Histórias do desfile da vaca

Por Laila Maia Galvão

Não é mais preciso viajar à Europa ou aos Estados Unidos para se deparar com vaquinhas coloridas em pontos movimentados de grandes centros urbanos como estações de metrô, praças e shopping centers. Algumas cidades brasileiras, desde a década passada, entraram na onda da já-famosa CowParade, em que estátuas de vacas customizadas são expostas em locais públicos por determinado período. A exposição, que já passou por diversas cidades do hemisfério norte e que já circulou pelas cidades brasileiras do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia entre outras, chega agora às cidades catarinenses de Joinville, Florianópolis e Balneário Camboriú.

O evento funciona mais ou menos assim: alguma cidade decide promovê-lo e artistas “locais”, desde amadores e desconhecidos até profissionais e famosos, podem participar da seleção apresentando um projeto. Grandes corporações ou indivíduos isolados podem patrocinar a produção de uma vaca ou até mesmo de um rebanho. Após a seleção, os artistas, devidamente patrocinados, pintam, montam, enfeitam as vacas de fibra de vidro. As vaquinhas ficam expostas ao público e, após a exibição, são leiloadas. A maior parte da arrecadação do leilão é, então, destinada a entidades beneficentes. Quem não pode se dar ao luxo de oferecer o lance mínimo de R$ 5.000,00 por vaca, pode comprar via internet algumas réplicas em miniatura das vaquinhas mais famosas.

Trata-se, segundo os organizadores, do maior e mais bem sucedido evento de arte pública do mundo. São apontados os seguintes números: mais de 100 milhões de pessoas já contemplaram as vaquinhas; mais de 20 milhões de dólares foram destinados a organizações filantrópicas e mais de 5 mil artistas participaram da exposição ao redor do mundo.

A CowParade se auto denomina como public art – arte pública. A arte pública busca retirar as obras de arte do âmbito restrito dos museus e das galerias para colocá-las ao ar livre, em contato direto com seu público e com acesso gratuito. Dessa forma, a audiência se amplia significativamente. A arte pública também se vincula à ideia de que experimentar a arte e a cultura não deve ser tratado como algo supérfluo e secundário e nem deve ser restrito a poucas pessoas, já que constitui um direito humano essencial, assim como descrito na declaração universal dos direitos humanos.

A concepção de arte pública se aproxima, em vários pontos, da ideia de arte de rua. É preciso reconhecer que é tênue a linha que divide as classificações de public art­ – arte pública e street art – arte de rua e que essas classificações não são fixas, sendo continuamente reformuladas. Ocorre que, historicamente, a ideia de arte de rua esteve diretamente relacionada à problemática urbana, com tons mais anticapitalistas e transgressores, já que, muitas das vezes, ela opera como um protesto político. Muitos consideram a arte de rua uma forma mais democrática de arte pública. São interações que se desenvolvem com o espaço urbano em que a arte dificilmente pode ser retirada para uma galeria, colecionada ou comprada por alguém, pois ela pertence à própria cidade. É o caso, por exemplo, dos stencils feitos nos viadutos e nos muros. Se antes essas intervenções eram tachadas de vandalismo, hoje muitas metrópoles estimulam a produção de grafites e outras intervenções artísticas a fim de embelezar espaços urbanos decadentes.

Voltemos às nossas vaquinhas. A CowParade segue e amplia uma tendência de estilo de arte que busca colorir a cidade e que escolhe a vaca como símbolo justamente por ela representar “um sentimento comum de carinho” e por “ela simplesmente fazer todos sorrirem”. A questão é que, sem entrar na discussão se as vacas produzidas são kitsch ou não, elas costumam proporcionar mais um cenário alegre para fotografias de turistas do que uma experiência sensorial mais profunda.

Essa tentativa de evitar controvérsias, muitas vezes, está prevista no próprio regulamento do evento. Em Nova York, por exemplo, a fundação que organizou a CowParade por lá determinou que designs que fossem essencialmente religiosos, políticos ou sexuais não seriam aceitos. Mas a questão é a seguinte: uma vez aberto um regulamento para selecionar projetos “de vacas”, haverá necessariamente uma discussão sobre os critérios de seleção. Uma vez colocada a arte na rua, haverá necessariamente uma interação da arte com o público que não pode ser totalmente prevista e calculada. A arte nos leva além. Da tentativa do controle, surgem histórias que escapam do programado e que demonstram a complexidade do humano. Abaixo seguem algumas dessas histórias.

Não pode tudo…

A rejeição de algumas vaquinhas deu no que falar. O projeto chamado Moonica Lewinsky, por exemplo, não foi aceito, assim como a Hasidic Cow, que fazia referência ao grupo ortodoxo judeu.

O caso mais conturbado, no entanto, que inclusive foi parar nos tribunais dos Estados Unidos, foi a rejeição do projeto da PETA – People for the Ethical Treatment of Animals. O projeto consistia em uma vaca toda marcada por um açougueiro e que exibia as seguintes frases: “Eating meat causes impotence because it blocks the arteries to all vital organs, including the penis”, “Cattle are castrated and dehorned without anesthesia”, e “A lot of times the man skinning the cow finds out an animal is still conscious.” A PETA processou o prefeito de NY, e os organizadores da CowParade pela restrição à liberdade de expressão e de opinião, mas não obteve sucesso na ação.

Outra polêmica envolveu o diretor de cinema (e outras coisas mais) David Lynch. Apesar de o site oficial da CowParade informar que ele foi um dos colaboradores, outros sites contam que o trabalho dele voltou de NY à Califórnia sem ser exibido, por ser muito “sangrento”. A vaca do Lynch era decapitada, toda cheia de sangue e trazia a seguinte frase: “eat my fear”.

Interagindo com as vacas…

Um dos pontos mais ticados da CowParade se refere ao patrocínio das obras por corporações, fazendo com que algumas vacas façam propaganda dessas marcas. Em Belo Horizonte, por exemplo, as chamadas “vacas publicitárias” suscitaram o debate: afinal, trata-se de arte ou de publicidade?

Na Suécia, uma organização chamada The Militant Graffiti Artists of Stockholm sequestrou uma vaca que veiculava uma propaganda. Eles enviaram um vídeo para um jornal local com a seguinte demanda: queriam que as vacas expostas na CowParade fossem declaradas “não-arte” pelos organizadores do evento, caso contrário a vaca sequestrada iria a sacrifício. Obviamente, a reposta foi negativa e a vaquinha sequestrada foi decapitada.

Um protesto de artistas também ocorreu no Brasil. Em Belo Horizonte, artistas de vários coletivos fizeram 11 vacas magras, com caixinhas de leite, gesso, pedaços de madeira e tintas doadas. A Cow Paródia foi uma crítica à falta de incentivo à cultura no município.

Outra crítica à CowParade diz respeito à concentração das vacas em locais mais “chiques” das cidades, com a exclusão das periferias. Alguns estudantes reclamaram da distância das vacas expostas e suas reivindicações foram atendidas. A vaquinha hip hop da Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, foi removida para a estação Capelinha, no Capão Redondo, -temporariamente-.

Mas há problemas que nem mesmo as áreas nobres estão a salvo: nem a vaquinha chique (de café nespresso de máquina) da famosa rua das grifes paulistanas Oscar Freire escapou das enchentes na cidade de São Paulo.  A vaca surfou na enxurrada, sendo salva por transeuntes.

Interagindo ainda mais intimamente com as vacas…

Um belo dia, uma vaquinha exposta na famosa Avenida Paulista acordou com um touro de isopor por cima dela! O touro tinha um sorriso maroto e fazia referência ao Touro Bandido, de fama nacional. A intervenção foi realizada pelo artista Eduardo Srur. Nas palavras dele, “a vaca ficou estéril e o touro cria uma inseminação artística nela”. Abriu-se inquérito para investigar ação do artista.

Mas nem as referências do controle social e da repressão passaram incólumes. Nos últimos dias circulou na internet a foto do policial militar simulando um ato sexual com uma vaquinha enquanto fazia a ronda do centro da cidade de Florianópolis, nos arredores do mercado público. A polícia militar de Santa Catarina abriu sindicância para apurar o caso e os PMs envolvidos na brincadeira foram afastados.


O artista da vaquinha “atacada” se sentiu mais ofendido com o roubo do brinco, ocorrido nos primeiros dias de exposição, do que com a ação do PM na madrugada. Só que ele está esperançoso, com a expectativa de que, com a repercussão na mídia, os empresários fiquem mais interessados em sua vaca, fazendo com que ele consiga vendê-la por um alto valor no leilão.

Artes…

A intenção aqui não é querer atribuir a priori uma função para a arte. Ocorre que tentar separar a arte de questões políticas, religiosas ou sexuais, tal como estabelecia o regulamento, é artificial. A arte pode sim ter uma dimensão de decoração e de entretenimento, mas ela também pode ter a potencialidade de causar no público o questionamento e o desconforto.

A CowParade, movimento artístico que, muitas das vezes, demonstra caráter ornamental e mercantil, no momento em que vai às ruas, enseja reações dos espectadores. Nessa interação, o espectador pode deixar de ser elemento passivo para também aproveitar aquele espaço para se expressar. E aí não há como impedir expressões de cunho sexual ou político, expressões essas profundamente humanas, profundamente artísticas. O interessante é que não só os desenhos nas vacas, mas também as histórias que as cercam, passam a ter destaque.

E, assim, a arte pública, produzida no interior dos ateliês e só depois levada aos espaços públicos, mostra todo seu potencial de se tornar arte (e protesto) de rua.

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