Tributo a Sócrates e ao seu legado de democracia radical

Por João Telésforo Medeiros Filho*

Nos gramados, uma palavra o sintetizava: gênio. Deixo, porém, para os poetas e cronistas esportivos de talento tratarem disso com a elegância e a inventividade compatíveis com o original futebol de Sócrates Brasileiro, o Doutor Sócrates, seja vestindo a camisa do Corinthians, do Botafogo de Ribeirão Preto, do Flamengo, do Santos ou da inesquecível (até para quem não tinha nascido, como eu) Seleção Brasileira de 1982, a Canarinha.

Quero lembrar, aqui, os ensinamentos de Sócrates e seus companheiros de Corinthians sobre o valor inegociável da democracia e a necessidade de alastrá-la para todas as esferas da vida social – em especial, na experiência deles, o espaço de trabalho.

O ideal democrático exige que todas as pessoas tenham o direito de participar de forma igualitária e livre dos processos de deliberação e tomada de decisão sobre as medidas que as afetem.

Votar para os cargos mais altos de dois dos três Poderes formais da República (Executivo e Legislativo) está bem longe de ser suficiente para atender a essa exigência. Não apenas devido a vícios ou desvios do processo eleitoral, mas principalmente porque o poder social a que as pessoas estão submetidas em seu cotidiano vai muito além da Praça dos Três Poderes. A conquista do direito ao voto pelas mulheres – alcançada somente no século XX, é bom lembrar – foi um grande avanço, mas se a nossa sociedade segue estruturada pelo machismo, elas e  nós todos ainda temos muito a lutar contra as barreiras erguidas contra a sua liberdade e igualdade: se a mulher vota, mas em casa é submetida a uma relação hierárquica com o marido, sendo ou sentindo-se obrigada a fazer toda ou a maior parte do trabalho doméstico, tal como costuma ocorrer, nossa democracia ainda está longe de ser uma realidade plena. Se a abolição da escravatura foi uma grande conquista, a ser celebrada, a luta contra as estruturas racistas de nossa sociedade não pode ser secundarizada enquanto os presídios seguirem apinhados de população de cor escura, e as universidades, pouquíssimo frequentadas por ela.

Finalmente, se os trabalhadores são excluídos das tomadas de decisão no seu lugar de trabalho, sofrendo apenas as suas consequências (inúmeras vezes, precarizadoras de suas condições), ainda temos muito a caminhar para democratizar a nossa estrutura de produção econômica.

E foi esse o sentido revolucionário do movimento dos jogadores do Corinthians no início da década de 1980, sob a liderança de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon, que, no contexto da ditadura, quando os brasileiros sequer votavam para escolher o Presidente, exigiram e conseguiram que as decisões do clube que os afetassem – por exemplo, sobre a concentração e até mesmo contratação de novos jogadores – fossem tomadas com participação decisiva deles. Veja o vídeo abaixo e conheça um pouco da Democracia Corinthiana:

“Jogadores, esses ignorantes, a maioria deles sequer sem o 1º grau completo, tomando as decisões do clube?” É como muita gente reage à demanda de democratizar estruturas do futebol ou de quaisquer outros espaços produtivos (sim, o futebol é, também, isso): afirmam a incapacidade dos trabalhadores para entenderem os temas e tomarem decisões qualificadas. Outro argumento utilizado é que os jogadores – e trabalhadores, em geral –  estariam preocupados apenas com demandas corporativas – mais folga, mais liberdade, menos trabalho – que seriam contrárias aos interesses e resultados do clube (ou da empresa, em geral).

A Democracia Corinthiana provou o contrário: os jogadores aboliram a regra despótica da concentração (que os mantinha afastados da família e da convivência social livre, enclausurando-os por dias dentro dos clubes – até hoje é assim), tomavam decisões pelo voto, manifestaram-se politicamente pelas Diretas Já dentro de campo (hoje, a FIFA proíbe manifestações políticas) e foram bicampeões paulistas em 1982-83 (Sócrates foi o artilheiro, em 1983), num time que jogava “por música”, produzindo partidas como a goleada de 5 a 1 contra o Palmeiras no final do 1º turno do campeonato de 1982:

O mais importante, no entanto, não são os bons resultados. “Ser campeão é detalhe”. O fundamental é criar um ambiente de trabalho democrático, em que a participação dos trabalhadores é instrumento de garantia dos seus direitos e expressão de suas ideias e sentimentos sobre a prática – futebolística, no caso – em que participam.

Na última Copa do Mundo, demonstrou-se mais uma vez que, se futebol arte não garante vitórias, um time burocrático e formado por jogadores aplicados e disciplinados tampouco o faz. O futebol jogado com inteligência, talento e criatividade é um valor em si, independentemente do resultado – embora, claro, deva buscar sempre a vitória, e muito provavelmente seja mais apto a garanti-la (vide o Barcelona de hoje!). Da mesma forma, nem democracia nem autoritarismo garantem, por si sós, resultados; porém, a inclusão efetiva dos trabalhadores é um valor em si. A questão é de princípio – e, aliás, tem-se percebido que promove também maior eficiência, vide, por exemplo, as iniciativas (ainda que limitadas) e os livros do empresário Ricardo Semler (v. post “Democracia empresarial” aqui no blog). É preciso democratizar o espaço de trabalho e produção, a família, a escola, a Igreja, a universidade – onde hoje as grandes lutas nesse sentido, no Brasil, são pela paridade entre estudantes, professores e servidores, e por maior abertura à participação social. Foi o ensinamento de Sócrates, que no vídeo acima afirma que a democracia é o futuro de todas as organizações.

A estrutura econômica do futebol movimenta bilhões de reais e euros no mundo, hoje. Produz, ainda, prestígio para alguns dirigentes e jogadores, frequentemente utilizado como capital político. É capaz de promover inclusão e oportunidades, mas também, concentração de renda e poder e condicionamentos nada republicanos à atuação do Estado. Bons resultados eventualmente alcançados por clubes e seleções não devem frear nossa busca por democratizar essa estrutura – dos clubes, da CBF, da FIFA e de todas as instâncias.

Por falar em FIFA, termino citando palavras do Doutor Sócrates no último texto que publicou em vida – ontem, na sua coluna na Carta Capital: “2014 verde“:

Essas acima são algumas questões que por certo estão longe da lista de prioridades do tal comitê organizador, que de tão organizado teve de mudar (?) seu comando nos últimos dias. Imaginei que ele deveria ser dirigido por gente do Estado brasileiro, que coordenasse as inúmeras funções exercidas por diferentes fontes para endereçá-las ao mesmo ponto comum às vésperas do campeonato de futebol. Mas não: seu organograma passa ao largo do poder público e trata tudo como propriedade privada, sem compromisso algum com o povo brasileiro, que, no fim, é quem está bancando a farra toda. Farra essa que pode jogar por terra todas as conquistas da última década, por absoluto distanciamento dos interesses nacionais. Uma inconsequência sem limites das instituições que delas deveriam cuidar.

*Santista apaixonado, mas ainda mais apaixonado pelo futebol arte e sobretudo pela democracia radical pregados e praticados pelo Doutor Sócrates.

PS: não percam a Ode ao Magrão, na qual o Idelber Avelar conclui: “Magrão é nosso Nietzsche, nosso Zaratustra”.

E também o texto que o Idelber, que era amigo do Sócrates, publicou hoje: “Magrão (1954-2011), o que viveu na alegria, sem medo“.

Anúncios

5 respostas em “Tributo a Sócrates e ao seu legado de democracia radical

  1. PS: Enfatizo que ele foi censurado “mesmo depois de morto” porque, normalmente, a guerrilha ideológica acaba (ou, pelo menos, arrefece e as características do adversário são reconhecidas) quando o adversário tomba, mas como a memória do Sócrates será eterna, não é bom arriscar…

  2. Pingback: Tributo a Sócrates e ao seu legado de democracia radical* « Da Planície

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s