Então é Natal…

Por João Vitor Loureiro

Menos que uma data de boas-novas, o que a civilização ocidental reproduz no 25 de dezembro é exatamente o way of life do consumo. Isto significa que nenhuma data no calendário gregoriano impulsiona o consumo de tantas quinquilharias quanto o Natal: de toalhas de mesa a perus, de árvores de plástico a bolinhas e luzinhas, de brinquedos a fantasias de papai noel. É precisamente o Natal a data que coloca no pedestal, como numa espécie de altar místico, as bases das economias capitalistas e o modo como suas sociedades estão organizadas: famílias e consumo, em uma relação quase matrimonial, para os quais se devotam toda esperança de que o ano vindouro será repleto de sua prosperidade.

Certamente, as grandes famílias formadas nas caronas do desenvolvimento do século XX tenderão a desaparecer. A tendência demográfica das populações industriais é a desaceleração de seu ritmo de crescimento, conforme já nos sinaliza o século XXI, apesar de o planeta jamais ter abrigado uma população tão grande. 7 bilhões de seres humanos.

Essa perspectiva de diminuição do crescimento das populações coloca de modo claro um dilema às economias capitalistas: como garantir crescimento suficiente para que todos possam estar empregados, se as populações não mais crescem como antes? A saída parece ter sido a via do consumo: novos padrões são inventados diariamente para atender a esse imperativo pelo crescimento. Uma série de novos aparelhos de comunicação, como celulares digitais, microcomputadores são inventados diariamente, roupas de muitos estilos invadem passarelas e coleções de grandes magazines, modalidades esportivas são repensadas e recriadas para empurrar demandas por aparelhos e instrumentos, a sexualidade humana é “invadida” por toda sorte de objetos especialmente criados para apimentar ou inovar relações sexuais, aparelhos eletrodomésticos recriam noções de conforto no lar, viagens dos sonhos tornam o planeta cada vez menor e os sonhos mais ávidos por novas descobertas.

Preocupante, no mínimo, são as consequências desse modo de oportunizar o crescimento. Preocupante porque aos padrões inventados pela própria sociedade de consumo, tentam aderir-se outros seres humanos desesperados por estarem excluídos dessa fantasiosa atmosfera de mercadorias, que gravitam em rota de colisão com a subjetividade. Isto quer dizer que numa sociedade onde o consumo já consiste em premissa, apenas estarão destacados dos demais consumidores aqueles que conseguirem consumir o que os demais ou a enorme maioria deles não consiga. Afirmação de existências por meio de uma cartesiana separação entre ser comprante de coisa comprada que, em última instância, torna-se embaçada pela necessidade de tornar a própria subjetividade também mercadoria: vendável pela força de trabalho, vendável pois sem nada vender nada comprará.

Esse alerta muito claro decorre dos desejos materiais inventados e divulgados massivamente a muitas classes, por campanhas publicitárias as mais variadas. Significa que os esforços de trabalho (e disto não duvido, pois a experiência diária me diz muito a respeito: o grande número de famílias endividadas por crediários e carnês de quinquilharias que jamais conseguiriam pagar com o que ganham mensalmente) das pessoas estão envidados para o propósito de afirmarem sua existência material por meio do que consomem.

E que significa isso? Que o consumo, mesmo que varie conforme a renda das famílias, empurra homens e mulheres aos diferentes mundos do trabalho. Não se trata mais de um modelo que prega apenas condições dignas para a reprodução da vida material, mas de um modo de organização da vida social que enreda todos os envolvidos numa rígida trama: se todos consomem, farão o que for necessário para tanto. E daí, necessariamente, decorrem os abusos, as absurdas sobrecondições de trabalho, as jornadas estafantes, os subempregos e toda sorte de atropelar de direitos trabalhistas.

Não se trata de uma opção fácil. Mesmo o Brasil tem encarado a via do consumo como via para o crescimento, o que tem consequências dramáticas. Excedem-se os créditos, multiplicam-se devedores e inadimplentes escravizados pelo desejo que jamais puderam conquistar, abocanham os bancos grossas fatias desses endividamentos, em prol de um modelo que cresce mas multiplica aquelas mesmas condições ruins de trabalho e que favorece as grandes empresas em sua tarefa cotidiana de inventar desejos e conquistar consumidores. A irracionalidade do movimento concentrador e creditário vai multiplicando-se enquanto pode. Até o dia em que quem o financia não mais o puder fazer.

E o natal, pode ser que esteja realmente sem graça este ano, como ouvi alguns dizerem. Já tem estado sem graça faz anos, na verdade. No Japão ou na China, enchem-se as ruas, shoppings e hotéis da “graça” natalina ocidental: árvores, bolas, noéis. Em tempos de recessão econômica, “graça” ganha o significado de fartura e excesso pelos quais todos procuram. E em tempos de recessão, o casamento entre alto consumo e grandes famílias já não parece ser, ao menos nos países de economias centrais, o mesmo mar de rosas de anos atrás.

Uma resposta em “Então é Natal…

  1. Acredito que podemos separar duas conseqüências claras do consumismo em nossa sociedade: a primeira delas é clara tentativa de transformar seres humanos em máquinas consumidoras exclusivas, extirpando muitas das características das pessoas como a criatividade e solidariedade. As duas podem ser facilmente observadas em crianças, o que é evidência clara que são inerentes à nós. Mas o que é martelado na mente de todos constantemente não remete a isso, mas à ideia que o objetivo central das nossas vidas deve ser o acúmulo de riqueza e nada mais.
    Outros aspectos aparecem associados a esta ideia, o que leva principalmente à segunda conseqüência do consumismo, que é o efeito no meio ambiente desta prática. Um destes aspectos consiste no fato que, apesar da maioria das pessoas construirem planos de longo prazo, este sistema não se preocupa com isto. Qualquer instituição que tem como objetivo gerar lucro, deve faze-lo no curto prazo e não se preocupar com as conseqüências. No caso puramente econômico, a falta de regulamentação provoca o colapso periódico do sistema, que é resolvido pela socialização dos prejuízos das instituições diretamente ligadas ao problema, em geral. Claro que isto não soa bem, assim chamamos a medida de “pacote econômico”. O problema com o ambiente é que tal medida não existe. Os recursos da terra não são utilizados seguindo uma ideia de sustentabilidade e planejamento de longo prazo, mas o contrário disso. Assim como na política econômica, as conseqüências da exploração de recursos não liga se isto vai provocar sérios danos ou ameaçar a vida das próximas gerações, isto simplesmente não é relevante.
    Assim, pode ser que além de remover características naturais do ser humano, o consumismo pode até destruir os recursos da terra em um nível que ameaça nossa existência.

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