolher uma personagem, uma narrativa, uma imagem, de modo a conservá-la na memória dos leitores é um modo de intervenção (discursiva) na realidade. Apoderar-se do efeito que a memória tem sobre o presente, também.

Vamos tomar um exemplo: numa das cenas do filme, Margaret Thatcher é inspirada pelo fala de seu pai, e como jovem, diz a seu futuro noivo que uma vida deve valer a pena. Toda a narrativa, da mulher obstinada, que enfrentou as rodas machistas da política britânica, o preconceito por sua origem familiar, filha de pequeno comerciante, e tomou a frente do Partido Conservador gira em torno de um ideal de mulher proposto: “atenção a seus pensamentos, ou eles serão convertidos em palavras, atenção a suas palavras ou elas serão convertidas em ações, olhe suas ações ou elas formarão seu caráter, olhe seu caráter para que ele se torne seu destino”. Essa linha de raciocínio na fala de Thatcher cria um círculo que se fecha, cravando sentido à vida da figura e, é claro, justificando sua visão de mundo: cada pessoa é predestinada à sua própria fortuna, que nada é senão resultado de uma poderosa cadeia causal de suas escolhas, livres. Voilà, Thatcher coroa o self-made man: o ser humano de conquistas, que não deve nada de seu sucesso por conta de relações de parentesco, amizades, riqueza inata ou condições favoráveis, mas sobretudo a seu esforço pessoal para alcançar grandes resultados. É essa criatura dita livre que justifica o encolhimento e inoperância da máquina pública: ela precisa ser livre para suas escolhas e apenas isso lhe é suficiente para sua determinação.

Os onze anos em que Margaret Thatcher esteve à frente do governo na Grã-Bretanha foram marcados por uma profunda crise econômica, inflação irriquieta, acalmada apenas no final de seu governo. Taxas de desemprego altíssimas, privatizações de toda a sorte, cultuando mais e mais a ideia de Estado gerente, e nunca executor, e de cidadãos como clientes, e quase nunca como cidadãos, titulares de direitos conquistados nos duros processos históricos. Um governo que governou sem os sindicatos, sem o diálogo com a sociedade organizada. Que encolheu a atuação do Estado provedor, considerando-o caro demais, mas que ao mesmo tempo despendeu fábulas de libras esterlinas na Guerra das Ilhas Malvinas, com o claro intuito de reacender os ânimos colonialistas ingleses.

Image

Certamente algumas dessas dimensões aparecem no filme, afinal, ocultar por completo esses aspectos negativos ou mostrá-los em demasia seria assumir uma preferência ideológica clara. Porém, o que alguns mecanismos de disseminação discursiva fazem é o caminho da drenagem, do secamento centrífugo, da tentativa de absorção completa da polaridade e politicidade de mensagens. Essa, por exemplo, é a principal intenção, propagandeada aos quatro ventos, de telejornais e matérias jornalísticas: “somos isentos, imparciais”, vangloriam-se muitos. Sabemos que não é assim que se comporta a maior parte dos veículos midiáticos brasileiros e estrangeiros. Sabemos também que o efeito dessa rejeição da esfera política, ao posicionamento definido, é perigoso: algumas vozes do reacionarismo convergem esforços dia a dia para se transvestirem em isentos e com isso conquistarem espaços: encabeçam marchas contra a corrupção que reprimem qualquer manifestação partidária dentro delas. Arrotam uma política marcada por ética, sem compromisso com pauta nenhuma, ideal nenhum, valor nenhum, senão o compromisso com a eficiência. Eficiência de quê? Essa pergunta é imprescindível. Eficiência e ética sem bandeiras, sem agenda propositiva, sem objetivos claros (os quais demarcam preferências positivas) têm apenas um objetivo importante: gerar a desmobilização e apatia, e garantir o controle dos apáticos pelos verdadeiros autores desse discurso da desmobilização, da apatia política. Autores que, em geral, carregam uma agenda conservadora, ainda não viabilizada.

Pois bem, o que A Dama de Ferro faz é ressecar a verve sanguínea de eventos da história política britânica das décadas de 70 e 80 para umidificar a elegância de Meryl Streep, seu sotaque britânico forjado e suas pérolas. É deslocar da controvérsia da agenda politica do Partido Conservador para a ilusão que persegue Thatcher, de um velho marido simpatiquinho de pijamas e pantufas. É deslocar de toda a rigidez de uma figura que ganhou nome de instrumento de tortura, inflexibilidade política, incapacidade de negociação com as Trade-Unions e feroz oposição ao socialismo real, para uma senhorinha bem-vestida que declama São Francisco de Assis. É desfocar a atenção a um governo que dobrou o número de desempregados e adentrou a década de 90 em considerável recessão econômica, para olhar atento a uma velha demente a arrumar armários e beber uísque.

Meryl Streep levou o Oscar de melhor atriz, sim. Esteve excelente. A Dama de Ferro, contudo, não levou o Oscar de melhor filme, claro, seria dar bandeira demais. Já basta aos diretores de Hollywood deslocar a atenção dos espectadores em direção a firulas e elegâncias, senhorinhas e uísques. A mensagem já está dada, selecionar o discurso enfraquecido nos dias de crise do capitalismo e rodeá-lo por falsas preferências. Inculcá-lo em memórias coletivas. Torná-lo parte de conversas pós-sessão e rodas de bar. Quem sabe uma dessas memórias, jovens, diante de um discurso transvestido de deslocamentos, não ache a ideia interessante, esse tal de neoliberalismo?

5 respostas em “Thatcherismo laureado

  1. Níveis descontrolados de inflação com controle apenas ao final do governo, recessão econômica…? Esse governo Thatcher veio da onde mesmo? É de se perguntar se estamos falando do mesmo governo. Mas se a Academia (aquela concentração massiva de liberals) virou uma fábula que conspira para levar ao ar o nome da Maggie… oooooh, qualquer coisa pode ser real.

  2. Belo texto, João! Não há como discordar sobre sua análise acerca da oportunidade do filme e, em certa medida, da maneira pela qual a história foi contada. A circunstância de crise do sistema e o roteiro escolhido, por certo, revelam mais do que se possa imaginar a uma rápida e despretenciosa primeira vista. Gostaria de fazer dois apontamentos apenas: a repercussão desse filme a que eu tive acesso não se furtou a tomá-lo criticamente. Recordo-me de, com frequência, me deparar com a palavra “humanização” para se referir à figura Thatcher contada no filme. Acompanhei, ainda, a indigesta transmissão do Oscar pela TV e qual não foi a minha surpresa ao ver Rubens Ewald Filho dizer, imediatamente após o anúncio da vitória de Meryl Streep, que ela representou uma pessoa que fora “um monstro, em todos os sentidos”.

    Cito esses exemplos para chamar atenção para os fatos de que 1. o roteiro apresenta, como você disse, pontos lúcidos de contraposição ao discurso da baronesa, ainda que seja prevalecente a perspectiva thatcherista; 2. que a figura de Thatcher entre nós – é a minha rasa impressão – já tende a ser vista com reservas, seja em razão do seu discurso ideológico, seja pela forma com a qual conduziu o seu governo.

    Com isso não quero me afastar do que você sugeriu sobre as verdadeiras intenções da película, sobretudo se considerarmos que a perspectiva crítica dificilmente será a regra para expressiva parcela das pessoas que assistirão à produção. E é aqui, contudo, que faço estas indagações: em quanto uma posição não maniqueísta sobre ideologias pesa na crítica acerca de oportunidade/roteiro de um filme? A escolha pela ênfase na pessoa e na perspectiva de Thatcher, sem deixar de ventilar as grandes polêmicas do momento, é necessariamente inoportuna? Causa, necessariamente, dano às “memórias coletivas”? Então, devemos lutar para evitar que alguma perspectiva deixe de se tornar “parte de conversas pós-sessão e rodas de bar”? Ou alguns fatos devem ter assento apenas em relação a grupos seletivos, de alguns poucos que estejam antenados para a possibilidade de um discurso ser, sutilmente, vendido?

  3. Esse governo veio num contexto de recessão mundial. Esse governo reproduziu desemprego em massa. Esse governo assumiu as finanças quebradas, avolumou negócios e privatizações. Desregulamentou tarifas e preços de serviços financeiros. Teve como principal consequência diminuir a renda do trabalho, e uma precarização da distribuição de renda. Deu origem a insanas dívidas de famílias, que vislumbraram senão em cartões de créditos e hipotecas a manutenção material de suas vidas. Menos de onde veio, esse governo mostrou a que veio. Não é à toa que o Reino Unido hoje (uma das economias que já sinalizam recessão na crise de nosso tempo) tem em Thatcher, uma herança importante.

    Se a Academia conspira, não sei. Contudo, como disse, não dá para reduzir o debate, minimizar seus efeitos e achar que a produção não passa de uma bela atuação de Meryl. É mais que isso.

  4. Para criticar com o mínimo de qualidade o seu governo, e saber do que se está falando, recomendo:

    http://www.margaretthatcher.org/speeches/displaydocument.asp?docid=110916 (vídeo)
    http://www.margaretthatcher.org/speeches/displaydocument.asp?docid=108256 (transcrição)

    Com ele você vai aprender o mínimo a respeito de alguns pontos fracos, e que suas colocações sobre inflação não parecem condizer com a realidade. Recomendo, ainda, um ótimo e extenso documentário feito pela BBC, essa organização neoliberal, sobre o governo Thatcher: http://www.youtube.com/watch?v=ObCcT77LV_A .

    Por fim, não vamos esquecer o que o consenso estatista fez com a economia britânica nos anos 60 e 70 e o que os eleitores disseram à agenda socialista em 4 eleições seguidas (1979. 83,87,92). Talvez o fato de Londres ter se tornado a sexta maior cidade francesa explique um bocado do quanto os trabalhadores adoram sofrer nas mãos de economias neoliberais.

  5. Interressante analise, Joao. Mas nao tenho certeza se concordo a final. Eu nao achei que o filme monstrou Thatcher como uma senhorinha inocente e bem-vestidinha. Ela foi presentada como uma mulher que no final perdeu toda conexao com a realidade, que fez decisoes duras contre a restitencia feroza da sociedade civil. Uma mulher que vive no seu mundo de idéias platônicas duma economia neoclassica e neoliberal, que nao chegou a entender que conjurou o contrario do que desejava e pregava. Por que a régie deu tanta atencao a Thatcher como velha senhora arrogante e demente que nunca chegou a reconhecer o seu fracasso?

    Entao, ate se eu sigo os seus interpretacao de Holliwood como porta-voz cultural do poder financial, eu nao posso concordar que ele quer monstrar como era belo o neoliberalismo. Mas deixa o espectador achando que precisamos de um outro governo mais socialista, que faz uma politica que favora os povres e protege os trabalhadores. E assim distrai do fato que tambem esses governos “socialistas” dos quais tem tantos aqui na Europa onde eu toh morando colaboram com os mercados financeiros e com as corporacoes internationais. Esse filme apraza o discurso entre a velha, mas confundida dicotomia entre socialismo e capitalismo. Os dois sao sistemas que translocam o poder da mao da gente nas maos de governos e/ou corporacoes grandes que ficam opaques e descontroladas.

    Se e verdade que o filme e propaganda das elites do capitalismo, o filme naum quer incalcular que o liberalismo economico – mas ele quer preparar o discurso entre as velhas opcoes antidemocraticas e repressionantes.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s