Luiza, o Canadá e a besteira virtual

Por João Vitor Loureiro

A velocidade com que memes tomam o espaço virtual demonstra a poderosa virtude da Rede mundial de computadores: a sociedade de informação partilha, na velocidade multiplicadora das redes, diferentes informações, para as quais são conferidos diferentes usos.

Até aí, tudo bem. Não podemos nos esquecer da importância que assumiu a internet em 2011, especialmente nos espaços virtuais de mobilização de passeatas, protestos e manifestações, que sacudiram países árabes, Wall Street, Puerta Del Sol ou acresceram algumas pessoas a marchas pelas ruas nas cidades brasileiras. A internet bradou com isto sua própria negação, na medida em que o espaço virtual passou a afirmar o espaço real: as mudanças concretas estão no outro lugar, ou-topos, fora dos cyberespaços. A utopia é real, e a verdade está lá fora. Contudo desvelar essa verdade, mobilizar os adormecidos, despertar os interesses tem sido muito realizado graças a esses cyberespaços. A verdade está lá fora, mas começa a se revelar na arena do debate público, divulgado dentro de casa, mesmo que internet ainda seja artigo de uso restrito: apenas um em cada cinco habitantes do planeta despendem horas de suas existências em e-mails, websites, blogs e redes virtuais.

Se estamos num período de ameaça concreta dessa mesma liberdade potencializadora que a Internet nos oferece, por meio do Stop On-line Piracy Act (SOPA) e do Protect Internet Protocol Act (PIPA), projetos de lei em discussão no Congresso dos Estados Unidos da América, não podemos por outro lado esquecer que alguns usos a que se dá à informação disseminam, ou acabam por disseminar, estilos de vida, comportamentos e discursos carregados de conservadorismo. Exemplos não faltam: do “Lula, vá se tratar no SUS” às saraivadas de frases anti-nordeste no twitter ao final das eleições de 2010, da “massa cheirosa de Eliane Catanhêde” às postagens de Rafinha Bastos ou mesmo de Danilo Gentili no twitter, o que se observa são leituras dotadas de uma forte carga conservadora, racista, excludente, sobre quais seus autores tentam conferir outro tom por meio de toques de um humor que tenta amenizar suas enormes pejoratividade e ignorância.

Seja como for, o meme de Luiza no Canadá é exatamente o oposto disso. Não se trata de uma tentativa do autor do vídeo de  forçar humor ou graça em discurso ou ideia carregada de discriminação social ou racial, mas exatamente o contrário: o público é que enxerga humor num discurso que originalmente não foi elaborado com essa finalidade. É dizer: fazer troça com a besteira comezinha, denunciar a decrepitude de visões deturpadas sobre a realidade e banalizar com inteligência velhos hábitos em franca decadência em nossos dias.

Exagero? Alguns dirão que sim, que a graça de Luiza no Canadá está simplesmente no fato de podermos formular quase qualquer outra frase antes de “menos Luiza, que está no Canadá” para que faça o paradoxal sentido non sense do humor nestes tempos. Quer ver? “Eu gosto de escrever sobre política, menos Luiza, que está no Canadá.” Ou então: “Comprei maçãs, menos Luiza, que está no Canadá.

Contudo, não penso que seja exagerada uma outra leitura, que se agrega a essa. A leitura de crítica social por detrás da construção dessa forma de humor. Pensemos: um senhor branco, no “alto” de seus empreendimentos imobiliários, chefe de família paraibana, sentado em sua confortável poltrona anunciando seu mais novo investimento. “Boulevard Saint Germain”, mais uma torre de marfim das metrópoles brasileiras, onde se encastelam as famílias de que representa nosso papai-propaganda. “Saint Germain”! Com nome que até parece de castelo europeu. Não bastasse esse elogio à sua condição pequeno-burguesa, completa com a frase: novo endereço da sociedade paraibana. A sociedade da Paraíba passa a ter um endereço? É minimamente cômica essa mundivisão autorreferenciada, não rara em classes sociais em ascensão ou revestidas de privilégios: colocam-se no centro de toda a existência, e todo o resto somente pode ser afirmado a partir dessa existência. Sociedade torna-se palavra ressignificada – como se fosse um clube privativo de sócios, e nada mais. À parte da descrição dos luxos e confortos do empreendimento imobiliário, com piscinas, áreas disso e daquilo e quartos desse ou daquele tamanho, papai-propaganda faz questão de reunir sua família, menos Luiza, que está no Canadá (e é preciso frisar o valor do que é fazer parte do private-club-high-society-parahyban way of life: uma filha em intercâmbio no exterior é motivo para muito orgulho e divulgação), para anunciar mais uma de suas “grandes conquistas”: um apartamento no Boulevard Saint Germain.

Essa é a verdadeira miséria cultural que vivem alguns grupos de nossa sociedade. Alcançam o extremo do ridículo ao anunciarem esses valores e visões de mundo em franca decadência. Frisam auto-elogios à sua própria frivolidade, caídos na banalidade dos processos que a própria massificação social empreende. Quem se importa se Luiza está no Canadá? Tragicômica a importância que o pai dá à frase que brota no meio do comercial, sem propósito muito claro senão o de dizer quão diferenciada é sua gente, sua família. Só que não.

O fato de que apenas uma frase idiota tenha alcançado essa massiva expressão virtual nos diz muito. Diz quão permeáveis as pessoas estão com relação a leituras possíveis. Atribuir a característica de que a frase é idiota, simplesmente, já abre espaço a um debate importante: por que é idiota? O contexto na qual foi elaborada, também não seria idiota? Num país onde direito à habitação ainda se faz privilégio de poucos, em que medida vangloriar-se da diferença, explorar sentido em status social “diferenciado” não é também idiota?

Tais possibilidades de debate do que cai na rede podem constituir importantes passos para a transformação necessária. Denunciar velhos hábitos, práticas civilizatórias em decadência, despir de preconceitos e conservadorismo suposto humor cuja suposta graça está em constatações exatamente preconceituosas e conservadoras, tornando-o nada humorístico, são alguns dos fantásticos usos que podemos conferir à internet. E temos conferido.

Menos a Luiza, que está no Canadá.

8 respostas em “Luiza, o Canadá e a besteira virtual

  1. Ela chegou do Canadá, e falou por telefone com o Bom Dia Brasil (que eu tomava por jornal sério), participou do Globo Esporte (em que um apresentador tinha dito que “pagaria a passagem dela de volta, pra acabar com a piada”, entre risos), e ainda do Jornal Hoje, em que o Evaristo Costa fez questão de tirar uma foto com a Luíza, no backstage.

    O que me choca é a menina ter voltado do Canadá, e algo absolutamente sem graça, sem eira nem beira, ir parar nas manchetes de nosso jornalismo… é a popularidade barata que os “brothers” ganham ao entrar e sair da casa e é ainda pior porque a dita Luíza não fez, pensou ou falou nada para se tornar o ícone que virou. Ela simplesmente é um “non-sense” na necessidade de auto-afirmação de seu pai.

  2. Fazia algum tempo que não passava aqui no blog, mas realmente tenho que dar os parabéns por este texto. Muitíssimo bem escrito e pertinente. Só faço uma ponderação, que me ocorreu depois de uma primeira interpretação bem parecida com a sua, acerca do destaque que o pai concedeu ao fato de Luiza estar fora, no Canadá. É possível, até provável dado o contexto (trata-se de um colunista social), que ele realmente tenha desejado vangloriar-se do fato de que sua filha estava fora, fazendo intercâmbio, nas “estranja”. É algo que remonta ao tempo em que os coronéis nordestinos enviavam seus rebentos para se doutorarem no Rio, ou em Coimbra, na “Corte”… Mas é possível, também, em decorrência dos mesmos traços característicos da “tradicional família nordestina”, que, na verdade, ele não quisesse se referir à sua família ali reunida como completa, sem Luiza. Digo isso porque venho de família nordestina e a falta de cada membro em qualquer reunião costuma ser bastante ressaltada, no estilo “Ah que lindos seus netos, D. Fulana”. “Obrigada, estão todos aqui, menos Ciclaninho que está fazendo algo realmente relevante para não estar aqui”.
    Enfim, é o benefício da dúvida para não pesar a mão na crítica. Ainda que a crítica seja provavelmente pertinente também nesse ponto!

  3. Excelente texto, enfim algo interessante para ler, é muita baboseira que enviam para as redes sociais. Acredito que deveríamos aproveitar mais nosso tempo e não desperdiça-lo com coisas que não venha a contribuir com uma melhor educação, saúde de qualidade e até com um lazer prazeroso, e não estou falando de não compartilhar nossos momentos em família, trabalho, amigos etc. É como muito bem cita o autor do texto, às vezes estamos contribuindo com pessoas preconceituosas e conservadoras e nem nos damos conta, só porque é uma rede social e muita gente está fazendo, vou e faço também sem parar para refletir, fazer uma leitura crítica daquela ação.

  4. Pautar a Luiza na TV pode não parecer sensato do ponto de vista do que achamos que deva ser o objetivo do “grande jornalismo”, mas, se considerarmos que a TV brasileira foi criada com bases comerciais e em crescente crise por conta da perda de audiência para a internet, não é de se esperar que esta polêmica pauta seja, no mínimo, inusitada. É uma tentativa de se aproximar do público. Uma tentativa inteligente.

  5. Pingback: I don’t wanna live on this planet anymore. « PET Direito UnB

  6. Essa é a cultura fraca do nosso pais, qualquer coisa eu digo qualquer coisa mesmo se torna manchete ate no jornal bom dia brasil que no meu ver era um jornal de mto prestigio, isso me espanta e da muito medo do futuro do nosso pais, coisas seria vai ficando pra tras como o desvio(roubo na cara de pau) de quase 1 bi nos ministerios

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