Preparar, apontar, e …fogo! A guerra da Troika (ou contra a Troika)

Por João Vitor Loureiro

Uma democracia sem demos, comandada por um Papa.

Preparar, apontar e…fogo! A Grécia vive um dos palcos mais ludibriosos que o capitalismo já produziu. Quem diria que as contradições históricas iriam acirrar-se de tamanha maneira, e as inúmeras roupagens que o modo de produção capitalista assumiu desembocariam na tragédia  grega do presente. Quem diria que Atenas, berço da democracia ocidental, veria sua dita democracia levada como projeto instrumental a serviço de vorazes interesses do capital especulativo e financeiro internacional, pervertendo-se por completo aos sabores das crises sobre as quais se apostam lucros altíssimos.

Image

Preparar, apontar, e fogo! As chamas da hipocrisia consomem o palco político do Parlamento Grego. Lucas Papademos assumiu o governo interinamente em novembro de 2011, como num passe de mágicas, sem trajetória política, atuação parlamentar ou destaque como ministro de Estado. Sua trajetória destaca-se no campo financista, tendo sido presidente do Banco da Grécia e Vice-Presidente do Banco Central Europeu. Como panaceia para a crise das finanças, foi-lhe depositada a confiança em conduzir um governo que colocaria a técnica no altar da infalibilidade, reproduzindo a insofismável verdade dos números: a crise é do Estado grego, a crise das finanças é um problema de má gestão, o endividamento crescente é um problema que põe em risco a credibilidade dos investimentos no país. Para solucionar num passe de mágicas essa plêiade de problemas, Papademos sucedeu Papandreou com um papo reto: exigiu que ambos os partidos com maioria no parlamento, o PASOK, dita esquerda democrática (Movimento Socialista Pan-helênico) e a Nova Democracia, centro – direita liberal, compusessem o gabinete interino que assumisse. Garantiu assim uma ampla aliança no parlamento, devotando seus esforços à urgente necessidade de “salvar” a Grécia de sua fatídica condição.

Assim foi ungido pelo Parlamento no dia 10 de novembro passado, congregando forças políticas apavoradas com a possibilidade de moratória do país e sua exclusão da Zona do Euro. Vejamos que a primeira depende, em maior medida, de uma decisão soberana do governo, enquanto a segunda depende de uma decisão externa: das instituições dirigentes do Bloco. Isso explica, senão justifica o poder de pressão e a espera por respostas imediatas que as cabeças da União Europeia, e mormente o governo alemão, têm imposto à Grécia. Papademos papou amplo apoio cego, ao discurso repleto de falácias, que aponta todos os dedos de culpa à população grega.

Preparar, apontar e fogo! Os esforços das medidas de Papademos convergem na penalização do lado mais fraco da corda, a população, a quem direitos e conquistas históricas reduzem-se a pó e migalhas diante do chacoalhar dos gigantes da te(cn)ocracia financeira. Uma tecnocracia em que a autoridade de seus argumentos se vale também da imediatez chantagista de ajudas financeiras do Bloco, que parecem resolver toda sorte de dilemas, caso as concessões tidas por imperiosas sejam adotadas.

Uma crise de autores e beneficiários

Uma bolha de especulações feitas com o mercado imobiliário norte-americano, e com outras economias, acreditou, durante muito tempo, que o boom do crescimento econômico podia ser mantido por apostas cegas. Agigantou-se um amontoado de títulos, papéis e valores, que jamais tiveram lastro no crescimento real das economias planetárias rigorosamente conectadas. Que produção, que consumo, que cadeia causal crescente e dinamizante existiriam em populações cada vez mais em vertiginoso declínio, como as do bloco europeu?

A capacidade que bancos têm de captar recursos a juro próximo a zero em fundos públicos, e repassar esses mesmos recursos para a venda de títulos a seguradoras e fundos é embasbacante. Certamente, no momento em que a roda do sistema é girada por grandes financistas que, na maior parte das vezes financiam oportunidades de lucro fácil, e na menor parte das vezes a produção, os efeitos não podem ser outros senão o estourar da bolha e a bancarrota.

Preparar, apontar e fogo! Assim é que os governos europeus se comportaram diante de seus fundos de reserva. Puseram fogo nota por nota dessas reservas, num compromisso lamentável com bancos e um descompromisso por isso mesmo lamentável com suas populações: dia a dia o campo de debate político é invadido por ideias e discursos à direita, que insistem em apontar culpados do infortúnio da crise à população, aos altos custos de políticas públicas sociais, ao Estado social e a programas que onerariam por completo a saúde das finanças de suas economias.

Image

Quem está a pagar o altíssimo preço da crise, mais uma vez, é a própria população.

E a corda, certamente, está a se romper do lado mais frágil: Grécia, Portugal, Irlanda, Islândia – que ameaçou cambalear, mas deu a volta por cima em um criativíssimo processo de recusa aos imperativos artificiais arquitetados pelos autores da ordem, que frequentemente se vestem com as artimanhas do desespero. http://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2012/01/18/a-resposta-da-islandia-a-crise-a-invencao-democratica/.

Ensaio da combustão

Preparar, apontar e…fogo! A crise na Grécia é um preparo, um verdadeiro ensaio de experiências completamente arrasadoras. Já está claro que passou a fase de afirmação experimental do neoliberalismo: as medidas de austeridade são, nada curiosamente, acompanhadas de uma completa desregulamentação de mercados e liberalização financeira, mistura já venenosa que os gregos tiveram de beber para serem aceitos na Comunidade Europeia. E resultam, também nada curiosamente, na escavação de buracos ainda maiores entre ricos e pobres, na concentração de riquezas e reprodução de desigualdades.

As medidas do novo governo, além de preparar a Grécia para tragédias ainda maiores, apontam a um horizonte nada animador. Qual o custo de permanecer na União Europeia? Sujeitar-se às saraivadas de exigências de ministros alemães? Sujeitar-se ao desespero por um crescimento irreal, às custas de salvamentos irracionais de bancos em apuros exatamente porque conduziram suas políticas de investimento para especuladores de mercados hipotecários, e de títulos sem lastro? Sujeitar-se ao desmantelamento de políticas sociais, direitos previdenciários e trabalhistas, numa farra completa que soma todos os seus esforços para assegurar que bancos jamais declarem suas falências? E que ao mesmo tempo parece envidar, em contapartida, todos os esforços para declarar a falência da dignidade de seu povo, do acesso a direitos essenciais de sua população?

Situações urgentes requerem medidas urgentes. Alguns pragmáticos de plantão dirão que essas medidas de austeridade são as únicas saídas possíveis. Não são. O que a Troika formada pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e o FMI faz é empurrar goela abaixo pacotes de ajustes fiscais e determinações mirabolantes que apontam nada senão a manutenção do modo pessimamente conduzido de organização financeira.

Image

Preparar, apontar e fogo! É claro que diante de uma situação extremamente discutível de medidas também extremamente impopulares, a população grega teve de sair às ruas. Que “destino manifesto” escrito pela vontade das divindades do capitalismo contemporâneo é esse, afinal? Uma ordem inevitavelmente necessária? Que representantes do povo, eleitos em regras e procedimentos ditos livres e democráticos são esses, que à primeira ameaça, demonstram estar do lado não de quem, ao menos em tese, representam, e sim de quem fez da democracia representativa uma grande fábrica de seus negócios?

Fogo, sim. Ele está a queimar dia após dia, em coquetéis molotovs e protestos, prédios e ruas de Atenas. Milhares de manifestantes sabem de sua importância na alteração de processos de condução política em curso. O primeiro ministro, Papademos, num arrombo de empáfia, disse que “a violência e a destruição não têm lugar em uma democracia”.

De fato, numa democracia de verdade, não têm. Mas numa “democracia” esvaziada de sentido, em que austeridade, ortodoxia e medidas declaradas como destinos inescapáveis são empurrados contra qualquer vontade popular, é impossível que as pessoas não respondam com violência – o recurso do desespero e da proteção – a violências diárias a conquistas coletivas e populares. Numa “democracia” instrumentalizada e sem respaldo nos verdadeiros anseios do povo, sem chance que se exija silêncio e mansidão. Numa democracia que transforma direitos em pó, tampouco.

A violência se instaura como último recurso em um espaço carregado por violências legitimadas pelo falseamento procedimental. A Grécia clama por mudanças, e assinala a importância da população na condução dos processos de participação decisória: aos dissabores do capitalismo financeiro, a resposta à crise deve ser dada pela organização popular, soberana e sobretudo criativa, indispensável à ruptura com as amarras institucionais tradicionais, tidas como pressupostas e implacáveis.

Todo apoio à luta dos gregos por dias melhores!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s