Especulação imobiliária versus direito à moradia no DF

Estima-se que haja mais de 50 mil imóveis vazios no DF. A especulação imobiliária constitui barreira ao direito à moradia. É contra essa situação que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto luta.

DF tem a menor proporção de moradores donos de suas residências: apenas 59%

Diego Amorim – Correio Braziliense

Publicação: 26/06/2011 09:43 Atualização:

Na cidade onde uma quitinete chega a valer meio milhão de reais, fugir do aluguel é mais difícil do que em qualquer outro lugar do país. O Distrito Federal possui a menor proporção de moradores com imóvel próprio: 59%, contra uma média nacional de 70%, segundo radiografia feita pelo Correio com base em números do Censo 2010, consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O vizinho Goiás aparece em seguida no ranking, com 64%.

Enquanto no DF 30% dos domicílios são alugados, nas outras unidades da Federação a média não passa de 18%. Especialistas elegem como o principal motivo da discrepância a escassez de terras disponíveis para construção, o que distancia a oferta da demanda e serve de justificativa para o mercado cobrar preços salgados. Em áreas nobres, como em condomínios às margens do Lago Paranoá e no futuro Setor Noroeste, o valor do metro quadrado ultrapassa os R$ 10 mil.

Apesar de parecer um contra-senso o fato de Brasília — dona da maior renda per capita do país — ter a menor quantidade de imóveis próprios, os números não surpreendem o mercado. “A disponibilidade de terreno nunca foi suficiente para atender a demanda”, afirma o presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do DF (Ademi-DF), Adalberto Valadão. Se há pouca oferta, a terra fica mais cara e o imóvel, também.

Para o economista e professor das Faculdades Integradas (Upis) Carlos Alberto Reis, é natural que os preços mais altos façam as pessoas optarem pelo aluguel. “A capacidade de investimento para ter a casa própria em Brasília supera a observada nos outros centros urbanos”, reforça ele, que desenvolve um estudo sobre brasilienses que até possuem imóveis em algum lugar do DF, mas preferem pagar aluguel para ficar perto do local de trabalho.

Há sete anos, a técnica em administração Vera Lívia Moreira de Miranda, 53 anos, adquiriu um apartamento na planta, em Águas Claras. Ela e a família, no entanto, vivem como inquilinos na Asa Norte. Alugam o imóvel próprio por R$ 1,2 mil e pagam R$ 2,3 mil onde moram, fora R$ 450 de condomínio. “A vida acaba ficando mais cara, mas hoje em dia é inviável para a classe média comprar um apartamento no Plano Piloto”, comenta.

Funcionalismo
Os servidores públicos que chegam a Brasília também ajudam a explicar as estatísticas. A maioria, apesar dos bons salários, começa morando de aluguel. “Não tem outro jeito: ou aluga ou mora muito longe de tudo”, diz o mineiro Daniel Gontijo, 31, que paga R$ 1 mil por mês para viver em um cômodo de 29 metros quadrados no Sudoeste, a 2,5km do prédio do Ministério Público, onde trabalha. “Com esse valor, alugaria uma casa em qualquer bairro nobre de Uberlândia (MG)”, compara.

Na próxima década, a quantidade de domicílios próprios no DF deve se aproximar da média nacional, na opinião do presidente do Sindicato da Habitação do Distrito Federal (Secovi-DF), Carlos Hiram. Ele acredita que a facilidade de financiamento e a abundância do crédito imobiliário são capazes de compensar a pouca oferta. “Apesar da enorme demanda reprimida, houve uma revolução no mercado nos últimos anos que mexerá nesse cenário”, afirma.

Imóveis vazios
O Secovi-DF não possui estatística oficial sobre quantos imóveis ociosos existem no Distrito Federal. Representantes do mercado, porém, estimam que esse número varie entre 50 mil e 60 mil, o que representaria até 7,7% do total de domicílios mapeados pelo Censo 2010. Havia uma expectativa de que, com a chamada Lei do Inquilinato em vigor — que diminuiu a burocracia no contrato de aluguel, até mesmo sem a obrigatoriedade de fiador em alguns casos —, mais da metade dos imóveis ociosos passaria a ser ocupada. A previsão não se confirmou. Muitos donos de apartamentos no Plano Piloto, por exemplo, ainda preferem contentar-se com a valorização a correrem o risco de amargar prejuízos com inquilinos.

Valorização crescente
O mercado reconhece que, após o boom dos últimos três anos, a margem de crescimento do valor dos imóveis será menor em 2011. No entanto, o presidente da Ademi-DF, Adalberto Valadão, nega estabilização dos preços. “Não existe isso, é conversa fiada. Agora, há uma tendência de crescimento menor, o que em algum momento iria acontecer”, afirma.

A valorização média dos imóveis em 2008 no DF foi de 50%. Apartamentos no Sudoeste protagonizaram casos emblemáticos, com saltos de até 80%. No ano seguinte, a variação atingiu 25% e, em 2010, ficou em torno de 20%. Este ano, a margem mínima já tem alcançado 15%. “Seguramente o percentual deste ano continuará batendo toda e qualquer aplicação financeira”, diz Valadão.

Para o mercado imobiliário, o limite de crescimento em Brasília está longe de ser alcançado. Segundo os especialistas, no Plano Piloto, por exemplo, a escassez de terrenos livres e as limitações impostas pelo tombamento justificam a continuidade do crescimento.

Palavra de especialistas

O que é mais vantajoso: alugar ou comprar?

Comprar
“Do ponto de vista de investimento, é claro que comprar imóvel em Brasília é melhor do que pagar aluguel. Quando se compara a valorização e o que o aluguel traz de rendimento, a constatação é que a compra é a melhor opção.”
Adalberto Valadão, presidente da Ademi-DF

Alugar
“Do ponto de vista econômico, faz sentido pagar aluguel em Brasília. O valor absoluto pode aparentar ser caro, mas ele está baixo. No DF, o aluguel varia entre 0,3% e 0,4% do preço do imóvel, enquanto em outras cidades fica entre 0,7% e 0,9%. Muita gente compra contando com a valorização, mas não faz essas contas.”
Adolfo Sachsida, economista e professor da Universidade Católica de Brasília

Depende
“O aluguel que se paga em Brasília ainda é baixo em relação ao preço do imóvel. Há espaço para crescimento e é o que deve ocorrer daqui para frente. No entanto, ainda há a ideia de que aluguel é dinheiro que vai para o lixo. E morar na casa própria continua sendo o sonho do brasileiro. Cada um deve analisar a situação e chegar a sua própria conclusão.”
Carlos Hiram, presidente do Secovi-DF

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4 respostas em “Especulação imobiliária versus direito à moradia no DF

  1. Falta discutir uma inevitável questão. Como pode faltar espaço nessa cidade? Há apenas 2,5 milhões de pessoas no DF inteiro! O DF tem 5.800 km²! O município de São Paulo tem apenas 1.500 km² e abriga uma população de mais de 11 milhões de pessoas! A densidade populacional de São Paulo é 14x vezes maior que a de brasília!! Como pode faltar espaço se São Paulo tem 14x mais gente na mesma área?? A razão disso é simples: o plano piloto, a área mais extensa e nobre do DF, abriga menos de 400mil dos seus 2,5 milhões de habitantes por ser tombado pela Unesco. Por ter sido planejada, por razões de urbanismo e qualidade de vida, algumas características do plano piloto não podem ser mudadas de acordo com as regras do tombamento. A questão é: para que serve o tombamento? Do que adianta manter intacto os padrões de urbanismo e qualidade de vida do plano piloto e gerar um caos nas áreas arredores?Quantos se beneficiam do tombamento do plano piloto e quantos são prejudicados por ele? Os 400 mil que residem no plano são minoria comparados com os 2,1 milhões que residem nas áreas arredores. Por que uma minoria é favorecida e a maioria prejudicada? Falta mesmo espaço no DF? Ou será o tombamento uma oportuna reserva de mercado que pressiona a alta dos preços e beneficia os especuladores imobiliários possuidores do grande capital?

  2. Esse problema tem algumas faces:
    A migração que sempre ocorreu e que gerou uma área conhecida com CEI (Centro de Erradicação de Invasões) que se transformou na Ceilândia.
    Migrações só para obter terrenos e vender.
    Roriz que causou uma migração em escala gigante nunca vista com fins eleitoreiros.
    Isso tudo fez crescer muito a procura.
    Mas em qualquer lugar organizado do mundo existe sim um forte urbanismo que faz com que as cidades sejam habitáveis, com menor problema de trânsito, mais facilidade de acesso a serviços. O problema é que o Brasil nunca teve isso, quando foi criado um lugar que tem , junto com as migrações, dá nisso.
    A idéia de transformar Brasilia numa São Paulo me parece insana, talvez descentralizar a cidade, levar serviços as áreas mais afastadas, fortalecer o urbanismo nas áreas próximas ao plano, melhorar o transporte coletivo e impedir qualquer tipo de ocupação desordenada seriam atitudes melhores.
    O urbanismo do plano piloto não é um erro, mas um acerto cercado de coisas erradas. Precisamos melhorar o urbanismo e a condição de vida das áreas próximas e não fazer uma Águas Claras que ficará inabitável quando todos os seus prédios subirem. Ficará uma São Paulo.
    Tem gente falando em ocupar a Água Mineral, destruindo nossa água aqui no DF, uma insanidade.

  3. A questão é dar melhor qualidade de vida a quem mora no entorno do Plano. É fornecer um transporte público melhor, mais rápido, bairros melhor urbanizados, e isto, infelizmente, o governo nunca se preocupou.
    Agora, quando parece se preocupar, percebe-se que só ajuda os bairros onde há interesses de construtoras, nos demais, jogam aos urubus.

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