Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

#2 texto da série: Análise de Conjuntura Nacional

O grupo político Brasil & Desenvolvimento traçou, neste início de 2012, o que considera fundamental para qualquer intervenção crítica na realidade: uma análise de conjuntura. Na semana passada, publicamos o primeiro texto da série, sobre o contexto internacional do ano passado, com suas convulsões e primaveras. Hoje, postamos a análise da conjuntura brasileira em 2011, na qual se destaca a compreensão dos limites do governo Dilma Rousseff e, para além disso, do modelo econômico e político nacional-desenvolvimentista. Figuram no nosso texto, ainda, comentários sobre o quadro partidário e sobre os atores e lutas sociais emergentes no país.

Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

Análise de conjuntura nacional

Grupo Brasil e Desenvolvimento

2011 começou com a histórica recepção da faixa presidencial por uma mulher. Iniciou-se o governo Dilma, o nono ano da coalizão encabeçada pelo PT, partido nascido da união de diversos movimentos populares em 1980 e envelhecido nas amarras das atuais instituições de poder estatal quanto a avanços profundos nas conquistas sociais. Quando os projetos de esquerda são profundamente associados ao desenvolvimentismo e medidos a partir de parâmetros econômicos, os avanços sociais passam a ser restritos à ampliação do acesso a bens de consumo. Essa tendência, já forte no governo Lula, intensifica-se ainda mais com  Dilma: afinal, simbolicamente, o Brasil deixa de ser para todos, para ser um país rico, entenda-se, sem miséria.

Ao longo do seu primeiro ano, o governo perdeu diversas oportunidades de se reaproximar da militância progressista e dos movimentos sociais, priorizando a relação com setores reacionários da sociedade, como os ruralistas e as organizações religiosas conservadoras.

A condução da votação do novo Código Florestal, o recuo na reforma agrária devido ao atraso na política de assentamentos e o cancelamento da distribuição do material de combate à homofobia nas escolas ilustram essa movimentação, assim como a displicência com as pautas trabalhistas – terceirização, precarização, desregulamentação da demissão imotivada, entre outras.

O alinhamento com o grande empresariado se escancarou quando inaugurada a Câmara de Gestão e Competitividade – conhecida como “Conselho do Gerdau” – instalada com o objetivo de pensar a gestão pública a partir da lógica da eficiência de mercado. Aprimorar a capacidade de gestão do Estado é fundamental, desde que sob o viés da criação e do fortalecimento de mecanismos que possibilitem a efetiva participação popular no planejamento, execução e avaliação das políticas públicas, algo que tem se mostrado ausente até mesmo e com frequência, do discurso do governo Dilma.

Se Lula, apesar de condicionado por limitações semelhantes às do governo atual, inovou ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES, o “Conselhão”) e apostar na multiplicação das Conferências Nacionais, Dilma retrocede com sua agenda e sua retórica da eficiência tecnocrática-empresarial, deixando de promover as reformulações e avanços necessários ao aprofundamento das experiências iniciadas anteriormente. Em vez disso, percebe-se um crescente desprezo às Conferências Nacionais como instâncias vinculativas das políticas de Estado – os retrocessos do governo Dilma na área de segurança pública, em grande medida decorrentes do desprezo aos resultados da 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (CONSEG), são marcantes a esse respeito. Aguarda-se que, em 2012, o governo finalmente retome as propostas da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM) sobre o marco regulatório da mídia, para dar cumprimento às previsões constitucionais que proíbem, por exemplo, a propriedade cruzada no setor.

O modelo da política pública em formato de pacote, entregue à sociedade pronto, sem discussão prévia, sem construção coletiva, passa por cima de complexidades sociais e peculiaridades locais. Exemplos não faltam: Plano de Enfrentamento ao Crack, Minha Casa Minha Vida e o Cadastro de Acompanhamento e Vigilância das Grávidas.

Na área da cultura, a tendência de alinhamento com grandes grupos empresariais culminou na nomeação de uma Ministra alinhada com uma visão conservadora de direito autoral, e aprofundou-se pelo corte no orçamento do setor, que atingiu programas importantes, em especial os Pontos de Cultura, que representavam um avanço na política cultural e um modelo inovador de relação democrática entre Estado e sociedade.

Em um governo desenvolvimentista “cimento e tijolo”, a cultura fica restrita à artificialidade da praça construída pelo PAC, sendo irrelevante a produção autêntica e autônoma do povo-artista, a espontaneidade de sua espacialidade.

A preparação do país para os mega eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, constrói uma prática política em conflito com o povo. As recorrentes remoções das ocupações urbanas e a orientação higienizadora dos choques de ordem colocam em andamento ações governamentais que protegem os interesses dos ricos por meio do ataque aos pobres e da criminalização de suas vidas – um viva para a construção anunciada de vários novos presídios!

Por certo, avanços pontuais podem ser identificados, como a aprovação da limitada Comissão da Verdade, da ousada Lei de Acesso à Informação, e o envio ao Congresso do Marco Civil da Internet. Porém, o governo deixa claras suas prioridades quando apressa-se em atender às exigências draconianas da FIFA, enquanto trabalhadores de Jirau, as populações indígenas de Belo Monte e os cidadãos do Haiti seguem submetidos a angustiantes condições, aguardando alguma solução para seus problemas.

Com este governo, é possível fazer uma “faxina” ética de seus  membros e fortalecer os órgãos de controle interno e externo, mas não se avança no combate à corrupção estrutural, decorrente da relação entre Estado e Capital. É possível fazer UPP’s, mas não se questiona com profundidade o fracassado viés policialesco da política de combate às drogas.

O nacional-desenvolvimentismo, se já se mostrou superior ao neoliberalismo para promover crescimento econômico e combater a miséria, também revelou, ainda mais em 2011, os seus limites. Para um governo afeito a números, aqui estão alguns dados preocupantes e reveladores: (i) o número de moradores de favelas aumentou no Brasil na última década (compreendendo os oito anos do governo Lula), segundo estudo do Censo 2010 do IBGE publicado no fim de 2011; (ii) segundo o mesmo Censo, 25% da população brasileira têm renda mensal de até R$ 188, e 50% da população, de até R$ 375; (iii) a desigualdade racial agravou-se no Brasil entre 2009 e 2010 (v. aqui o elucidativo relatório produzido por grupo de pesquisa da UFRJ); (iv) 45% dos municípios brasileiros não coletam esgoto. Enfim, a lista de estatísticas que podemos apresentar é extensa, e contempla não apenas a manutenção ou melhora tímida dos nossos elevados padrões de desigualdades, mas até mesmo, em alguns casos, o seu recrudescimento.

Economia brasileira: a grande transformação ainda está por vir.

Em meio a uma crise do capitalismo que convulsiona o mundo, a política econômica ao redor do planeta, salvo raras exceções, quando não se converteu em redução da qualidade de vida dos mais pobres, manteve-se estável.

Por décadas, instituições financeiras de toda natureza se engajaram em atividades de altíssimo risco e lucraram quantias vultosas, distribuídas a seus acionistas e executivos. Quando, recentemente, o risco se converteu em gigantescas perdas, os governos ao redor do mundo transferiram a conta aos trabalhadores e socorreram a elite financista, sem qualquer contrapartida.

No Brasil, apesar de um índice razoável de crescimento econômico e da relativamente baixa taxa de endividamento/PIB (cerca de 58%), pagamos uma das taxas de juros mais altas do mundo, o que significa desaceleração do crescimento econômico e desvio de renda para uma elite financista improdutiva.

A política econômica brasileira naturalizou a percepção de que a sociedade está a serviço da economia e não o oposto. A prioridade orçamentária que permanece é garantir o religioso pagamento do serviço da dívida, mesmo que, para isso, se sacrifique o acesso de cada brasileiro e brasileira a seus direitos constitucionais, como educação, saúde e moradia.

A leve queda nas taxas de juros, enquanto o país deslancha suas modestas taxas de crescimento econômico, demonstra uma preocupação do governo brasileiro em realizar melhorias na estrutura de crédito, desde que se mantenham os privilégios do setor financeiro.

Entre os avanços tímidos da economia, destaca-se a política de valorização do salário mínimo atrelado ao crescimento econômico. Tímido porque a valorização depende do crescimento, quando deveria ocorrer independentemente disso e com maior vigor, como instrumento de redução da desigualdade social.

A propósito, o Brasil ainda é o 3º país mais desigual do mundo, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O salário mínimo —referencial remuneratório para a maior parte dos brasileiros assalariados — é ainda muito inferior ao valor necessário para se aproximar do verdadeiro salário mínimo: uma renda capaz de garantir que os trabalhadores e trabalhadoras tenham acesso a saúde, moradia, educação e lazer.

Prevalece ainda, como já apontado, uma pauta trabalhista conservadora, que ignora os efeitos perversos da terceirização (em prol de um suposto ganho de eficiência) e a existência de um enorme contingente de trabalhadoras domésticas oficialmente inferiorizadas, dada a ausência de garantia legal de certos direitos trabalhistas, consequência da inafastável discriminação de gênero e, na maior parte das vezes, da discriminação racial nas relações de trabalho.

A política industrial brasileira também expõe a opção pelos grandes conglomerados, que recebem renda pública via juros subsidiados do BNDES (quem não se lembra do polêmico e abortado financiamento do BNDES para a fusão do Pão de Açúcar e Carrefour?), enquanto os pequenos produtores ainda têm difícil acesso ao crédito e pagam juros bem maiores.

A decadente indústria automobilística estrangeira, instalada em grandes parques industriais no Brasil, é aqui agraciada com a maior taxa de lucro do mundo. Essa mesma indústria continua com proteção governamental e vantagens tributárias de toda natureza, a vender-nos produtos de baixíssima qualidade e segurança a preços muito acima daqueles praticados em outros mercados.

Enquanto isso, a grande maioria da população padece de péssimas condições de uso do transporte coletivo, que não figura no rol de prioridades do Estado – seja por meio da melhoria das condições existentes ou da criação de meios alternativos de transporte urbano. Esse modelo cujos esforços e prioridades centram-se na funcionalidade do automóvel individual demonstra-se bastante tímido no estímulo ao desenvolvimento de uma “economia verde”, sustentável.

Enfim, apesar de êxitos relevantes na economia, como a redução do desemprego e o aumento da formalização no mercado de trabalho, não se pode dizer que estejamos no rumo certo enquanto não enfrentarmos o crônico aparelhamento do Estado brasileiro pelos grandes grupos capitalistas – setores estratégicos são balançados por meio de políticas que instrumentalizam o aparelho estatal, garantindo a dominação da máquina pública. Tratam-se de formatos distintos da associação Estado e Capital, estampados, por exemplo, na entrega de milhões de barris de petróleo e da hegemonia tecnológica da Petrobrás ao grupo de Eike Batista, “agraciado” pela descoberta do Pré-Sal, cujas riquezas, se fossem adequadamente revertidas em investimentos públicos em setores como saúde e educação, certamente trariam enormes benefícios a nossa população.

É esse aparelhamento do Estado brasileiro por grandes grupos capitalistas que está na raiz das nossas carências na educação, na saúde, no trabalho, na transparência pública…

O esgotamento dos partidos políticos

Após 20 anos de inquestionável importância do PT na organização dos movimentos socais do país e uma mudança para oito anos de um governo encabeçado pelo partido, seu objetivo político principal segue sendo garantir a mera governabilidade. Há oito anos, em vez de buscar respaldo nos movimentos sociais organizados, o PT optou preferencialmente por alianças com partidos que pudessem lhe garantir apoio parlamentar. O PT, assim, garantiu a continuidade do que o cientista político Marcos Nobre chama de peemedebismo: para garantir a governabilidade, o partido no poder dá espaço aos partidos adesistas que buscam espaços na máquina pública e impedem que temas polêmicos entrem em pauta decisória.

Apesar de não ser novidade do ano, 2011 teve um momento simbólico na questão partidária. Após ter tentado uma estratégia de mudar sua imagem de PFL para Democratas, o partido símbolo da Ditadura Militar e principal aliado do Governo do PSDB sofreu um duro golpe com a criação do PSD, em sua maioria surgido do antigo PFL. Esse fato evidencia a força do peemedebismo, sendo o partido uma estratégia para arregimentar mais políticos, que, antes na oposição, passam em seguida a aderir à base, o que também reforça o caráter conservador da aliança governista. A direita que está na oposição se enfraquece, sem sucesso em articular uma frente coesa, que se contraponha ao Governo. Enquanto isso, a direita que está dentro do Governo se fortalece e ali vem se mantendo, livre de uma oposição da esquerda, até o dia em que lhe parecer conveniente.

Os partidos da oposição de esquerda, por sua vez, não mostram efetividade em suas estratégias. O PSol, partido parlamentarista que busca pautar o debate público de forma contundente, não o faz. Não acumulou nenhuma vitória parlamentar que não tivesse sido organizada pela direita, nem conseguiu apoio e mobilização da opinião pública em temas que superem a tão batida pauta ética. Os demais partidos de esquerda sem representação no parlamento continuam não mostrando capacidade de formar maioria com seu discurso e suas ações, mantendo-se no gueto da eterna minoria.

Em síntese, no ano de 2011 se evidenciou a falta que faz aos partidos políticos a inovação esperada pela sociedade, o que foi denunciado pelos diversos movimentos sociais que marcaram o ano. Mas o descrédito dos partidos tem origem na falência da democracia liberal, que os utiliza como meros instrumentos eleitorais, e na equivocada estratégia dos partidos de esquerda quando optam pela estratégia exclusivamente eleitoral. A força do partido está na estrutura de organização e coordenação das demandas da sociedade, dos movimentos sociais organizados, enfim, está na força criadora e na capacidade de mudança a que se propõe.

Novos atores sociais, novas lutas

2011 foi marcado por ocupas também nas ruas do Brasil. Além dos acampamentos na Cinelândia, no Rio de Janeiro, e no Viaduto do Chá, em São Paulo, várias cidades integraram-se ao circuito mundial de protestos, compartilhando criativamente linguagens e métodos de mobilização semelhantes – foi o caso, por exemplo do movimento “primavera sem borboleta”, na capital potiguar, que nasceu nas redes sociais e passou às ruas, tendo chegado a promover um vitorioso acampamento de 11 dias na Câmara Municipal de Natal.

Ainda que muitas vezes distantes dos partidos, céticos quanto à organização institucional, os manifestantes foram às ruas. Nas grandes cidades, marchas libertárias – das Vadias, da Maconha, pela liberdade na internet – dividiram espaço com a ambígua e limitada marcha contra a corrupção (que nunca chegou perto de confrontar as raízes da corrupção estruturante do Estado brasileiro, decorrente do fato de ele servir prioritariamente aos interesses dos grandes grupos capitalistas, e não à autogestão democrática do povo).

As manifestações contrárias à reforma do Código Florestal e à construção de Belo Monte mobilizaram a luta ambientalista e indígena e trouxeram para a ordem do dia essas demandas, mas também mostraram a força avassaladora dos adversários dos direitos socioambientais no Parlamento e no governo.

Fortes movimentos de outrora, como o MST e as maiores centrais sindicais, não se destacaram em 2011, apresentando dificuldades de mobilização – seja por paralisante alinhamento com o governo, no caso de entidades como a CUT; por acúmulo da falta de vitórias e desidratação da sua base, no caso do MST; ou por inabilidade na construção de unidade e no desenvolvimento de uma estratégia de luta inovadora e convincente, no caso de centrais sindicais ligadas a partidos de esquerda como PSOL e PSTU. No caso do MST, porém, merece destaque positivo (do ponto de vista programático e estratégico) a crescente atenção que vem sendo conferida por sua prática e militância à agroecologia, à defesa da agricultura social e ambientalmente sustentável.

Se as grandes centrais sindicais, assim como os partidos, não atravessam boa fase, os trabalhadores não deixaram de se mobilizar em novas frentes. Além de acontecimentos relevantes e promissores como a revolta dos milhares de trabalhadores da Usina Hidrelétrica de Jirau, merecem destaque os movimentos de trabalhadores sem-teto, que conquistaram maior visibilidade em sua luta contra a perversidade da especulação imobiliária vivenciada em todo o país.  A formação dos comitês populares da Copa indica que a luta pelo direito à cidade seguirá sendo central nos próximos anos, denunciando as arbitrariedades decorrentes da organização dos megaeventos e lutando pela produção democrática do espaço urbano.

A “nova classe média” – ou melhor, a nova classe trabalhadora, que em grande parte continua na pobreza, apesar de ter superado a linha de 2 dólares por dia –, cantada em verso e prosa aos quatro ventos, emerge como protagonista de valores contraditórios e, em grande medida, ainda desconhecidos. Tornou-se a nova menina dos olhos do mercado e de partidos políticos de diversos matizes, os quais buscam seduzi-la e conquistá-la.

Discursos religiosos conservadores e reacionários invadem a política e ganham frentes organizadas de seguidores e fanáticos. Mesmo assentados sobre velhos dogmas, muitos desses discursos ganham força em diferentes segmentos sociais. Deus se torna o grande negócio de muitos empreendimentos Brasil afora, capazes de reacenderem juízos moralizantes e anacrônicos, apegados ao ódio e ao preconceito, e desapegados à questão central da alteridade.

Porém, se discursos e práticas em prol do engessamento de certos valores ainda conquistam a opinião pública, lentamente alguns flancos se abrem para o respeito dos iguais na diferença: uniões homoafetivas têm deixado de ser tabu para muitos (a vitória no STF foi um grande marco para essa luta), a igualdade de gênero tem se tornado aos poucos mais visível no mundo do trabalho (apesar do enorme caminho que ainda há a percorrer no rumo da igualdade), a recomposição dos núcleos familiares brasileiros tem deixado cada vez mais de lado a figura patriarcal e lentamente outras questões sobre a diversidade vão ganhando espaço.

A prisão de manifestantes, os despejos ilegais, o recrudescimento da violência contra indígenas, a atuação da PM nos campi universitários e fora deles mostram que a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais continua sendo uma realidade.

Num contexto em que as nossas cidades seguem fortemente marcadas pela segregação socioespacial, o conflito é inevitável, e cresce a esperança no herói policialesco, vigilante permanente da paz e da ordem, e a euforia por instrumentos punitivos que só agravam os problemas que dizem combater. Para confrontar essa cultura do medo, precisamos de uma  integração social emancipatória, fundada na alteridade, no pluralismo e na aceitação de que a luta por  direitos iguais é legítima e deve ser equacionada politicamente, e não por meio da violência repressiva.

É preciso confrontar as bases de reprodução das nossas crônicas injustiças sociais. Nesse sentido, o atual modelo de desenvolvimento (?) levado a cabo pelo Estado brasileiro, em estreita cooperação com os grandes grupos capitalistas, não tem combatido essa realidade. É preciso imaginar e viabilizar politicamente novas alternativas. Conforme já apontamos na análise de conjuntura internacional, não é dos gabinetes dos burocratas do Estado ou dos escritórios das grandes empresas, mas da efervescência das ruas que há de surgir esse impulso de criação rebelde.

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16 respostas em “Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

    • garoto, e vc garoto: vc não tem a menor competência intelectual para fazer uma análise de conjutura.vc ja leu alguma coisa de economia Telésforo Filho? vc não conhece porra nenhuma disso. nunca vi tanta merda escrita, inclusive de maneira bem prolixa.faça um bom curso de economia (a unb é um bom lugar), estude muito e faça o favor de ser um excelente aluno de história econômica. no mais, meus parabéns: com quase 25 anos, ter coragem de pensar de forma crítica, mesmo tendo como recultado uma cagada, é parte fundamental da criação de um futuro grande formador de opinião.

      • Caro Francisco,
        Fui um dos autores do texto, mas ele foi escrito a várias mãos, pelo conjunto dos integrantes do grupo Brasil e Desenvolvimento. Consideramos que o estudo é fundamental, mas recusamos fortemente argumentos de autoridade utilizados para esvaziar o debate e deslegitimar a participação no espaço público com base em etiquetas acadêmicas. Seria interessante que você fizesse o debate de mérito e apontasse quais seriam, a seu ver, as inconsistências do texto. Aí poderíamos debater.

  1. Muito interessante a análise de vocês, tanto da conjuntura nacional como da internacional. Senti um certo “pessimismo” com programas do atual governo que, com todos os seus limites, problemas e contradições, tem produzido resultados positivos (“PAC”, “Minha Casa, Minha Vida”, etc.). Mas é isso mesmo: um blog progressista, que quer inovar e apontar novas alternativas, tem que ser crítico, evitando, sempre que possível, análises do tipo “chapa-branca”.

    Como leitor, fiquei com a impressão de que há um certo maniqueismo exagerado na distinção capital/trabalho: “grandes grupos capitalistas” que colonizam a política estatal versus movimentos sociais e populares que representam as aspirações democráticas da maioria pobre e trabalhadora. Será que ainda dá para tratar essa distinção de uma forma tão automática? Outras distinções também chamaram a minha atenção: Estado/Sociedade, Economia/Sociedade, Capital/Sociedade, etc. O Estado e a Economia já não são a própria sociedade, organizada a partir de lógicas próprias e também “colonizada”, em cada caso, por interesses específicos?

    É claro que todo observador precisa sempre de um ponto de partida, de uma distinção. E todo ponto de partida tem os seus aspectos aleatórias, toda distinção tem seu ponto cego. Trabalhadores também investem no mercado de capitais, e muitos capitalistas também são “workaholics”. Achei interessante principalmente a citação final: “não é dos gabinetes dos burocratas do Estado ou dos escritórios das grandes empresas, mas da efervescência das ruas que há de surgir esse impulso de criação rebelde”. Os burocratas do Estado também vão para as ruas, e das ruas também sai muito gente que leva esse impulso transformador para repartições públicas e escritórios de grandes empresas. Enfim, o que não vemos (ou o que não vemos que não vemos?) quando vemos o mundo divido entre capital e trabalho?

    De qualquer forma, parabens a todos pelos excelentes textos! A lógica da exclusão que domina a nossa sociedade moderna deve ser sempre alvo de crítica, análise, denúncia e rebeldia! Um grande abraço!

    • Guilherme, o “Minha Casa Minha Vida” é um programa extremamente problemático. Aqui no DF, por exemplo, até hoje nenhuma família da faixa de renda de 0 a 3 salários-mínimos, que é justamente onde se encontra o maior déficit habitacional, foi contemplada pelo programa. Essa situação tem se repetido por todo o país, e decorre do fato de que não se enfrenta a especulação imobiliária (que produz um déficit habitacional apenas um pouco superior ao número de imóveis vazios nas grandes cidades). Ademais, a qualidade das casas deixa muito a desejar e o programa não tem nenhum aspecto de participação popular em sua implementação, o que resulta numa política social que não é feita segundo uma lógica participativa de direitos, e sim como benefício à clientela de consumidores… (Que foi o aspecto em que criticamos mais o governo Dilma no aspecto das políticas públicas).

      Quanto à crítica às categorias analíticas utilizadas, reconhecemos os seus limites e inevitáveis pontos cegos. Ademais, reconhecemos a importância dos agentes do Estado para um projeto transformador, sua capacidade de contribuir para concretizá-los e fomentá-los; porém, enxergamos que o Estado é condicionado por diversos “fatores reais de poder”, e que mesmo as pessoas (e até os partidos) mais bem comprometidas ficam de mãos atadas, dentro do Estado, quando não têm apoio “das ruas”, de forte mobilização popular, para enfrentar certos adversários. A Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, por exemplo, é uma feminista comprometida com os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, mas muito dificilmente vai conseguir, por meio da atuação no Executivo, impor avanços na liberalização do aborto. Pode ajudar a abrir brechas, mas quem de fato tem o potencial de avançar nisso é a mobilização popular. Nesse sentido, se o “burocrata” e o “militante” até certo ponto se confundem na mesma pessoa, também se diferenciam quando ocupam posições diferentes – e nós estávamos tratando, na análise, de posições, não de pessoas.

      Com relação à contraposição capital-trabalho, consideramos que ela segue visível e fundamental, embora certamente seja bastante complexa. O papel dos fundos de pensão e da elite dos sindicatos nele, por exemplo (Chico de Oliveira chega a considerá-la uma classe social diferenciada), dá muito a pensarmos.

      • Caro Telésforo, mesmo com seus problemas, contradições e déficits de legitimidade, o PMCMV representa um ponto de partida interessante. Na verdade, a própria postura da administração federal tem progredido nos últimos anos em tema de direito à moradia. A atuação da Secretaria do Patrimônio da União do Ministério do Planejamento na regularização fundiária de ocupações de baixa renda, por exemplo, tem apresentado resultados extremamente positivos. Mas com certeza esse é um tema que “dá muito pano para manga”.

        O que achei mais interessante na análise da conjuntura foi a tentativa de apontar caminhos para a atuação da sociedade civil organizada. Mobilização e engajamento populares são essenciais para qualquer mudança democrática. Mas os “fatores reais de poder” condicionam a sociedade como um todo: Estado, mercado, sindicatos, ONGs, movimentos populares, etc. Por isso achei que há um certo “maniqueísmo exagerado” em algumas das distinções utilizadas, maniqueísmo esse que fica aquém da complexidade e seriedade da análise de vocês.

        Um abraço!

  2. Esse texto critica o governo, a economia, as relações internacionais, os partidos, o congresso, as elites, a classe média, a classe trabalhadora, os movimentos sociais, a presidenta, as políticas do estado, a polícia, o mercado, as corporações, o capitalismo, a cultura e não propõe nada. Se isso não é radicalismo rancoroso, tenho medo do que venha a ser…

    • Prezado Alysson, o texto é uma análise de conjuntura, o seu propósito não é apresentar propostas. Você encontra, aqui no blog, diversas propostas para as mais diversas áreas – sistematizaremos as mais importantes delas numa carta programática que publicaremos em breve. Naturalmente, a crítica é uma característica intrínseca a qualquer boa análise. No entanto, contrariamente ao que você apontou, não fizemos, no texto, apenas críticas negativas. Fizemos críticas positivas, por exemplo, aos Comitês Populares da Copa, ao engajamento agroecológico do MST, às ocupas que tomaram várias cidades do Brasil, à decisão no STF sobre união homoafetiva, à continuidade da geração de empregos, entre outros. Essas críticas positivas, em especial aquelas dirigidas a novos atores sociais (como os Comitês Populares) ou novos direcionamentos deles (no caso do MST), apontam para onde julgamos estar os potenciais de propostas inovadoras.

  3. O artigo é muito bom e deve ser debatido (com respeito e sem ares de verdade)para a reconstrução da esquerda brasileira. Porém, faço uma ressalva: o texto critica os partidos de esquerda, como Psol e Pstu. Porém, não seria o caso de caso de engrossar estes partidos e levar estas discussões para dentro e fora deles? ficar falando que eles não criaram bases populares e não fazer nada para ajudar a aproximação destas bases com os partidos de esquerda é uma posição cômoda que ajuda os movimentos populares a cair nas mãos governistas.

    • Prezado, nossa atuação política pauta-se por buscar engrossar o caldo do campo democrático-popular, seja pautando o debate público, seja por meio de atividades de formação, seja por meio de assessoria a movimentos sociais, e sempre buscando construir unidade combativa na esquerda. Porém, será que o caminho deve passar necessariamente pelo fortalecimento desses partidos que você citou, ou mesmo de quaisquer partidos? Será que não precisamos ou temos a oportunidade de construir novos instrumentos políticos? São perguntas que nos fazemos.

  4. Caros,

    Me causa estranhamento a ausência de qualquer comentário em relação ao plano “Brasil maior” e como está relacionado exatamente a visão de vocês sobre atual politica econômica brasileira.

    No entanto, no tocante a nova classe média eu tendo a discordar. Ela
    é menos contraditória do que achamos ou do que queremos aceitar e ela tem uma consciência de si. Na base do puro achismo meu, vejo que temos essa tendencia a colocar que eles de forma nebulosa porque temos a dificuldade de ver/aceitar o que eles são. Por exemplo, a maioria envangélia, em especial das igrejas pentecostais é integrante dessa nova classe média, ou seja, ela é mais conservadora/religiosa. São os que estão entrando nas faculdades particulares e vêem com desconfiança os alunos das universidades públicas (é só ver relação entre o ME estudantil e “playboy mimado” ou a “gap revolution” e perceber que ´´e algo recente, é um discurso novo e nunca usado pelos tradicionais grupos conservadores).
    Por fim, tenho a sensação que eles basicamente tem o simples desejo de se “tornar” a gente, ou seja, ter acesso, as possibilidades e excessos que nós os ricos temos. Mas se norteiam de uma forma diferente que a nossa para alcançar esse objetivo. Querem o desenvolvimentismo que vocês falaram. É por isso, acho, que casa tão bem esse discurso do governo e essa nova classe média. Ambos almejam a mesma coisa

  5. Muito interessante o artigo. Gostei da crítica ao movimento sindicalista e ao abandono do PT de suas bases históricas, mesmo acreditando que foi um ato acertado para ganhar as eleições.

    Gostaria de saber qual o posicionamento do grupo sobre um outro grave problema estrutural do Brasil: o funcionalismo público. Não digo que ele é todo um erro, mas as disparidades são absurdas. O déficit previdenciário dos servidores do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, esse ano vai bater os 60 bilhões de reais. Este déficit é de apenas 1 milhão de funcionários, menos de 1% da população. É a elite estatal.
    E o Estado brasileiro, principalmente o governo federal, continua a contratar com salários altíssimos novos servidores. É um insulto um país que luta contra a miséria e a pobreza gastar tanto com seus próprios servidores, sendo que poderiam ampliar a rede de assistência se estes vencimentos fossem menores.

    Além disso, a tentação de ganhar mais de 10 mil reais de primeiro emprego tem levado cada vez mais jovens a não procurarem um emprego nos seus primeiros anos de formação. Buscando o sonho do serviço público ultra-estável e bem remunerado. Pessoas altamente capacitadas que saem da faculdade e voltam para a sala de um cursinho, pouco contribuindo com suas idéias e capacidades. Justo no momento que eles são mais inovadores e tem uma maior iniciativa.

  6. O artigo traz boas reflexões e me faz lembrar de horizontes. Também concordo com algumas das considerações dos comentaristas. De minha parte tenho alguns pontos de crítica dos quais três gostaria de aqui comentar:
    1-A questão da educação, ausente no panorama, pode ser considerarada um motor para a ação consciente. E nisso o(s) governo(s) PT+PMDB muito tem avançado desde a era FHC.
    2-Senti uma certa má vontade com os indicadores de desenvolvimento/distribuição de renda e cito apenas um, dos muitos, reconhecido até pelo Estadão, (é possível?) http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,estudo-indica-que-desigualdade-atingiu-menor-nivel-ja-visto-do-brasil,714373,0.htm
    3-Discordo de que o governo deveria desregulamentar a dispensa imotivada. Ora, se existe separação e divórcio para o contrato que em tese requer dezenas, centenas e às vezes milhares de entrevistas, interlóquios e contatos, o matrimônio, e não permitir a dispensa imotivada para contrato de trabalho?
    Abraço

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