O continente do labor

Por Laila Maia Galvão

O continente do labor é o nome do mais novo livro* publicado pelo sociólogo da Unicamp Ricardo Antunes, conhecido por suas pesquisas na área da sociologia do trabalho.  Se o título nos dá algumas pistas sobre os temas que serão tratados na obra, a ilustração da capa é ainda mais enfática: uma pessoa mestiça carrega nas costas uma enorme cesta que parece estar muito pesada, uma vez que há um homem forte por trás ajudando a segurá-la. É como se ele carregasse o mundo em suas costas. No entanto, a cesta pesada está carregada de belas flores, lírios, que iluminam a tela. A pintura em questão é do famoso pintor mexicano Diego Rivera e se chama “El vendedor de Alcatraces”. Se a imagem de Rivera representa um continente de espoliação dos trabalhadores latino-americanos, observado no olhar sofrido e cabisbaixo daquele vendedor que está de joelhos, também representa a rebelião, a revolução, a beleza e a felicidade. Do trabalho e dos trabalhadores florescem os belos lírios.

O livro reúne artigos diversos, muitos deles escritos conjuntamente com outros pesquisadores. A primeira parte trata do trabalho na América Latina, fazendo referência à sua história e destacando em diversos países a forma como se constituiu o movimento sindical. Na segunda parte, há artigos que abordam questões trabalhistas no Brasil. Ao final, há um apanhado geral sobre as principais centrais sindicais latino-americanas. De acordo com o próprio Antunes, a obra é um reflexo de sua aproximação, nos últimos anos, com a América Latina, a partir de sua participação em intensos debates acadêmicos e políticos nesses países. Ricardo Antunes parece, portanto, estar atento, assim como outros, para as possibilidades que podem surgir de um diálogo entre a experiência brasileira e a de nossos países vizinhos.

Além de se inserir nessa nova tendência de olhar com maior atenção o que está ocorrendo ao nosso lado, a partir de uma imensa curiosidade em relação às inovações institucionais de países como Bolívia, Equador e Venezuela, Ricardo Antunes se sente mais à vontade para debater alguns temas que lhe parecem importantes nesse início de século XXI. Isso ocorre porque sua atividade nos anos 80 e 90 foi bastante marcada por apontar as falhas do neoliberalismo e por buscar frear seus avanços. Também nesse período, Antunes tinha que, a todo o momento, firmar o trabalho como uma categoria ainda relevante para as ciências sociais. Se ainda não é possível afirmar que esse debate está superado, é possível dizer que Antunes e outros sociólogos do trabalho não precisam gastar todas suas energias nesse debate, pois ele não mais protagoniza as discussões dessa área.

O livro começa com a seguinte frase: “o continente latino-americano nasceu sob a égide do trabalho”. A partir daí, constrói-se uma linha histórica que abarca a fase pré-colonial, mas que foca o período da colonização a partir do trabalho indígena e do trabalho escravo, e posteriormente a fase do trabalho assalariado e das atividades manufatureiras e industriais.

No lançamento da obra, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ricardo Antunes explicou que a América Latina pode ser caracterizada não apenas por um histórico de exploração do trabalho, mas principalmente por um processo intenso do que ele chama de superexploração do trabalho, em que a combinação entre extração absoluta e relativa do trabalho excedente oferecia altíssimos níveis de mais-valia para o capital.

Antunes seguiu em sua apresentação do livro (muitas vezes mais empolgante do que os próprios artigos do livro justamente pela fala contundente e apaixonada do autor) destacando o surgimento de novas vias abertas na América Latina, a partir do empoderamento das comunidades indígenas e camponesas na Bolívia, da criação de conselhos comunais na Venezuela, do movimento dos piqueteros e das fábricas recuperadas argentinos, da experiência da Comuna de Oaxaca em 2005 no México, da ação no MST no Brasil entre outros. Pergunta então: “Não estaremos presenciando de um afloramento de um novo desenho de poder popular construído pela base, pelos camponeses, indígenas, operários, assalariados urbanos e rurais que começam novamente a sonhar com uma sociedade livre, verdadeiramente latino-americana e emancipada?”. Todos esses movimentos seriam respostas ao que ele denomina como genocídio neoliberal, que se abateu sobre a quase totalidade dos países da América Latina.

Esse otimismo quanto às novas formas de poder popular perpassa a noção de que é possível a emancipação pela via do trabalho. Uma de suas principais teses no livro é apontar o equívoco da ideia de que Marx não seria aplicável à América Latina. Assim, “o exercício do trabalho autônomo, eliminado o dispêndio de tempo excedente para a produção de mercadorias, eliminando também o tempo de produção destrutivo e supérfluo, possibilitará o resgate verdadeiro do sentido estruturante do trabalho vivo, contra o sentido (des)estruturante do trabalho abstrato para o capital”. O socialismo do século XXI, portanto, seria o responsável por permitir o florescimento de uma subjetividade autêntica e emancipada, dando um novo sentido ao trabalho.

É nessa América Latina de grandes contradições, ainda com muros rodeados de maquiladoras e de trabalhadores explorados, que Antunes vislumbra as mais interessantes tentativas de construção do poder popular, com profundo impacto para o mundo do trabalho e para a transformação do chamado continente do labor.

*Agradeço ao colega Adailton Costa pela indicação do livro.

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s