O peso da cor

Por João Vitor Loureiro

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1029481-policia-investiga-expulsao-de-menino-negro-de-restaurante-em-sp.shtml

Trezentos anos de escravaria institucionalizada e uma grande hipocrisia sobre o estereótipo da nação multicultural, linda mistura de raças que sabe conviver e respeitar as diferenças. Grande hipocrisia diariamente constatada por muitos fatos corriqueiros, e ainda por outros retratos pintados por veículos de comunicação, como foi o caso do menino etíope, filho de pais espanhóis, enxotado do restaurante zona sul paulistano.

Ganhar as primeiras páginas de jornais, manchetes e linhas com o assunto, e um inquérito aberto contra o indiciado pode ter sido muito do que os pais esperavam numa situação tão desagradável como essa. Mas nos traz algumas reflexões: e se fosse “apenas mais um menino de rua”? E se fosse “apenas mais um menino mudo”? Teria o funcionário do restaurante que expulsou a criança agido da mesma forma? Como se identifica um garoto de rua?  Foi com os argumentos de ocultamento da questão central que o suposto agressor teria se defendido da indiciação de crime de preconceito racial: o garoto nao teria respondido nada  (seria mudo), e teria sido confundido com um menino de rua.

Seguem a mesma linha de raciocínio os argumentos de que muitos representantes da classe média frequentadora do restaurante Nonno Paolo, cenário do suposto crime, se valem para ocultar uma questão central na sociedade multirracial brasileira. Essa linha segue a lógica do ocultamento. Basta ocultar seculares discriminações a que foram colocadas pessoas por serem negras. Discriminações que caíram feito luva em sistemas que dependiam de exploração econômica: estruturas de dominação somente existem se legitimadas por discursos. Assim foi com a escravidão na América portuguesa, assim foi (e ainda o é) com a perseguição a religiões de matriz africana, assim o é com o insistente e apopléxico discurso contrário às cotas raciais: um discurso que quer entopir a veia de livre – e aqui falo de liberdade substancial, na qual há condições semelhantes àqueles em condições desiguais- acesso de pessoas a universidades e outras instituições públicas.

Legitimar a desigualdade é ocultar suas verdadeiras razões, tornando-as menos importantes. A questão social brasileira é sobretudo uma questão racial: “o menino de rua” é mais menino de rua porque preto. O estudante de escola pública não aprovado no vestibular da universidade federal é sim mais não aprovado porque preto. A atriz da novela usando avental é mais empregada doméstica porque preta. O “meliante” “enquadrado” por policiais diariamente em rondas noturnas na Zona Sul é mais “meliante” porque preto.

Pensar que os problemas de tanta hipocrisia (sim, hipocrisia significa desempenhar um papel na origem grega da palavra) são somente uma questão de mérito, ou da desigualdade de poder aquisitivo entre as pessoas é cego. Os papéis sociais que desempenhamos na vida nas sociedades humanas são resultado dos discursos que desenham e legitimam  esses papéis. E, enquanto houver entre os diferentes papéis uma relação vertical, hierarquizada, prestigiada, e de força, permanecerão com os atores de papéis superiores e prestigiados nessa escala vertical, seu protagonismo e a tentativa de ocultar os demais atores em cena. E ocultar, por consequência e via de regra, as razões pelas quais os colegas de palco ali estão.

Minha maior preocupação não é com o guri preto da Etiópia. Afinal, quantos outros garotos pretos não filhos de estrangeiros são enxotados dariamente em estabelecimentos frequentados por consumidores das classes C, B, A? A notícia não nos traz nenhum retrato novo sobre o que seja discriminação racial. Minha maior preocupação é com o leitor branco da Folha de São Paulo que, num arrombo de senso justiça, lendo seu jornal no café da manhã, esbraveja “absurdo!” ao se deparar com a reportagem e, em seguida, após ligar seu carro e receber a ligação desolada de seu filho não aprovado no vestibular porque um candidato à cota ou bônus racial teria, segundo suas palavras, sido “privilegiado”, fica fulo da vida. Para o leitor esbravejante e justiceiro, a cor tem um peso e duas medidas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s