Os invisíveis do DF

por Danniel Gobbi

 

É incômoda a forma com que naturalizamos a pobreza, a exclusão social, a desigualdade e aceitamos a existência de políticas públicas perversamente segregacionistas. Invisibilizamos os moradores de rua, as milhares de crianças sem creche, as longas filas do SUS para aceitarmos que o governo gaste alguns milhões todo ano com a decoração de natal e perfumarias para os cidadãos mais abastados.

No Distrito Federal, o Governo Agnelo replica a mesma política de seus antecessores. Mesmo depois de comprovado todo o esquema de propinas que levou à aprovação do PDOT, um bairro ainda inexistente, sem possuir sequer um morador, recebe uma moderníssima infra-estrutura de saneamento básico e asfaltamento. Ao mesmo tempo, centenas de milhares de pessoas, no DF, vivem em regiões sem pavimentação ou saneamento.

Quando o Governador autorizou R$ 4 milhões em gastos na decoração de natal e negou vagas em creche a cerca de 50.000 crianças, ele demonstrou, com clareza, para quem governa. Parece-me o mais sensato que não desperdicemos dinheiro acendendo luzes de natal, enquanto houver pelo menos uma criança que não tenha acesso a uma creche ou viva nas ruas de Brasília.

Sabemos que os programas de arte, cultura e esporte são poderosíssimos instrumentos de proteção social e têm se revelado muito mais eficazes na redução da vulnerabilidade de jovens em situação de risco do que o fortalecimento do aparato punitivo. Ainda assim, o GDF opta por fazer, em seu I Festival Internacional de Artes, uma programação gratuita inteiramente dedicada à elite econômica de Brasília, que pode pagar pelos bens culturais que consome. Como se não bastasse, A Secretaria de Cultura reservou 30% dos assentos para os funcionários do próprio governo.

É desalentador ver um governo que se diz de esquerda repetir as mesmas escolhas segregacionistas e elitistas de seus antecessores. Talvez o faça, porque seja composto pela mesma base política dos governos anteriores ou porque não possua nenhum projeto de modificação social como se esperaria de um governo que se afirma de esquerda.

Não sabemos quantas crianças, adultos e idosos vivem abandonados em nossas ruas, nem sua história de vida, sua origem e as razões porque foram parar ali. E pouco importa sabermos, se nada faremos por eles. Nossas prioridades foram subvertidas e um estado de coisas indesejáveis se tornou natural, porque tornamos invisíveis nossos problemas sociais. Continuamos sem escola, sem creches, sem vagas em hospitais, sem fomento à cultura na periferia, mas como em todo bom circo, o show tem que continuar.

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