Efeito Tonton Macoute

Por João Vitor Loureiro

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Tonton Macoute é o nome dado, em crioulo haitiano, aos grupos paramilitares que obedeciam aos ditames de Papa Doc, e de seu filho, Baby Doc, ao longo dos anos 60, 70 e 80 do século passado, em que governaram a porção ocidental da ilha de Hispaniola. A palavra pode ser traduzida mais ou menos como o homem do saco, ou bicho papão no acervo cultural da língua portuguesa.

Deixando um pouco de lado a real faceta dos horrores das ditaduras haitianas do século passado, atenho-me à figura do tonton imaginário, criatura que faz o presente, ausente, que torna o existente, desaparecido, que faz do aqui, lá, em um outro lugar. Do mesmo modo que os tontons reais, responsáveis pelo desaparecimento de centenas de milhares de haitianos ao longo daquelas três décadas. Toda criança algum dia teve sua mente povoada pela figura do bicho papão, criatura indescritivelmente perversa, que levava consigo um saco nas costas, no qual enfiava moleques aborrecidos, malcriados, desobedientes para uma toca qualquer, onde em algum momento saciaria sua fome por fedelhos frescos.

Esta figura toma outras formas no tempo presente. Que começam a povoar também o imaginário de adultos, e não somente de crianças. O tonton real é perigosamente criativo e sedutor: vende uma imagem de sonhos e fantasias por meio de produtos mil, heróis cujo heroísmo está suportado por grandes patrocinadores de times e camisas, nações esplendorosas e paradisíacas, onde a felicidade deita no esplêndido berço do crescimento de um colosso adormecido.

É essa imagem que começa a ser construída num país arrasado pelos seculares flagelos do escravismo colonial, pelo jugo de ditadores e governos corruptos articulados por artimanhas estadunidenses, e por abalos sísmicos de grande magnitude. É essa imagem que passa a ser construída também por conta da presença militar brasileira no Haiti.

Desde 2004, quando o Brasil tomou parte da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), sob decisão do governo Lula, mais de 15 mil militares das três forças foram enviados ao país. Hoje, são cerca de 2.200 que trabalham nas frentes de reconstrução, segurança e acesso a serviços essenciais. Apesar da clara intenção do Ministro Celso Amorim em retirar as tropas ao assumir o Ministério da Defesa, o que se vê é a ainda forte presença brasileira no Haiti, o que tem feito o Brasil despontar ainda mais no cenário de cooperação inter-regional das Américas, como uma espécie de novo-imperialista.

Não é à toa que nos últimos anos despontaram fluxos migratórios consideráveis de haitianos para o Brasil, o que ocupou alguns dias de reuniões ministeriais no Planalto. A presença de militares brasileiros no Haiti pode fazer os olhos de populações brilharem de esperança,  populações ainda completamente reféns de um cataclismo social, onde epidemias de cólera vem e vão, pessoas ainda habitam em muitos acampamentos de refugiados, e uma poderosa elite vem expropriando e se aproveitando do caos para ampliar a ordem de trabalho escravo e se enriquecer ainda mais.

Esse cenário desperta, é claro, a necessidade por mudança. Para alguns, a mudança revolucionária, da qual foram expoentes alguns levantes comunistas ao longo da recente história haitiana e o consequente pavor dos EUA, que fez mobilizar um enorme contingente militar para o país. Para outros, a mudança pela mudança, nos termos da materialidade concreta da “vida melhor” no capitalismo: acesso a bens de consumo, à vida onde há heróis, e não apenas vilões, onde as pessoas parecem felizes e cooperativas, onde as chances se multiplicam e a paz parece reinar. Deixam-se, portanto, levar pela antropofagia contumaz do sistema.

Entra em cena nosso tonton macoute, com seu saco nas costas, levando almas pra lá e pra cá. O Brasil novo-imperialista desponta com soldados cooperativos, um poder cativado pela simpatia, pela simples identidade entre um país e outro, pela ajuda prestada, e sobretudo pelo que chega ao Haiti em forma de revistas, livros, notícias, fotos, que desenham o Brasil paradisíaco, o Brasil que “takes off” economicamente, o Brasil que parece inverter a ordem tão banal da hierarquia mundial onde os sonhos estão na metade norte do globo.

O tonton deixa de ser o monstro para ser uma cratura repleta de beleza e sedução, para povoar a cabeça de haitianos com a linda imagem de sonho e esperança, galanteio e chances. Nosso tonton é transvestido numa belíssima imagem.

Mas é claro que ao chegarem aqui, os imigrantes haitianos se deparam com uma outra criatura: incapaz de receber tantas pessoas de uma só vez, com uma estrutura precária de atenção a imigrantes, com serviços públicos e organizações da sociedade civil deficientes ou incapazes de atender à crescente demanda nos estados e municípios que os recebem. Tonton macoute mostra então sua verdadeira identidade, garras, dentes e problemas.

Passa a ser controlada a entrada de imigrantes haitianos no Brasil. Muito mais que um compromisso assumido com os direitos humanos e com a solidariedade internacional, o governo assume um compromisso com a pragmática esfera do possível, ao controlar tal ingresso. E reafirma sua posição estratégica (e novo-imperialista) no Haiti, ao anunciar a visita da Presidenta Dilma ao país e projetos de cooperação em ações sociais que possam ajudar na sua reconstrução. Tonton macoute, pelo menos por ora, descansará.

3 respostas em “Efeito Tonton Macoute

  1. É interessante que o Haiti foi a colônia mais rica das américas no século XVIII, e como as políticas das potências imperialistas, primeiro a França e depois os EUA influenciaram na situação do país atualmente. Por meio de constantes e normalmente violentas intervenções, e implementação de políticas que destruíram a agricultura e impediram qualquer desenvolvimento no país, o país se tornou na catástrofe que é hoje.

    O terremoto de 2010 veio como desculpa perfeita, principalmente nos círculos intelectuais, para justificar todo o sofrimento dos haitianos, como meio de ignorar totalmente as acontecimentos por lá nos últimos séculos.

    O Haiti necessita não de forças militares, mas de uma massiva ajuda para pelo menos amenizar o sofrimento do povo haitiano. Uma indenização por parte daqueles que o destruíram faria total sentido num mundo que respeitasse leis internacionais, mas naturalmente não vivemos nesse mundo.

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