Por João Vitor Loureiro
Começou ontem, 25 de janeiro, o 42º Fórum Econômico Mundial, na pacata Davos, Suíça. Reunindo uma plêiade de líderes mundiais (pelo menos 40 Presidentes e Primeiros-Ministros), o encontro tem por tema “A Grande Transformação: Formar Novos Modelos”. O Brasil não será representado por sua chefe de governo, a Presidenta Dilma Rousseff.
“A Grande Transformação” a que o Fórum se propõe debater está inserida no contexto de um sistema desvalido, e nem por isso menos convalescente, de organização da produção. No mínimo curiosa a proposta do debate, que admite a necessidade de novos sistemas capazes de impulsionarem a “grande transformação”. É dizer, admite a possibilidade de resistência e articulação de outras formas de organizar a produção. A pergunta necessária: será mesmo? Que resultados os dirigentes das maiores economias do planeta pretendem alcançar? O presidente executivo do fórum disse que o ponto de partida para essa grande transformação é o “restabelecimento de um sentido global de responsabilidade social”. Contudo, se não pensarmos em uma mudança profunda nesse modelo de produção perverso, que favorece exatamente o lucro de bancos a todo e qualquer custo, e deixa o produtor direto da cadeia produtiva à míngua e total bel-prazer dos bancos, fica difícil pensar em saídas. Se não houver planejamento econômico, se os governos não investirem em condições estruturais para estímulo à produção descentralizada (sendo válidos subsídios, sendo válida a criação de infraestrutura em transportes, sendo válido o estímulo a microcréditos a juros baixos, sendo válido o favorecimento a redes locais de comércio), certamente não é largando aos bancos, e ao completo pavor da selva do mercado do capitalismo monopolista que a economia mundial prosperará e poderá refletir condições de efetiva responsabilização social. Os responsáveis por nada se responsabilizam, e ainda culpam os tais 99% da população restante por seu péssimo funcionamento, com o discurso de que as coisas são assim. É preciso romper essa barreira do discurso legitimador, e apresentar os verdadeiros responsáveis pelo desvalimento, crise e desigualdades sociais assoladores.
Dilma está ausente em Davos, porém presente em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, que acontece paralelamente ao encontro na Suíça. O Brasil não pode firmar apenas seu compromisso com o “Brazil takes off”, como fornecedor de commodities e outros produtos no mercado internacional, como protagonista do crescimento econômico latino-americano, ou como liderança do G-20. Davos não parece sinalizar a esperança no futuro, nem mudanças de pauta: discute-se a crise a partir do discurso da austeridade, da sacrificação de direitos sociais, e da completa irresponsabilidade de bancos, agências de risco e grandes conglomerados empresariais na arquitetura da crise. Permanece imutável o pressuposto de que se deve salvar o capitalismo, e não o planeta. Resgatar a saúde do capitalismo, e não das pessoas. Porto Alegre, sim: sinaliza a verve do que move, da transformação, dos que não se contentam com o dado, dos que pedem transformações. Movimentos sociais descortinam as tensões evidentes, propõem a polarização necessária, desenham causas dos grupos historicamente oprimidos, revelam a luta social legítima, sobretudo num contexto democrático. Destampam a verdade que comove as ruas e as pessoas comuns. Esse passo é fundamental. Fundamental que Dilma esteja em Porto Alegre, e não em Davos. Trata-se sim de ouvir o chamado de atenção que os insatisfeitos com o processo de “desenvolvimento” brasileiro, em curso os últimos anos, fazem. Processo que incluiu muitos, mas ainda exclui outros tantos. É preciso ouvi-los. O passo fundamental de um governo que se pretenda verdadeiramente democrático é entender as demandas que afligem as pessoas, organizadas em torno de pautas. O Brasil dito “em desenvolvimento” só pode ver a conquista de direitos e o efetivo desenvolvimento num espaço em que os agentes políticos e institucionais estejam dispostos a ouvir e entender os problemas fundamentais de seu povo. A leitura da realidade (enquanto sujeita à mudança) é precisa se social – entender os processos, agentes e transformações, sensibilizando leitores e protagonistas para a mudança – e é cega se economicista, matemática, disposta em regras estanques.
A “Grande Transformação” começa por aí.