Um Pará, vários Brasis

Por João Vitor Loureiro

O plebiscito realizado no Estado do Pará no último dia 11 de dezembro não foi apenas um resumo do óbvio ou do esperado, como muitos dirão. Trata-se, na verdade, de uma fotografia oportuna do Brasil recente, na qual a interpretação mais significativa é a de que o olhar raso das grandes mídias é suficiente para se construir talvez um – que me perdoem os antropólogos e historiadores pelo uso do termo – imaginário coletivo sobre o desconhecido e nem tão impávido colosso chamado Brasil.

Muito menos que um voto de desconfiança no federalismo tradicionalmente encarado como avesso à história da formação política do país, a vitória do “não” ao desmembramento do Pará desova o drama mais atual da jovem democracia brasileira: os debates reduzem-se a uma miopia induzida pela comunicação superficial das grandes corporações midiáticas e os interesses que as movem.

Em que contexto? Há um retrato descomunal de absurdos e realidades que infelizmente nos apresentam um Pará (e um espelho norte-nordeste do Brasil) reducionista, do qual decorre uma polarização instigada muito menos por regionalismos ou diferenças de sotaques, regiões ou costumes, e muito mais decorrente de desigualdades sociais entre classes médias/altas e pobres, entre a cidade e o campo.

Basta nos lembrarmos do retrato pintado pelas denúncias de um Estado tido como terra de ninguém, marcado pela truculência policial que promovera o massacre em Eldorado dos Carajás, o mesmo Estado cujas riquezas de Carajás eram e são expropriadas pela sanha mineradora que abre sulcos na terra e provoca danos ambientais e à saúde irreparáveis, em que meninas são encarceradas com adultos em jaulas imundas, em que denúncias de trabalho escravo em grandes fazendas ocupam as horas de trabalho de fiscais, em que campos e mais campos de futebol são desmatados diariamente…

Essa imagem, por mais real que seja, por mais denunciadora que é, foi apropriada para o discurso da polarização entre norte e sul do Brasil, como se ao segundo fossem inteiramente estranhos celas imundas, trabalho escravo, sanhas mineradoras e truculências de forças policiais. Como se o “atraso” estivesse apenas enraizado nas latitudes superiores, enquanto nas inferiores um Brasil do self-made man “moderno” e “progressista” estivesse pronto para o consumo e para um modelo de política de Estado mínimo, enxuto e atento apenas a uma realidade: a dessa estranha criatura do sul.

Pois não é que essa brasivisão sulista despontou, com suas proporções, no Plebiscito do Pará? Se o Estado foi pintado, ao longo dos últimos anos, nas cores da “terra de ninguém” pelas mídias, não seria a criação de mais autoridade, mais Estado, mais políticas públicas um importante passo para que o segundo maior Estado brasileiro se visse livre de flagelos seculares?

É certo que não. Não porque classes médias e altas saiam às ruas do Brasil clamando, em passeatas esvaziadas de sentido, seu posicionamento contrário à corrupção da máquina pública. Não porque católicos e evangélicos tenham perdido a chance de se aproveitarem de novas divisões administrativas e expandirem suas fés. Não porque o PT sairia perdendo com o desfacelamento do Pará. Não porque o Duda Mendonça fez uma campanha ruim. Não porque o Simão Jatene seja tucano. Não porque o projeto de Belo Monte esteja entravado pelo debate. Não porque os belenenses perderiam as riquezas ditas de todos os paraenses (!!!!) para os novos Estados de Tapajós e Carajás. Não porque a Joelma e o Chimbinha ficariam sem saber o que fazer.

Os novos Estados criados acentuariam, isso sim é verdade, as proporções tão desiguais do Brasil urbano e rural: O novo Estado do Pará, remanescente do desmembramento de Tapajós e Carajás, contaria com um índice de alfabetização semelhante ao do Estado de São Paulo. Contaria com a maior estrutura pública para si, 127 hospitais e 4 universidades, deixando seus possíveis novos vizinhos à espera da criação de suas próprias estruturas.

A derrota do projeto de divisão nos deixa uma importante constatação: Belém, e mais cinco das dez maiores cidades do Pará ficariam no Estado remanescente. Assim o Pará urbano, em contraste ao Pará do sul, tradicionalmente agrário e extrativista, com um baixo índice de desenvolvimento humano, apodera-se cada vez mais do discurso da desintegração. Cada vez mais ganha espaço o discurso forjado em meio aos segmentos altos e médio-urbanos (que vem galgando força no Sudeste e Sul do Brasil) de que as desigualdades regionais não são resultado de um longo processo de colonização, de que os problemas decorrentes dessa colonização (ou dessas colonizações) não são problemas comuns a qualquer brasileiro: a diversidade torna-se argumento para a diferença, a diferença torna-se argumento para a desintegração, a desintegração, argumento para a indiferença ou mesmo para o encobrimento das alteridades.

Felizmente, o resultado do plebiscito, somado à crise das instituições tradicionais, da democracia representativa e dos poderes estatais que presenciamos nestes duros tempos de crise do capitalismo, nos faz entender que dois Estados a mais não resolvem problemas que dependem muito mais de mobilização e sensibilização políticas, de atores que priorizem a superação das desigualdades regionais (em última instância, desigualdades sociais e econômicas). Faz-nos pensar que as desigualdades do país não são silenciosas. Que não são artificiais nem menos visíveis por estarmos em um ou em vários Estados. São desigualdades presentes e muito objetivas. E que o desafio de superá-las é enorme.

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