Precarização do trabalho: o caso da UnB

Por João Telésforo, do blog Da Planície

Ouço muitos estudantes e professores reclamarem de insegurança no campus da UnB. Pois bem, o mais grave problema que temos hoje na universidade nesse setor é a falta de segurança no trabalho. Não bastasse a forte precarização do trabalho gerada pela terceirização (ver o texto do juiz e professor da USP Jorge Luiz Souto Maior postado aqui), que não garante condições dignas de vida aos trabalhadores, a precarização chega ao ponto de ameaçar a própria sobrevivência deles (transformada em “vida nua”, sem nenhum valor, para falar com Giorgio Agamben).

Não é possível que o assassinato de três operários da obra do HUB, soterrados dolosamente (risco assumido – ou, no mínimo, culpa consciente, segundo fortes indícios) pela empresa contratada para fazer a obra, enseje apenas mais um capítulo de manifestação da nossa indiferença.

Não encontrei fotos dos três trabalhadores mortos. Como de hábito, os operários seguem invisíveis para nós na vida e na morte.
Não encontrei fotos dos três trabalhadores mortos. Como de hábito, os operários seguem invisíveis para nós na vida e na morte (leia sobre Olavo Hansen aqui: http://ven.to/bL_).

Não é possível que sigamos tolerando o fato de vivermos numa sociedade e numa universidade onde trabalhadores se vêem forçados a trabalhar sob constante e sabido risco de vida, sob os chicotes econômicos dos capatazes das empresas. Nessa obra, houve trabalhador demitido porque não aceitou entrar no buraco onde os três faleceram; esses três, se o faziam, era com muito medo, segundo o relato, e não por livre escolha, mas compelidos por necessidade de sobrevivência (v. matéria abaixo e também esta). Esse é o retrato do sistema econômico onde vivemos, meus amigos; depois ainda querem vir me dizer que não existe relação de poder assimétrica entre empresa e trabalhador, utilizada para servir à exploração deste?

Se há alguma crise na UnB, numa gestão que se pretende progressista, é a crise do trabalho precário. Se há satisfações que ela deve à comunidade da UnB e externa, é sobre as medidas que tem realizado para combater esse problema. Espera-se que não se esconda numa postura medíocre que se contenta em se eximir da culpa direta pelos acontecimentos, mostrando que tinha advertido a empresa e tentado paralisar a obra. Devemos exigir dos órgãos do poder público que garantam condições dignas e seguras de trabalho, não apenas que tentem fazê-lo de modo impotente.

Tampouco se pode tratar disso como caso isolado. Indenizar as famílias dos três operários e punir os seus irresponsáveis assassinos é necessário, mas insuficiente. É preciso enfrentar as raízes políticas do problema: campanha contra o trabalho precário na UnB, já! Em homenagem a Raimundo José Lopes da Silva, 24 anos, carpinteiro; Nelson Holanda da Silva, 38 anos, ajudante de pedreiro; Lourival Leite de Morais, 46 anos, pedreiro.

(O Auditório Dois Candangos, da UnB, leva esse nome em homenagem a Expedito Xavier Gomes e Gedelmar Marques, que morreram em um desabamento durante a construção, em 1962).

Sim, é possível. Mais ainda, é provável que sigamos indiferentes. É preciso lembrar, porém, que temos, sim, a alternativa da indignação; podemos, sim, escolher o caminho da ação transformadora, e não o da resignação. Temos diante de nós, para evocar Darcy Ribeiro, a oportunidade de definir o tipo pessoas que escolhemos ser: “Há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.

PS: com correções feitas no dia 01/08, que explicarei no próximo post aqui no blog.

Do site da UnB:

LUTO – 21/07/2011

Amigos e parentes das vítimas comentam tragédia em obra do HUB

Operários mortos em desabamento queixavam-se da falta de segurança na construção
Hugo Costa – Da Secretaria de Comunicação da UnB

 Tamanho do Texto

 O ajudante de pedreiro Nelson Holanda da Silva, de 38 anos, era admirado por seu empenho no trabalho e pelo jeito bem humorado. “Ele era muito legal e um exemplo de trabalhador. Muito triste perder alguém assim”, conta o colega de trabalho Almir Pereira Lima. “Hoje, quando chegamos às 7h, estávamos brincando no vestiário”, lembra emocionado. O companheiro de profissão era uma das poucas pessoas próximas que ainda reuniam forças para falar sobre o desabamento que matou três operários, na manhã desta quinta-feira, na construção do Instituto da Criança e do Adolescente no Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Casada com Nelson há 16 anos, a empregada doméstica Mary Pereira dos Santos foi atendida por psicólogos do hospital assim que chegou ao hospital, no início da tarde. “É difícil falar o tamanho da tristeza”. O filho dela, Alan Santos, trabalhou com padrasto na obra. O rapaz de 18 anos relata que as queixas do operário sobre falta de segurança na obra eram comuns. “Ele falava que não havia proteção e que era grande o risco de acontecer um acidente”.

Reclamações também eram constantes na casa do carpinteiro Raimundo José Lopes da Silva, de 24 anos, outra vítima do desabamento. “Ele falava que não tinha a menor segurança. Tirou até fotos para me mostrar”, conta a viúva do operário, Gilciane Rocha de Lima. O casal tem um filho de dois anos de idade.

Pedreiro experiente, Lourival Leite de Morais, de 46 anos, é outro a deixar um vazio na família. Pai de quatro filhos, ele era casado há 17 anos com Zilda Valentina dos Santos. “Infelizmente tive a notícia do acidente pela televisão. Quando cheguei, soube que ele era uma das vítimas”, diz. Ela disse que Lourival andava estressado com o trabalho e teve de comprar luvas de segurança com dinheiro do próprio bolso. O sobrinho do operário Rivaldo Alves reclamou das condições de trabalho nos canteiros de obra do Distrito Federal. “É um absurdo que isso esteja acontecendo com tanta frequência em Brasília”.

APOIO – As famílias foram atendidas por psicólogos e assistentes sociais da equipe do HUB. “Os parentes que solicitarem continuarão sendo assistidos”, disse a psicóloga do hospital Fernanda Nascimento. A diretora de Desenvolvimento Social do Decanato de Assuntos Comunitários, Terezinha da Silva, registrou os contatos dos familiares e disse que especialistas da universidade vão acompanhá-los. “Vamos auxiliá-los no que for possível”, garantiu.

Marco Aurélio Almeida, representante do departamento de recursos humanos da empresa Anhaguera Engenharia, contratada para obra, também esteve no HUB. Ele informou que a construtora pagava seguro de vida aos trabalhadores e que as despesas com os funerais também estavam cobertas. “A empresa vai prestar toda assistência necessária. Vamos conversar com cada uma das famílias”, avisou. Outro compromisso assumido pela Anhaguera é o transporte das famílias ao Instituto Médico Legal para a retirada dos corpos. Os parentes de Nelson e Lourival moram em Planaltina de Goiás. A casa da família de Lourival é na Estância Mestre Darmas, bairro de Planaltina (DF).

Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada. Textos: UnB Agência. Fotos: nome do fotógrafo/UnB Agência.

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Uma resposta em “Precarização do trabalho: o caso da UnB

  1. O problema da terceirização em universidades (autarquias públicas de forma geral) parece mesmo que começa a despontar. Na USP semestre passado passamos por maus bocados, de certa forma ainda estamos passando por que, em matéria de relação “capital-trabalho”, as soluções num geral atacam apenas a crise e esquecem de buscar solução no organismo em si. A pergunta é até quando vão aceitar que a “excelência” acadêmica seja sustentada pela exploração de um trabalho semi-escravo?

    Ivan de Sampaio
    Blog: http://desmontadordeverdades.blogspot.com/

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